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Conteúdo: portal-social  |  14/12/2009 09h51min

Como se cria um pedófilo

Especialistas afirmam que não há um perfil pré-definido para identificar pessoas que sentem atração por crianças, por isso todo cuidado é pouco

Comunicação Portal Social

Na praia, a mãe tira o biquíni da filha para sacudir a areia. A imagem da criança sem roupa passa despercebida pela maioria das pessoas. É vista como uma situação normal, graciosa, encantadora. Para alguém, no entanto, a criança nua pode despertar desejo sexual. Isso está na cabeça de um pedófilo.

Mas não adianta olhar em volta para identificá-lo. Ele não é definido por características físicas ou poder aquisitivo. Não há um perfil definido. Para a Organização Mundial de Saúde, quem pratica a pedofilia é um adulto com uma desordem mental e de personalidade. Interpretada, também, como um desvio sexual. E isso só se poderá ver na prática, se flagrado.

Um pedófilo tem consciência dos seus atos. Sabe que está transgredindo um tabu cultural. Então, procura esconder, disfarçar e dissimular os atos que irão incriminá-lo social e judicialmente. Especialistas apontam que a maioria dos pedófilos é composta por homens.

A sua forma de aproximação das vítimas passa pela tentativa de conquistar confiança. Estratégias como elogios, presentes, levar para passear, oferecer-se aos pais para ficar com seus filhos são comuns. O pedófilo é gentil e educado. Diferentemente de um estuprador, por exemplo, mostra-se calmo. O tratamento para um pedófilo é difícil e longo, por meio de assistência psicológica. A forma de atuar também diverge. Há pedófilos que não fazem contato físico com as vítimas, mesmo que o desejo sexual exista. Neste caso, são pessoas que sentem prazer em olhar para imagens, como fotos e vídeos.

Existem casos em que o encontro pessoal pode terminar em violência física, sexual ou ameaças.

Nesta semana, a prisão dos irmãos servidores públicos Celso e Ivan Sérgio Kurtz, na Grande Florianópolis, acusados de participar de uma rede internacional de pedofilia pela internet, realimentou a discussão sobre o que se passa na cabeça de uma pessoa que age assim com crianças e adolescentes. Nas imagens apreendidas pela polícia, havia cenas chocantes de crianças sendo seviciadas.

“Ninguém nasce pedófilo, assim como não se nasce criminoso, um bom pai ou uma pessoa generosa. A história de cada pessoa imprimirá marcas que poderão influenciá-la no percurso de sua vida”.

Esta é a opinião da doutora e assistente social Catarina Maria Schmickler, pesquisadora da violência sexual contra crianças.

Para a sua tese de doutorado em Serviço Social, defendida pela PUC/SP, Catarina ouviu pais e padrastos que abusaram sexualmente de filhas e enteadas. Todos cumpriam pena da Penitenciária de Florianópolis. A tese foi transformada em livro e publicada pela Editora Argos: “O protagonista do abuso sexual: sua lógica e estratégias”.

A especialista também estabelece diferenças entre o que pratica pedofilia e outras formas de abuso: “Um pedófilo tem atração preferencial por crianças, razão pela qual a literatura o denomina ‘abusador sexual preferencial’. Um pai, padrasto ou avô também podem gostar de se relacionar sexualmente com crianças e adolescentes, mas costumam se relacionar com outras mulheres adultas, daí serem denominados ‘abusadores sexuais situacionais’”, explica.

“Os pais têm que se preocupar, ainda que não seja motivo para pânico. Um pedófilo, ao agir, fica sem noção. Por isso, obrigatoriamente, precisa ser tratado”, diz a psicóloga Schirley Vieira, que atende crianças e adolescentes do Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis.

A psicóloga reconhece que, uma das dificuldades para se identificar um pedófilo – exceto quando flagrado praticando o crime – é que se trata de uma pessoa considerada normal. Na maioria das vezes possui um bom nível educacional, uma rede familiar e social bem constituída, emprego: “Isso faz com que as pessoas acabem por não levar adiante seja sua intuição ou mesmo observação de algum fato que lhes chamem a atenção”.

As razões que levam alguém a exercer a pedofilia não são possíveis de serem enumeradas, pois se tratam sempre de circunstâncias muito particulares e que corresponde a histórias de vidas. “O problema da pedofilia não pode ser resolvido com a demarcação de uma tipologia, de um prognóstico e de uma maneira de tratar. É algo da ordem da moral e da ética que se impõe no interior das cenas cotidianas”, avalia Mirella Alves de Brito, psicóloga, mestre em antropologia e professora da Univali, em Biguaçu.

Fonte: Diário Catarinense

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