Verhofstadt e Rafael
MOISÉS MENDES/jornalista

Quem estiver enfarado de tanta opinião sobre a ida de Lula a Davos pode pular este texto. Rafael Lemos dos Santos, 18 anos, pede a palavra para discordar de cientistas, políticos ou simples palpiteiros. Ele tem a seguinte opinião:

- Lula deve ir lá para dizer aos ricos que vai ajudar os meninos de rua do Brasil.

Rafael, menino de rua de Porto Alegre, é colega de Fórum de Noam Chomsky, Bernard Cassen, Emir Sader, Cândido Grzybowski e de todas as outras sumidades envolvidas na controvérsia da viagem de Lula. Ontem, depois da abertura oficial, ele e 10 adolescentes se reuniram na saída da PUC para contar moedas. Queriam pegar um ônibus e seguir adiante, até o Centro, de onde sairia a caminhada até o anfiteatro. É dura a vida de um participante do FSM, onde a utopia do guri converge com o apelo pela paz de iraquianos, americanos, israelenses, palestinos.

Ongs internacionais, ministros, intelectuais que só existiam até agora nos livros que circulam pela província sobem e descem as escadarias da PUC ao lado dos Rafaéis e seus parceiros do Movimento Nacional de Meninos de Rua (MNMMR). O sonho grandioso do cientista Chomsky, que vislumbra um recuo de Bush na decisão de atacar o Iraque, convive com o sonho miúdo dos habitantes das rua. Se forem lembrados em Davos, já está bom.

Não existe nada parecido ou com o porte do FSM no mundo hoje. Chomsky e Rafael têm seus espaços garantidos no Fórum, um nas grandes conferências, o outro, numa das 1,7 mil oficinas, e ali oferecem o que têm a dar. O FSM é amplo e acolhedor, mas rejeita os metidos a bacana. O secretário-executivo da Comissão de Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Francisco Whitaker, lembrava ontem que no ano passado o primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, mandou dizer de Bruxelas que iria a Davos e depois viria a Porto Alegre.

O belga pediu vaga numa conferência, chegou a sugerir data e horário. Mandaram dizer que não viesse, não só por ser um neoliberal, mas pela prepotência de se achar tão importante a ponto de se autoconvidar e agendar a fala. No FSM de 100 mil participantes de 126 países e 5,5 mil ONGS, um vistoso Verhofstadt vale menos que um Rafael catando moedas.