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Quem foi ao Gigantinho ontem à tarde testemunhou o
momento mais emocionante do Fórum Social Mundial: um
mar de gente de diferentes nações cantando Imagine,
de mãos dadas, depois da leitura de um manifesto pela
paz, escrito por três judeus e três palestinos.
Era o ato de encerramento dos Diálogos pela Paz, patrocinados
pela Unesco e pela prefeitura de Porto Alegre, que trouxeram
a Porto Alegre pacifistas israelenses e palestinos.
A multidão que lotava o Gigantinho encenou um balé
de braços, erguendo-os em um movimento sincronizado.
A onda multicor que produziu na arquibancada parecia fruto
de dias e dias de ensaio.
Você pode dizer que é o cúmulo da utopia
imaginar, como John Lennon, um mundo sem guerras. Ou que é
a suprema ingenuidade achar que um ato como esse possa produzir
algum resultado concreto no conflito no Oriente Médio,
marcado pela intransigência e pelo fanatismo. Mas o
que seria do mundo sem as utopias? O que seria do futuro se
todos nos conformássemos com os ataques dos homens-bombas,
que matam judeus inocentes, ou com os ataques do exército
israelense, que matam palestinos igualmente inocentes?
O Fórum Social Mundial que mudou a paisagem de Porto
Alegre nos últimos dias foi pródigo em manifestações
pela paz, mas não escapou de exortações
à violência contra os inimigos. Na marcha de
encerramento, viam-se cartazes com inscrições
como "Viva a Intifada: comida, remédio e armas
para os palestinos'' ou "Morra, morra, ianque assassino,
e viva a luta do povo palestino!''.
Mesmo que o Fórum seja um sucesso indiscutível,
terá de ser repensado para escapar do risco de esgotamento.
Um encontro mundial que condena o "pensamento único"
não pode se alimentar exclusivamente do pensamento
único do outro lado. Que volte o Fórum em 2005
com suas estrelas e seus personagens anônimos, unidos
pela confiança de que é possível melhorar
o mundo. E que não se apegue a dogmas como o de que
o modelo cubano é perfeito ou que instituições
como o Banco Mundial são coisas do demônio.
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