Utopia necessária
ROSANE DE OLIVEIRA/ Editora de Política de ZH

Quem foi ao Gigantinho ontem à tarde testemunhou o momento mais emocionante do Fórum Social Mundial: um mar de gente de diferentes nações cantando Imagine, de mãos dadas, depois da leitura de um manifesto pela paz, escrito por três judeus e três palestinos. Era o ato de encerramento dos Diálogos pela Paz, patrocinados pela Unesco e pela prefeitura de Porto Alegre, que trouxeram a Porto Alegre pacifistas israelenses e palestinos.

A multidão que lotava o Gigantinho encenou um balé de braços, erguendo-os em um movimento sincronizado. A onda multicor que produziu na arquibancada parecia fruto de dias e dias de ensaio.

Você pode dizer que é o cúmulo da utopia imaginar, como John Lennon, um mundo sem guerras. Ou que é a suprema ingenuidade achar que um ato como esse possa produzir algum resultado concreto no conflito no Oriente Médio, marcado pela intransigência e pelo fanatismo. Mas o que seria do mundo sem as utopias? O que seria do futuro se todos nos conformássemos com os ataques dos homens-bombas, que matam judeus inocentes, ou com os ataques do exército israelense, que matam palestinos igualmente inocentes?

O Fórum Social Mundial que mudou a paisagem de Porto Alegre nos últimos dias foi pródigo em manifestações pela paz, mas não escapou de exortações à violência contra os inimigos. Na marcha de encerramento, viam-se cartazes com inscrições como "Viva a Intifada: comida, remédio e armas para os palestinos'' ou "Morra, morra, ianque assassino, e viva a luta do povo palestino!''.

Mesmo que o Fórum seja um sucesso indiscutível, terá de ser repensado para escapar do risco de esgotamento. Um encontro mundial que condena o "pensamento único" não pode se alimentar exclusivamente do pensamento único do outro lado. Que volte o Fórum em 2005 com suas estrelas e seus personagens anônimos, unidos pela confiança de que é possível melhorar o mundo. E que não se apegue a dogmas como o de que o modelo cubano é perfeito ou que instituições como o Banco Mundial são coisas do demônio.