Porto Alegre, adeus
ROSANE DE OLIVEIRA/editora de Política de ZH

Agora que todo mundo em Porto Alegre quer o Fórum Social Mundial - por convicção ideológica ou interesse econômico - acabou-se o que era doce. Menor e menos pretensioso, o Fórum de 2004 será na Índia, com a promessa de voltar ao Brasil no ano seguinte. O Fórum Social Mundial tal qual o conhecemos, como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, acaba aqui. E acaba exatamente no ano em que chegou ao ápice em número de participantes.

Desde a primeira edição se discutia a possibilidade de o Fórum Social Mundial ser realizado em diferentes pontos do planeta a cada ano, mas até pela dificuldade de encontrar outro lugar com as mesmas condições políticas favoráveis de Porto Alegre chegou-se à terceira edição. O apoio financeiro do governo do Estado e da prefeitura, mesmo contestado por setores que abominam a linha ideológica orientadora do Fórum, estaria assegurado. Nos últimos dias, o governador Germano Rigotto engrossou o coro dos que defendiam a permanência do Fórum na Capital, e o prefeito João Verle é um dos seus maiores defensores.

No próximo verão, hotéis, bares e restaurantes voltam a amargar o marasmo característico dos meses de janeiro e fevereiro. Quem ganhou nestes três anos com a avalanche de estrangeiros será o primeiro a sentir saudade.

Assim como asiáticos e africanos têm dificuldades financeiras para participar do Fórum em Porto Alegre, os milhares de brasileiros que acampam no Parque Maurício Sirotsky ou se hospedam em hotéis baratos e casas particulares não poderão participar das discussões de 2004. Terão de se contentar com encontros regionais, que não têm o mesmo peso nem o atrativo de permitir o convívio com pessoas de outros países e de outras culturas. E torcer para que em 2005 o encontro não se esvazie pela descontinuidade.

O mais surpreendente nas decisões de ontem foi a desvinculação da data do Fórum Econômico Mundial. Foi-se por água abaixo a idéia original de realizar um fórum social na mesma data do encontro do capital em Davos, na Suíça. Depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu ir a Davos, contrariando a opinião de uma parte dos organizadores do encontro, o contraponto perdeu o sentido. Sem a coincidência de datas, fica mais fácil a vida dos que, como Lula, consideram importante participar dos dois fóruns.

Por coincidência, a participação de Lula em Davos ocorre no mesmo dia em que o presidente venezuelano Hugo Chávez desembarca em Porto Alegre em busca de apoio para enfrentar a maior crise de seu tumultuado mandato. Enquanto Chávez estiver recebendo os aplausos dos participantes do Fórum Social Mundial, seu amigo Lula estará na Europa, medindo a repercussão de um pronunciamento que tem tudo para ser o grande o momento do Fórum Econômico.