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Itapema FM  | 05/05/2010 10h12min

Nelson Coelho de Castro lança o disco Lua Caiada em show na sexta-feira

Músico quer misturar o novo e o antigo, o samba e a valsa, canções e batuques

MÁRCIO PINHEIRO, Especial

Nelson Coelho de Castro tem uma interessante tese sobre a vida cultural em Porto Alegre:

– Somos, nesta província, um bando de aquários lindeiros, e estes com as suas faces vítreas justapostas, translúcidas, onde todo mundo se vê, se reconhece, mas as águas não se visitam e muito menos os peixes. Nos apartamos por pueril estranhamento, medo e preguiça.

E é para tentar mudar essa estrutura – misturar as águas – que Nelson sobe ao palco do Salão de Atos da UFRGS nesta sexta-feira. Ele está lançando seu trabalho mais recente, o CD Lua Caiada.

Artista de trajetória extensa e obra consistente, Nelson convive bem com o tempo.

– Depois de lançar Da Pessoa, em 2001, comecei a disputar nos projetos culturais do Fumproarte e da Petrobras o patrocínio de um novo disco. Rodava em ambos, seguidamente. Até 2006, quando fui aprovado na Petrobras, mas permaneci envolvido com questões burocráticas. Valeu a espera – conta Nelson sobre os mais de oito anos que ficou sem gravar.

Essa paciência surge de um amadurecimento que se reflete também na sua criação musical. Se nas décadas de 1970 (quando surgiu) e 1980 (quando se consolidou como um dos mais importantes compositores gaúchos) ele demonstrava pressa e até uma certa arrogância, o Nelson do século 21 é mais contemplativo. Mas as referências continuam as mesmas:

– Ainda ouço Chico, Milton, Caetano, Edu Lobo, João Gilberto e nunca abandonei o rock dos Beatles e dos Rolling Stones. Uma salada das buenas.

Ao mesmo tempo, quanto mais caminha para um som amplo, mais Nelson se torna um criador específico. Um digno representante do mainstream da MPB. Isso causa estranheza?

– Como em Porto Alegre, nos últimos 30 anos, a mídia de rádio está mais para o pop rock, quem faz MPB parece propor uma excentricidade – responde.

Em Lua Caiada, o excêntrico Nelson está em busca de uma unidade. O lento trabalho de produção permitiu que ele misturasse composições feitas há tempo – e já testadas em público – com outras quase inéditas. E misturar vem sendo a palavra-chave para Nelson nos últimos tempos. Ele quer misturar músicas novas com antigas. Quer também misturar o público que o acompanha há mais de três décadas com o que ainda pouco conhece a sua obra. Quer ainda misturar seu samba com valsas, marchinhas, canções e batuques que fazem parte de seu repertório.

É bem possível que consiga misturar as águas dos vários aquários da vida porto-alegrense.

Crítica: Mapa das andanças e dos afetos

A lua que surge no céu de Nelson Coelho de Castro vem para iluminar a carreira e jogar novas luzes sobre um compositor-cantor que sempre soube transitar nas penumbras. Se antes era uma necessidade, hoje parece ser escolha, pois só essa opção pode explicar o fato de Nelson ainda não ser considerado um dos melhores sambistas do Brasil.

Nelson projetou-se na emergência do samba feito no Estado nos anos 1970, ainda numa linha de reverência a Lupicinio Rodrigues. Remodelando o samba-canção, o partido-alto e a marcha-rancho, Nelson conseguiu imprimir um estilo até na maneira de cantar. Assim, sua voz sussurrada se presta magnificamente bem à desilusão desbragada de Apela (“Agora, vá cuidar dos seus desalinhos, vá / Sozinha está em seu padecer / Foi se enredar em outro destino / Eu não corro perigo como você”). Mais “lupicínico”, impossível.

Lua Caiada – feito em parceira com nomes como Fernando do Ó, Monica Tomasi, Bebeto Alves, Luizinho Santos e muitos outros – é o mapa das andanças e afetos de Nelson. O letrista com forte gosto pelo jogo de palavras se mostra novamente inventivo em Clara, quase uma vinheta nos seus 17 segundos de duração. E o andarilho se revela um conhecedor dos meandros da cidade onde nasceu e vive em Cadê, em que faz referência a Cristal, Tristeza, Auxiliadora e Centro. Mas o melhor está no Nelson herdeiro de Cartola que parafraseia O Mundo É um Moinho em Samba Machucado e diz: “Água parada não move moinho, não / Mas no peito você desaguou”.

A necessidade de misturar as águas – e os sons, os parceiros, os amigos – continua uma obsessão.

LUA CAIADA – NELSON COELHO DE CASTRO

Sexta, às 21h.

Duração aproximada: 90 minutos.

Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110), fone: (51) 3308-3066.

Onde estacionar: em dias úteis, o estacionamento do Campus Central da UFRGS é exclusivo para estudantes e funcionários da universidade. Há estacionamentos próximos na Avenida Osvaldo Aranha.

O show: com uma banda de nove músicos, Nelson Coelho de Castro apresenta o repertório do novo disco, Lua Caiada, além de temas como Armadilha e Pérola no Veludo. A cantora Monica Tomasi e o acordeonista Luizinho Correa farão participação especial.

Ingressos: R$ 10, com 50% de desconto para estudantes e maiores de 60 anos. Venda apenas no local, na sexta-feira, a partir das 14h. O disco, com 17 músicas, estará à venda no local a R$ 25.

ZERO HORA
Daniel Marenco / 

Nelson Coelho de Castro
Foto:  Daniel Marenco


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