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Sexo e Relacionamento | 14/06/2009 08h10min
Homem de obras e ideias incensadas no país, Donaldo Schüler, 76 anos, acaba de viver mais uma estreia na carreira. Está em cartaz, até amanhã, com direção de Luciano Alabarse, o espetáculo Platão Dois em Um. A encenação é composta por duas peças do filósofo grego, Geórgias: Discurso sobre a Retórica e O Banquete. Esta última, obra em que Platão trata do amor (Eros), tem a marca do professor Donaldo. Ele assina a adaptação do texto. É a primeira vez que este experiente e reconhecido profissional – Patrono da Feira do Livro, Fato Literário – trabalha para o teatro.
Donaldo Schüler, catarinense radicado em Porto Alegre, casado, pai de quatro filhos, enfileira créditos. É poeta, tradutor respeitadíssimo de James Joyce, romancista, ensaísta, professor de filosofia e de grego e também consultor do projeto Fronteiras Braskem do Pensamento.
Na próxima quinta-feira, mais novidades. Donaldo lança Fronteiras e Confrontos, livro em que alinhava ao seu modo os temas apresentados
nas conferências
realizadas em Porto Alegre no ano passado.
Em pleno fim de semana do Dia dos Namorados, professor Donaldo aceitou pensar o amor. Pensar o desejo. Pensar o sentido da vida. Enfim, pensar. Com a palavra, o mestre.
| Como Platão apresenta o amor em sua obra? |
|---|
| Temos que refletir sobre o conceito de Eros na Antiguidade. Não traduzo Eros grego como amor. Amor conduz para sentimentos que não estão contemplados no conceito Eros na literatura grega. Eros na Grécia é uma força de atração cósmica. A aproximação de pessoas é uma das instâncias em que age Eros, mas o centro é uma atração geral. Por isso Eros é também um conceito político e como tal é que Platão elabora Eros em O Banquete. Ele entende que a cidade, para ser sadia, para que a vida dentro da cidade tenha significado, deva ter como ligação os cidadãos. No sentido grego, então, os cidadãos estão eroticamente ligados. |
| Em O Banquete, Platão não apresenta o amor como nós compreendemos hoje? |
| Não. O nosso conceito de amor nasceu na Idade Média. É um amor subjetivo. É uma ligação que não tem significado cósmico, tem envolvidas no processo amoroso. Mas o conceito de Eros grego é geral. Aí a diferença. |
| E a expressão amor platônico, nasceu como? |
| Ela também se desenvolveu mais dentro do movimento do platonismo, como no próprio Platão. Se entende como amor platônico um amor idealizado que não tem ligação com o mundo concreto, com o corpo. Em O Banquete é totalmente o contrário. O amor atravessa os corpos e atravessando encontra a ideia do belo. Mas esta ideia do belo não é tratada como desvinculada do interesse das pessoas e da cidade, pelo contrário. É a instância que dá sentido à vida da comunidade. |
| Será que todo mundo ama, de uma forma ou outra? |
| Vamos ver. Existem dois conceitos de amor: o de Eros, que é desejo. E, como tal, ele passou para a psicanálise. Quer dizer que as pessoas movidas de desejo é que procuram o objeto do desejo. Existe uma busca mútua do que se deseja. Pode ser tanto ideias, pensamentos, como as próprias pessoas. Existe um outro conceito completamente diferente, que é o conceito bíblico e que se difundiu na Idade Média. Nele o amor é dádiva. Esse amor dádiva é definido no Novo Testamento, especificamente pelo apóstolo Paulo, que disse: O prazer de dar é maior que o prazer de receber. Este é o amor cristão, é a dádiva sem recompensa nenhuma. |
| Mas todos amam? |
| O Ocidente é a confluência desses dois conceitos. Na medida em que todos desejamos, nós amamos. Quer dizer que você pode amar uma corrida de cavalos, uma casa, pessoas, tudo o que você deseja entra na esfera erótica do desejo. Na medida em que estamos interessados pelos outros, e damos sem pensar em recompensa, somos movidos por este conceito bíblico, desenvolvido na Idade Média também como dádiva. Quer dizer que se a pessoa diz que ama, é um termo ambíguo. Em declarações de amor que dizem Eu Te Amo, o que significa isso? Eu te desejo? Eu quero te proteger? Quero fazer alguma coisa por ti mesmo que tu não me retornes nada? Em uma declaração de amor me parece que este conceito não entra em consideração. Se uma pessoa declara amor a alguém, espera que ela retribua o mesmo sentimento que a gente oferece para ela. |
