Verão | 24/02/2010 05h39min
O distinto leitor é chegado numa aventura? Desbravar caminhos, se embrenhar em estradinhas misteriosas, se achar e se perder e se achar e se perder pra se achar novamente? Então pegou o texto certo, é por aqui mesmo!
A viagem é longa, mais pela falta de informações precisas do que pela quilometragem propriamente dita. Mas vale cada metro de terra batida, cada centímetro de barro. No fim do caminho, o tesouro, a maravilha de cachoeira que estampa a página: Cachoeira Pedra Branca. É de tirar o fôlego.
Mas vamos às coordenadas, que aqui não adianta GPS não, a coisa funciona mais na base do “sabe a casa do seu Zé? Aquela amarela? Pois é, depois dela tem um aradinho, uma cerca de pedras e um xaxim com uma planta bem colorida. Então, no segundo xaxim o senhor dobra à direita”.
“Segundo xaxim à direita” é poesia pura. Mas, é preciso admitir, não nos ajuda muito, tal a profusão de casas amarelas, aradinhos, cercas de pedras, verdadeiras esculturas de
elegância medieval.
Pois bueno,
nossa aventura começou no acesso secundário de Capão da Canoa. A única indicação que eu tinha era que a Cachoeira ficava em Itati, distrito de Boa União. E que era preciso pegar a Estrada do Mar em direção a Curumim-Terra de Areia, até a Rota do Sol.
Na largada, a primeira dificuldade: avistamos uma placa indicando Itati e o nosso motora embicou à direita.
A paisagem, em vez de se tornar bucólica, vai ficando mais e mais árida. Alguma coisa estava errada. Caramba: estávamos em plena BR-101. Meia volta volver. Rota do Sol de novo, para tentar achar o rumo certo.
E começamos a perguntar. Paramos numa casa quase à beira da estrada. Desci, bati palmas, ô de casa, uma informação. Vem uma senhora dos seus 40 anos, bonita, pele castigada do sol. Diz que não sabe, nunca ouviu falar de cachoeira por ali. Mas quem sabe o vereador que mora em frente?
Vamos até lá. O vereador, muito solícito, dá muitas explicações. Todas erradas,
constatamos logo a seguir. Seguimos sua orientação e fomos
dar em lugar nenhum.
Daí passa um guri de bicicleta, veículo oficial do pedaço, e nos dá a barbada. Tem que voltar, passar o riozinho e seguir até o posto Limeira. Cuidado que tem pardais e a velocidade permitida é 40 km/h.
Perplexidade geral; alguém sugeriu que devia ser travessia de gnomos.
Depois de passar pela Tenda do Gordo, Tenda do Pardal, Tenda do Vovô, Tenda Colonial, Tenda Serra e Mar, Tenda da Jana, Tenda do Véio, Tenda Boca Rica e muitas outras, chegamos finalmente ao posto Limeira. Que não chega a ser bem um posto: é só uma bomba de gasolina. O nome está meio escondido, mas ele é realmente fundamental pra achar a cachoeira. AUTO POSTO LIMEIRA, anotem esse nome.
Dobra-se à direita no quase posto, surge uma pontezinha de pedra, pega-se à direita e aí começa o deslumbre. Jardins coloridos, igrejinha branca com muro de pedras, casinhas de madeira de todas as cores, muito milho e banana, revoada de borboletinhas brancas,
pequenas pontes de madeira e corda, pra vivente
atravessar a pezito no más. É muita água que tem de ser transposta, de carro ou a pé. Tudo obra da cachoeira que se derrama lá de cima.
Passamos por mais uma igreja, essa com um campinho de futebol plantado à sua direita. Continuamos meio no instinto, porque depois de cada ponte há sempre duas opções.
Em seguida começa uma subidinha punk: íngreme, estreita, chão de terra e pedra.
O ar muda, fica úmido e já se ouve o som das águas. Começamos a ver alguns carros parados. Eles param onde dá. Paramos também e seguimos a pé. Tem gente que leva cadeirinha de praia. Mais adiante um grupo fazendo churrasco. Ouve-se reggae mais perto da cachoeira. E dê-lhe subir a pé, com cuidado, caminho de pedras escorregadias. E sobe que sobe, o pessoal fica para trás e diante de nós ela aparece imponente: a Cachoeira Pedra Branca, volumosa, exuberante, quase um escândalo da natureza.
A gente fica ali, com cara de bobo diante de tanta beleza, na mais
pura contemplação. Nada a dizer. Não há palavra
que caiba nesse momento. Puro êxtase.
Depois de alguns bons momentos, missão cumprida, é hora de voltar.
Então eu marco o tempo, agora que já sabemos o caminho: a Cachoeira Pedra Branca fica a 60 quilômetros do acesso secundário de Capão da Canoa, e levamos exatamente uma hora e sete minutos na volta. Na ida, nem ouso dizer.
Agora, prezado leitor, tudo contigo: aí está, literalmente, o caminho das pedras.
Exuberante, a Pedra Branca deixa seus espectadores com cara de bobos diante de tanta beleza
Foto:
Mauro Vieira