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Vestibular  | 03/02/2009 10h04min

Jovem cego é aprovado no vestibular de Música da UFRGS

O pianista André Vicente da Silva passou no concurso deste ano

Marcelo Gonzatto  |  marcelo.gonzatto@zerohora.com.br

Quando recomeçarem as aulas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o curso de Música da instituição contará com um aluno especial. O pianista André Vicente da Silva, 20 anos, passou no concurso deste ano após superar não apenas a dificuldade das provas teórica e prática, as centenas de concorrentes e o nervosismo comum a qualquer vestibulando. Silva também sobrepujou a cegueira.

Nascido prematuro de seis meses, ficou cego ainda na incubadora do hospital, após receber uma dose de oxigênio que penetrou na corrente sanguínea e lhe danificou a parte posterior dos olhos. Poderia ser o início de uma longa e triste história, a ser contada ao som de um tango choroso. Mas o ritmo que marcou a vida do jovem André foi outro, inspirado pela alegria de Johann Sebastian Bach e pela serenidade de Tom Jobim, dois de seus compositores prediletos.

Ainda criança, jamais deixou de fazer o que o irmão três anos mais velho fazia. Para jogar futebol, enrolava um saco plástico ao redor da bola para se guiar pelo barulho. Para brincar de bolinha de gude, atirava as esferas a esmo até acertar. Com a mesma insistência, aprendeu a andar de bicicleta e a subir em árvores (e cair) como qualquer outro guri. Passar no vestibular foi apenas a última façanha.

Não que tenha sido fácil. Embora toque piano desde os 11 anos, quando se apaixonou pela música e começou a ter aulas práticas no Instituto Santa Luzia, de Porto Alegre, nos últimos três anos teve de aprender a ler partituras em braile. Como não pode percorrer o relevo do papel com uma mão e tocar as teclas do piano apenas com a outra, é obrigado a decorar as músicas que executa para liberar ambas e alcançar com precisão as 88 teclas.

— Para a prova prática, tive de decorar uma peça de uns seis minutos de duração — revela.

Sonho de se tornar professor de piano

Estudar para as disciplinas comuns do concurso, como português e história, foi outro desafio — este vencido com a ajuda carinhosa da mãe, Mara Inês da Silva, 46 anos. Nas noites de sábado, sobretudo nos três meses anteriores ao vestibular, ela se ocupava em ler para o filho a matéria que cairia no vestibular. Além disso, contou com antigos livros em braile e um computador com um programa que lê o que está escrito na tela.

— Todos ajudaram e torceram muito por ele — conta Mara, que mora com o filho e o marido, André Luiz da Silva, 51 anos, em uma casa de madeira no bairro Niterói, em Canoas.

No ano passado, Silva foi chamado como servidor concursado para trabalhar na prefeitura canoense. Seu sonho de se tornar professor de piano, manteve-se intacto. Começará a se concretizar amanhã, quando deverá fazer a matrícula na UFRGS.

Enquanto isso, além de continuar tocando gaita no grupo nativista Terra e Tradição, pratica seus dotes musicais no piano elétrico localizado em seu quarto e desenvolve composições próprias. Uma das mais destacadas é uma valsa que se chama, fazendo jus ao autor, Aventureiro.

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