Geral | 03/02/2012 14h08min
O fechamento do Grupo Somos, que há uma década luta pelas causas de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, revela um drama que afeta a maioria das ONGs do Brasil. As entidades enfrentam dificuldade de manter atividades devido à escassez de recursos repassados por organismos internacionais, especialmente após a crise na Europa e nos EUA.
A solidariedade europeia em relação ao Brasil tem raízes nas décadas de 60 e 70 e se intensificou nos anos 80 e 90, após a redemocratização do país. As vacas gordas coincidiram, portanto, com a pujança da Europa no pós-guerra e a economia cambaleante no Brasil.
Ao longo da década passada, porém, a realidade começou a se inverter: a recessão transferiu-se para o norte, abalando a Europa, e a bonança assentou-se mais ao sul, com milhões de brasileiros sendo incorporados ao consumo e ao mercado formal, criando uma nova classe média. O quadro, entre tantas consequências positivas, mudou o foco da ajuda transnacional.
O Grupo Somos, por exemplo, entre 2005 e 2012, perdeu dois convênios: R$ 200 mil ao ano repassados pelo governo dos EUA e R$ 250 mil, também a cada 12 meses, da Fundação Schorer, da Holanda.
“Eram recursos importantes, que nos ajudavam em diferentes áreas dos nossos projetos”, detalha a pedagoga Claudia Penalvo, coordenadora técnica do Grupo Somos.
Demais fontes de financiamento
Organizações mais antigas, como a ONG Camp – fundada em 1983 por jovens estudantes, religiosos ligados à teologia da libertação e sindicalistas urbanos e rurais – só não encerraram os trabalhos porque foram obtidas outras fontes de financiamento. A entidade desenvolve projetos com catadores, quilombolas, moradores de áreas de risco e jovens.
De acordo com João Marcelo dos Santos, diretor da Camp, o recurso antes destinado ao Brasil migrou, em parte, para países do Leste Europeu, que se reorganizam após a queda dos regimes socialistas, e nações africanas, assoladas por guerras civis e desastres naturais.
“Em paralelo ao declínio, houve avanço nas políticas públicas no Brasil, permitindo que as ONGs captassem recursos no país”, explica Santos.
Assessor administrativo da Fundação Luterana de Diaconia, Dezir Garcia salienta que o fato de sermos tratados como um país de “renda média” e visto como um “global player” não reduz o papel das ONGs junto aos excluídos:
“Se você colocar a cabeça numa geladeira e os pés no fogo, na média, você estará bem, mas vai morrer igual.”
A Fundação Luterana, conta o assessor, também precisou se reorganizar para enfrentar a nova realidade – a participação internacional, que representava 80% do orçamento, hoje significa 50%.
“Criamos duas grandes frentes: um plano de mobilização de recursos, que ampliou a captação junto aos governos, empresas e pessoas físicas, e um plano de comunicação institucional”, detalha Garcia.
Para sobreviver, Luteranos, Camp e outras ONGs contam cada vez mais com verbas públicas, repassadas, em especial, pelos ministérios do governo federal. Mas as últimas denúncias envolvendo o Ministério dos Esportes e ONGs ligadas a partidos políticos podem tornar a situação ainda mais complicada. Por determinação da presidente Dilma Rousseff, todos os repasses estão sendo revistos.
Fonte: Zero Hora
Grupo RBS Fale Conosco | Anuncie | Trabalhe no Grupo RBS - © 2011 clicRBS.com.br Todos os direitos reservados.