| Na contemporaneidade sofremos mais pressão para amar e ser amado? |
| Do ponto de vista do pensamento grego do erotismo, acho que deve haver uma reerotização da vida. A vida efetivamente se valoriza eroticamente, quer dizer que todo o sentimento que a gente tem para o que quer que seja, fundamentalmente para o belo, dignifica a vida. No momento em que perdemos a ligação com o belo, a vida pode se tornar completamente insignificante, até pode se tornar criminosa. O que acontece, por exemplo, nas guerras de destruição das quais não estamos livres. Cito a Guerra do Iraque, que foi uma agressão pura e simples, sem sentido nenhum. A Guerra do Iraque não é erótica, pelo contrário, é pornográfica. Isso se verifica também na difusão da pornografia. A pornografia não é erótica. É um puro exercício material, repetitivo, que não tem eroticidade nenhuma. Em que os casais se encontram sem manifestar nenhum sentimento. Essa vida interior, a vida na sua integralidade e que envolve o belo e a sedução, essa é a erotização. Essa é a ideia de Platão, a reerotização faz com que a vida adquira significado. |
| É missão difícil o que o senhor chama de reerotização? |
| No momento em que a gente toma consciência da falta de sentido da vida, é neste momento que devemos nos preocupar em buscar um sentido da vida. Assim, O Banquete é muito importante para refletir sobre isso. É uma decisão nossa. Nossa infelicidade é criada não por situações exteriores, mas pela nossa própria ligação com a realidade. Se nós damos sentidos às coisas, as coisas têm sentido. Se nós não damos valor à vida e às coisas e às pessoas, elas não têm valor. Depende de nós. |
| É isto que Platão ensinou ao senhor? |
| É um ponto de reflexão. A filosofia sempre indica coisas sobre as quais a gente deve refletir. Na verdade, a filosofia não ensina, ela leva a refletir. Os que se confrontam com Platão são levados a pensar coisas que são fundamentais para a existência. Temos que exercitar, descobrir. |
| É possível ser feliz sozinho? |
| Pensando helenicamente, Aristóteles disse que o homem é um ser político. Isso significa que nós vivemos dentro da pólis, da cidade. E a cidade é pessoa. A política aparece no momento que eu vivo com outra pessoa. Desde o nascimento, nós nos relacionamos pelo menos com a mãe e depois com o pai, e com os irmãos, com a família, com os amigos da família e com o resto da sociedade. A solidão realmente não existe, nós estamos acompanhados desde o ventre materno. |
| Quando sabemos que estamos amando? |
| O amor marca uma deficiência. No momento em que falta alguma coisa, aquilo que a gente deseja é um ato de amor. Caso contrário, perde o sentido. Platão é discípulo de Sócrates e ateniense. Começa a escrever quando a cidade de Atenas é derrotada por Esparta. Ele acha que a situação de Atenas é muito perigosa e que coisa pior para Atenas ainda pode acontecer. Como pensador, ele pensa sempre em amparar a cidade de Atenas com o pensamento. |
| A filosofia é um caminho? |
| No sentido grego tudo o que leva a pensar é filosofia. Como podemos viver sem pensar? Neste sentido temos manifestações animadoras entre a juventude. Os jovens estão realmente interessados nas humanidades, em saber o que está acontecendo. |
| Então, o senhor não é um pessimista em relação às novas gerações? |
| Absolutamente não. A juventude dá muita alegria. Nunca fomos tão livres como hoje. A dificuldade é que não sabemos o que fazer com a liberdade. Se formos pessimistas, significa entregar a liberdade e optar por autoritarismo, opressão. Agora que estamos livres, devemos saber viver com a liberdade. |
Filósofo, escritor e tradutor, Donaldo Schüler explica as origens do amor e sugere temas para discussão sobre o sentido da vida
Foto:
Adriana Franciosi, bd – 09/09/2002
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