| O conhecimento do crítico musical e jornalista Juarez Fonseca sobre Mario Quintana vem não só da convivência que ele mesmo confessou ser pouca em redações mas também do seu livro Oras Bolas, em que ele conta pequenas histórias e anedotas reais nas quais Quintana é o personagem principal.
Para ele, daqui a mais de cem anos, Quintana ainda será lembrado por sua poesia:
A Academia Brasileira de Letras nunca permitiu a sua entrada lá, mas muito mais que a maioria dos acadêmicos ele é verdadeiramente um imortal.
A entrevista foi realizada pelas jornalistas Sabrina dAquino e Maíra Kiefer e monitorada por Cláudia Ioschpe. Confira a íntegra. Pergunta Bom dia, Juarez. Como você reuniu mais de cem histórias inusitadas ocorridas com o poeta Mario Quintana? Algumas você chegou a presenciar? Juarez Fonseca Eu convivi um ano com Mario na época em que trabalhei na Folha da Tarde, no inicio dos anos 70. Depois, quando passei a trabalhar na área de Cultura em Zero Hora, fiz algumas edições sobre o Mario em épocas de aniversário dele. Aí me lembrei das historinhas, ou anedotinhas. E comecei a reuni-las. Daí saiu o livro, que tem 121 delas. Pergunta de internauta Dá pra se chamar o livro de biografia inusitada do poeta? Juarez Fonseca Não seria uma biografia, mas também não posso dizer que não seja, porque depois de ler as historinhas todas a gente tem uma idéia bem clara sobre como era o poeta. Ele era muito engraçado, grande piadista. Tanto que quando editamos em 1976 um livro reunindo humoristas, chamado 14 Bis, convidamos o Mário para entrar e ele adorou a idéia. Entrevistei para o livro (que se chama Ora Bolas) muita gente que também "colecionava" as piadinhas do Mario. Pergunta de internauta Qual legado deixam Mario Quintana e suas obras? Juarez Fonseca Bem, Mario é o maior poeta gaúcho, e ainda mais neste ano de 2006 está sendo lembrado por todas as suas facetas por causa do centenário. Acho que importante nele era a poesia do cotidiano que fazia, tirando transcendências de fatos que para alguns poderiam parecer banais. Por exemplo, todo mundo conhece aquele poema sobre as ruas de Porto Alegre, em que ele fala de ruas por onde jamais andará e tal. Quem faria um poema desses se não o Mario? E assim muitos outros, a obra dele toda é um convite à reflexão, ao pensamento de que devemos prestar mais atenção nas coisas comuns. E sem deixar de lado as coisas relevantes, claro, como ele também fazia. Pergunta Como era a sua relação com Quintana? Vocês conversavam estritamente como jornalista e colega de trabalho? Juarez Fonseca Eu nunca tive exatamente uma "relação" com ele. Na época que eu falei que trabalhava na Folha da Tarde, o via pelos corredores, no bar do jornal, mas ele era meio distante dos garotos, ou dos focas como eu. Depois, já em Zero Hora, fiz duas entrevistas com ele e o encontrei aqui e ali ocasionalmente. Bem, a primeira entrevista ele quis que fosse por escrito, que eu mandasse as perguntas e depois ele responderia. Escrevi umas 20 perguntas em uma lauda (quem sabe o que é?) do jornal, deixando dois pequenos espaços entre uma e outra, e mandei. Bom, ele cortou mais da metade das perguntas, sem me dizer por que. E respondeu a outra metade naquele pequeno espaço que eu havia deixado entre as perguntas, em uma ou duas linhas. Tenho até hoje aquele pedaço de papel com a letra dele. Já a segunda entrevista eu consegui fazer "ao vivo", gravada, pois na época (anos 80) o Mario já estava mais, digamos, amistoso com todos. Antes era meio arisco com desconhecidos... Pergunta Os episódios que você relata mostram que Quintana era poeta em tempo integral, não apenas no papel? Dentre as diversas tiradas que você reuniu, qual delas é a sua preferida? Juarez Fonseca Eu peguei três passagens históricas do jornalismo: quando comecei, em 1970, ainda não tínhamos o sistema de impressão em off set, que existe ainda hoje. Depois, peguei o próprio off set e depois a mudança das redações de papel (eu gostava daquela esculhambação, bolinhas de papel pelo chão e tal), e enfim peguei dois ou três momentos da informatização. Bom não tenho uma historinha preferida do Mario, mas já vou contar uma que acho ótima. Juarez Fonseca Uma moça, certa vez, citando vários poemas de Mario sobre a morte (era um de seus assuntos recorrentes), quis saber o que ele achava sobre essas coisas de céu, infinito, eternidade, etc. E ele: "Acho que o céu deve ser muito chato, porque lá tem chatos de todos os séculos. Talvez seja melhor aqui, pois aqui a gente só aguenta os chatos da geração da gente". Pergunta de internauta Juarez, tem alguma frase do Mario que esteja ou não no teu livro que costumas usar? Se sim, em que situações? Juarez Fonseca Uma frase não exatamente, Cássia, mas expressões como a própria Ora bolas, que dá título ao meu livro. Mario a usava em qualquer situação: para mostrar incredulidade, ou espanto, ou para anunciar que já estava de saco cheio com perguntas. E eu acho uma expressão ótima. Outro dia coloquei ela no Google e veio um monte de páginas, de todo o Brasil. Quer dizer: muita gente também a usa. Pergunta Espera-se normalmente de um homem solitário um humor ácido. A irreverência de Quintana não tinha esse sabor. Como você define o estilo do poeta? Juarez Fonseca Tinha sim. Ele era ácido até demais às vezes. Era cruel. Seu humor não era comportadinho, às vezes algumas pessoas ficavam magoadas com ele. Tb tinha muitos chatos que queriam atenção dele, queriam mostrar poesias para ele, e ele detestava isso. Dizia "ah, que bom que tu fazes poesia, Só não vem mostrar pra mim. E por aí ia. O livro tem muitas historinhas dessas meio cruéis. Pergunta de internauta Uma polêmica que já deu até coluna de jornal neste ano é quanto ao acento no nome do Mario. O Cláudio Moreno defende que, como o poeta está morto, devemos usar a regra ortográfica que prevê acento em Mário, mesmo se sabendo que o nome dele não leva acento. Qual a tua opinião sobre isso? O que o Mario (Mário?) diria disso? Juarez Fonseca Não sei o que o Mario diria disso, assim em teoria. Mas como ele não usava acento em seu nome, acho que já dava uma resposta. Também os Verissimo Erico e Luis Fernando não acentuam seus nomes e sobrenome. Mas eu concordo com o Moreno. Acho que as palavras que por regra gramatical têm acento, não deveriam suprimi-lo, mesmo sendo nomes próprios. Pergunta Juarez, para encerrar: daqui a mais 100 anos, Quintana será lembrado por... Juarez Fonseca Por sua poesia, sua criação poética. Acho que ele é um poeta/escritor muito identificado com o Rio Grande do Sul, as pessoas gostam demais dele aqui, e muitas aprender a ler e gostar de poesia com os versos do Mario. A Academia Brasileira de Letras nunca permitiu a sua entrada lá, mas muito mais que a maioria dos acadêmicos ele é verdadeiramente um imortal. Obrigado, um beijo pra todos. |