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Só para Mulheres

Clarice Lispector — Editora Rocco, 158 páginas

Divulgação

Dois conselhos: fubá tira mancha de mofo, e melhor do que copiar o estilo das famosas é ser você mesma. Quem ensina é Clarice Lispector (1920 – 1977), uma das maiores escritoras da literatura brasileira. Essas e outras tantas dicas estão reunidas em Só Para Mulheres, coletânea de colunas publicadas na imprensa nos anos 1950 e início da década de 1960 e que revelam a Clarice jornalista, dona de casa, esposa, mãe e mulher preocupada com moda, etiqueta e boa forma.

O estilo simples, descontraído e direto dos textos contrasta com a prosa intimista e elaborada que Clarice imprimiu em títulos clássicos como A Paixão Segundo G.H., Água Viva e Laços de Família. Mas sem a assinatura de Clarice Lispector: ela escreveu sob pseudônimos de Teresa Quadros e Helen Palmer e como ghost writer da atriz e modelo Ilka Soares, nos jornais Comício, Correio da Manhã e Diário da Noite. Parte deste material já havia sido publicado em Correio Feminino (2006), e agora Só Para Mulheres chega às livrarias com 290 textos, divididos em três partes: Conselhos, Receitas e Segredos.

Mas, melhor do que qualquer dica de Clarice – e há de fato ensinamentos de vida e de economia doméstica que valem para o século 21 e qualquer outra época –, o livro vale pelo que se pode depreender da escritora. Nos textos, desponta a preocupação com a aparência, e a autora famosa pelo olhar envolvente com que encarava os fotógrafos aconselha as leitoras a lançarem mão dos recursos possíveis para valorizar os próprios olhos – das sombras de “ouro e prata” recém surgidas em Paris aos cílios bem escovados.

Repetidamente, a dona de uma silhueta invejável alertava para os perigos dos quilos extras. Ora recomendava não se deixar levar pela gula no inverno, ora começar a dieta de uma vez ou deixar de lado o eufemismo “gordinha” e perceber que se estava gorda. Entre as receitas, havia uma “poção emagrecedora”. Mas, ao mesmo tempo em que aderia à nascente ditadura da magreza, Clarice convocava a buscar a autenticidade, criticando a beleza em série e valorizando a inteligência da mulher.

Nas colunas, Clarice adotou a fala típica da imprensa feminina que ganhava impulso no Brasil na época: um papo de mulher para mulher, em tom íntimo e didático de quem fala a partir da própria experiência – ainda que a colunista não assinasse com o próprio nome. Mulher de diplomata, de quem se separou em 1959, ensina etiqueta e traz novidades de cosméticos e tratamentos. Mãe de dois filhos, Pedro e Paulo, dedicou colunas para a importância de educar bem a prole – inclusive de lembrar o marido de que também cabia a ele esse papel. A escritora dá dicas de culinária e tarefas domésticas (muitas vezes anunciadas como “conselhos de minha vizinha”), destaca os deveres de uma boa esposa e, embora ela mesma atuasse como jornalista, escritora e tradutora, em certo momento mostrase preocupada quanto à falta que fariam aos filhos as mulheres que trabalham fora (Lembre-se! Os textos já têm meio século).

Além daquilo que inevitavelmente dizia respeito às mulheres dos anos 1950 e 1960, a casa, o marido, os filhos e a boa aparência, Clarice avança para outros temas. Fala da importância da leitura, de se lançar a novas experiências, da cidade que se descobre ao levantar-se de madrugada e até dá início a um assunto hoje tão debatido – a necessidade de planejar e aproveitar o próprio tempo.

Inclusive para descobrir uma nova faceta de Clarice Lispector.

Patrícia Rocha - ZH/DONNA
Toque de mestre
Comportamento
“Quem agrada muito desagrada. (...) Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficarem à vontade.”
Vida a dois
“Boa esposa é aquela que torna a vida do lar agradável para o marido, fazendo de sua companhia um refúgio para a sua vida de lutas. Se ele chega exausto do trabalho, a boa esposa não lhe azucrina os ouvidos com queixas, fuxicos, ou insistentes convites para cinema, festas ou reuniões de que ele não gosta.”
Etiqueta
“Já se foi o tempo em que era de praxe recusar várias vezes uma gentileza antes de aceitá-la.”
 
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