Um ano após o início da faculdade de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP), na década de 70, a estudante Gabriela Leite decidiu abandonar o curso e o conforto da casa da família de classe média para se tornar prostituta. A história de Gabriela poderia ser como a de muitas mulheres que decidem fazer do sexo sua profissão e passam anos lutando contra a exclusão social, os abusos físicos e as drogas. Porém, decidida a não viver segregada ou aceitar preconceitos calada, ela fundou a ONG Davida, que luta pelos direitos das prostitutas, e há quatro anos coordena a grife Daspu, que vende roupas confeccionadas pelas profissionais do sexo que caiu no gosto dos antenados.
– Entrei para a prostituição porque queria ter uma vida mais livre, experimentar a boemia, coisa que sempre gostei muito. Claro que não foi fácil, mas não me arrependo da minha decisão. O preconceito existe, fui posta de lado pela minha família, fiquei longe das minhas filhas. Mas eu acho que se você assume algo e existe um preconceito contra, você tem que ir a luta para que um dia esse preconceito acabe – explica Gabriela, hoje com 58 anos.
No livro "Filha, mãe, avó e puta", recém-lançado pela editora Objetiva, ela conta um pouco da sua história, como a passagem por zonas de prostituição em São Paulo e Minas Gerais até chegar na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, a perda da guarda das filhas, e o impacto da exclusão social quando começou a trabalhar pelos direitos das prostitutas.
– A prostituição existe por que há uma demanda por este serviço. Todos sabem que elas existem, todos conhecem pessoas que as procuram. As pessoas não estão acostumadas a ver uma prostituta sair debaixo do tapete e falar. Como nunca fui de engolir sapos e ficar calada, eu falo mesmo. Meu objetivo não é tirar ninguém da prostituição, mas mostrar que a prostituta é uma profissional como outra qualquer e tem direitos iguais a todos – completa.
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