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Conteúdo: portal-social  |  31/05/2010 15h56min

Meu lado esquerdo - Série Meninos do Crack

Comunicação Portal Social

Conheça a história de Fabianinha, uma jovem de vinte e nove anos que trabalha como babá. Fuma crack há dez anos e teve uma filha levada para adoção.


Meu lado esquerdo

Eram umas dez horas de uma noite de verão. Estava no meu ponto, tentando ganhar a vida. Meu ponto nada. Não é só meu, o divido com mais garotas, todas em busca de dinheiro para saciar o vicio das pedras.

Ele chegou, como qualquer cliente, devagar, falando baixo, meio tímido e com receio que alguém veja que está falando com uma garota de programa. Era um rapaz bonito. Chegou perto de mim e perguntou se não faria um programa de graça. Não sei o que esses caras pensam. Que estamos ali por que somos loucas por sexo? Que fizemos de graça com homens jovens e bonitos? Isso não existe! Tô ali me prostituindo, porque quero dinheiro para comprar pedra. Nada além disso. Novos ou velhos, gordos ou magros, para mim, isso não importa. Ele não insistiu. Falou que me pagaria vinte reais e fui.

Ele queria um sexo rápido, então, sugeri que fossemos atrás do ponto mesmo, em um terreno baldio. Para chegar ao terreno, tem que pular um muro alto, mas é tranqüilo, ou pelo menos eu pensava que era.

Assim que pulamos, ele me deu um soco, dizendo que não ia me pagar nada, porque eu era uma vagabunda viciada. Não entendia o que estava se passando. Ele não me tocou, não fez sexo comigo, só me batia. A socos e pontapés, fui perdendo minhas forças. Depois de um tempo que ele estava me espancando, outro homem pulou o muro e começou a me bater também. Estava grávida de cinco meses e disse isso a eles. Então, só me bateram no rosto. Eles deformaram o lado esquerdo. Eu gritei pedindo socorro, mas ninguém ouviu. Só lembro de ter apanhado muito e de ter desmaiado.

Quando eu acordei, o dia já tinha clareado. A primeira coisa que eu fiz foi colocar a mão na minha barriga para ver se meu bebê ainda mexia. Minha boca jorrava sangue. Eles tinham quebrado todos os meus dentes. Vingança? Divertimento? Crueldade? Não sei o que os levou fazerem o que fizeram. Pulei o muro e comecei a pedir socorro. Um casal parou o carro e me ajudou, me levaram ao hospital. Permaneci por quinze dias internada. Passei por uma cirurgia plástica, onde reconstruíram o meu rosto, com uma platina. O lado esquerdo do meu rosto ainda tem algumas linhas, que me contam, quando me olho no espelho, tudo que ocorreu naquela noite.

Foi o fato mais triste da minha vida. E o pior é carregar a dúvida do porquê fizeram tudo aquilo. Nem relações mantiveram comigo. Eu teria feito de graça, já estava ali mesmo. Como reagiria à força de um homem?

Não agüentei ficar mais tempo no hospital. Eu fugi, com dreno e tudo, e fui fumar, como uma maluca. Quando se dá o primeiro pega, suas dores se vão com a fumaça. Não se sente mais nada. Aproveitei e arranquei o dreno com minhas próprias mãos. A pedra me tirou o sentido de vida. Durmo por aí, nas casas abandonadas. Me prostituo por dez reais, porque os caras não pagam mais que isso.

Meu bebê, assim que nasceu, foi levado. Sei da minha realidade, falei para o juiz que não tinha condições de ficar com ele. Nasceu uma menina linda. Coloquei o nome dela de Brenda, mas acho que não é esse seu nome. Uma família a adotou. Foi melhor assim, não posso dar a ela um futuro legal. Não sei, nem ao menos, quem é seu pai, porque fiquei grávida de um cliente.

Meu coração não é ruim. Se eu faço o mal é para mim mesma, que não consigo sair dessa vida. Não queria isso para minha filha. Foi bom que a levaram, porque ela ficará longe desse mundo negro que vivo, dessas ruas imundas, onde me prostituo, e desses homens cruéis que me bateram.


Este texto faz parte do livro Meninos do Crack, da jornalista Ana Paula Nonnemacher.

 

Comentários

lovane a ramos  - 

Denuncie este comentário28/06/2010 01:39

voce pode até viver nessa doga de mundo mais não viva no mundo das drogas.um conselho nunca experimentem drogas.crack isso tem que ter fim...nunca esqueça em quanto ha vida ha esperança e sempre ecredite em deus por que ele pode mover montanhas.tenha fé.

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