Daí, num belo dia do sétimo mês de gravidez do segundo filho, Rachel percebeu que havia alguma coisa de estranho naquele cartão colado na caixa do CD de músicas infantis destinado ao marido Mark. Num tom meloso e pra lá de íntimo, Thelma, uma conhecida da família, orientava Mark a aprender as canções para que, com ela, pudessem cantá-las às crianças. O descarado eu te amo finalizava o bilhete e selava a condição: Rachel estava sendo traída. Desencanto igual só conhece quem já passou por experiência semelhante. É o caso da escritora nova-iorquina Nora Ephron, que resolveu contar a história de Rachel no divertido O Amor é Fogo (Ed. Rocco, R$ 26), lançado recentemente no Brasil. Os fatos narrados sugerem que ambas são a mesma pessoa, numa espécie de autobiografia romanceada – versão negada com ironia pela autora.
Rachel Samstat é americana, judia, tinha 38 anos, escrevia livros de culinária e fazia participações em programas televisivos para divulgar receitas. A cozinha, antes um hobby, transformou-se em profissão, depois de alguns jantares servidos para figurões de Washington. Foi também num evento do governo americano que ela conhecera, anos antes, Mark Feldman, o segundo marido. Ele trabalhava como colunista político e tinha voz ativa em decisões do país. Era, no entanto, tão pacato que não parecia oferecer riscos, não despertava a insegurança. Foi assim que ela se deixou enganar pelos meses a fio em que Mark alternava visitas ao dentista ou saídas em busca de meias para o rigoroso inverno. Voltava sempre sem sinais de anestesia ou sem pacote algum. Ao cruzar a porta, seguia para a cozinha e lá beliscava algum dos pratos que Rachel testara. De lá, para o escritório, na parte superior da casa. O sexo, termostato do casamento, nunca apresentara oscilações.
Eram um casal feliz. Melhor: eram um casal normal. Mark fez com que Rachel desatinasse. Primeiro, pela descoberta da traição. Depois, pela postura do marido, que revelou a decisão de contar-lhe sobre o caso após o nascimento do segundo filho. Queriam se casar, ele e Thelma, e ficar com os garotos. Foi com o requinte de chef que Rachel conseguiu temperar a vingança. A receita de Nora Ephron para superar a traição de Rachel está intimamente ligada à história da autora. O livro foi escrito há 22 anos, três depois do fim do casamento dela com Carl Bernstein, o jornalista-pivô do caso Watergate. Já no prefácio, ela usa do fino humor para dissuadir o leitor da ideia de autobiografia. Confirma, no entanto, a proximidade dos casos.
– No livro, eu me “romanceei levemente”, retratando-me muitíssimo mais controlada do que eu era naquela época – diz.
Personagens foram trocados, imagens aproveitadas. Mas o sentido se manteve, o que despertou a fúria judicial de Bernstein. No best-seller, brindando o leitor com comentários ácidos, Nora usa Rachel para descrever o prazer de exorcizar uma história com a palavra.
– Se eu conto a história, controlo a versão. Posso fazer rir, e prefiro fazer rir do que sentir pena de mim. Se conto a história, não dói tanto. Posso suportá-la.
SOBRE ELA
Roteirista das comédias românticas de Hollywood Harry e Sally e Sintonia de Amor, Nora Ephron também é autora do livro Meu Pescoço é um Horror.
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