A falsa religiosidade do FSM
PERCIVAL PUGGINA/ Arquiteto

Poucas pessoas detêm reconhecimento mundial semelhante ao que a opinião pública confere ao Dalai Lama, chefe de Estado e líder espiritual do povo tibetano, exilado na Índia desde 1960. Mas o sargento Garcia prenderá o Zorro antes que a violenta invasão chinesa ao Tibete, a agressão à cultura e aos valores religiosos da população local, o desrespeito às decisões da ONU, a transferência de etnia chinesa para região, constituam pauta da esquerda mundial. Afinal, a China é um país comunista e, para essa esquerda, tudo que faz paira acima de qualquer crítica, por mais sinistros que seus governos possam ser. Fala por si a consagração conferida ao tirano do Caribe quando desembarca no Brasil.

Por que o Dalai Lama nunca foi convidado pelos organizadores do Fórum Social Mundial? Porque sua presença seria um insuportável sinal de contradição ao discurso pela autonomia dos povos, liberdade, paz, democracia e direitos humanos com que se dá brilho à face externa do evento e se pretende conferir à ideologia que o domina virtudes que ela não tem.

O 3º FSM introduz uma novidade a esse disfarce, com o enxerto de eventos de perfil religioso. É claro que o "ópio do povo" só aparece quando servido por companheiros cuja fé se carrega no cachimbo do ideário político. Assim é que haverá um ato ecumênico, orientado para o combate "a toda forma de dominação", no qual, por certo, nenhuma prece será dirigida em favor da liberdade em Cuba ou no Tibete. Assim é que se destacarão, também, entre outras figuras menores, o herege ex-frei Leonardo Boff, líder espiritual de não sei quem, com suas idéias new age e discurso de milionário bem sucedido em favor dos carentes do mundo; o compañero Frei Betto, conselheiro espiritual de dois governos; e o padre peruano Gustavo Gutierrez, expoente da versão marxista e radical, reprovada pelo Papa, da Teologia da Libertação. Cada manifestação dessas personalidades sobre conteúdo religioso é, na verdade, uma estocada na Igreja Católica, afronta que se soma à ausência do judaísmo (certamente devida à opção palestina da esquerda mundial).

No contrapelo, ganharão espaço e relevo expressões religiosas de cunho cênico, folclórico e new age, incluídas porque seus agentes são romeiros da mesma viagem política. Não representando qualquer religião em particular, elas minam, na verdade, a essência das verdadeiras religiões.

Impossível ignorar, por fim, a Oficina dos Sacerdotes, cujo objetivo se orienta pelo avesso das exortações do Papa e do anseio dos fiéis, na medida em que retoma a figura do sacerdote-cidadão, militante político, protagonista da Revolução Francesa (e de outras tantas), em detrimento de sua missão espiritual. Precisamos de sacerdotes cidadãos do Reino de Deus e dispensamos essa drenagem marxista do seu sublime ministério.