Pratos de uma mesma balança
JOAL TEITELBAUM/ Engenheiro

A existência do contraditório é uma das forças componentes do desenvolvimento harmônico. A busca de um consenso único certamente conduziria à histórica contradição "O consenso é não haver consenso".

Querer dizer que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre é o oposto do Fórum Econômico Mundial é desconhecer a verdadeira ação evolutiva de Davos e optar por radicalismos ou choques entre processos que a nada conduzem, pois saúde, educação, habitação, infra-estrutura, proteção ambiental e todos os princípios básicos da Declaração dos Direitos do Homem não podem ser tratados como ideologias de governos mas sim como fundamentos de Estado. A humanidade bem conhece, por exemplos milenares, a que extremos destrutivos o radicalismo quer de idéias quer de ações pode conduzir.

Algumas entre muitas passagens nos concedem o passaporte para externar os conceitos deste ensaio. Para ficarmos em apenas duas: a primeira foi a manifestação, em 1994, de que, ao se completarem 50 anos da Conferência de Bretton Woods, era fundamental a ocorrência de mudanças no Banco Mundial e no FMI, fazendo com que essas instituições voltassem a suas origens. É fato conhecido que o Banco Mundial mudou bastante e, de alguns anos para cá, em quaisquer de seus projetos, são essenciais os componentes social e ambiental. Aqueles que acompanham o FMI de perto já sabem que esse organismo também está mudando, talvez não na velocidade desejada, mas está mudando. O segundo ponto: a realização do Davositos para a América do Sul, promovido pelo World Economic Forum, em Santiago do Chile, em 1998. Ali se afirmou que "desenvolvimento econômico e desenvolvimento social eram os dois pratos de uma mesma balança e de seu perfeito equilíbrio", pelos quais "o planeta Terra alcançaria o desenvolvimento harmônico", posição amplamente divulgada e, o mais importante, praticada pelo Fórum Econômico Mundial.

Aos que criticam ou se opõem à ida de autoridades brasileiras ao encontro de Davos, recomendamos uma afirmação do cientista econômico John Maynard Keynes: "O ser humano após fazer uma infinidade de coisas insensatas, um dia começa a fazer coisas sensatas". Isso sintetiza a capacidade do ser humano na busca de princípios que, de forma construtiva, buscam um mundo melhor em nossos dias. Por outro lado, nunca é demais lembrar que a natureza não dá saltos e que a toda ação vai corresponder uma reação igual e em sentido contrário.

Novamente neste final de janeiro e início de fevereiro de 2003 vivenciamos estes dois eventos. Os meios de divulgação registram as medidas que estão sendo tomadas na Suíça para evitar agitações que possam pôr em risco a integridade física de participantes, inclusive de chefes de Estado. Em Porto Alegre, os parâmetros indicam que, apesar de uma tendência de temperatura elevada, não deveremos ter ações como as ocorridas em eventos anteriores.

A realidade é que Porto Alegre e Davos não são pólos opostos. É preciso abandonar radicalismos e entender melhor os cenários em um momento conturbado do nosso planeta, mas que não deve nos assustar. Turbulência maior como o chamado Big-Bang, quando da formatação do universo, não impediu que saíssemos na evolução do Paleolítico e hoje estejamos buscando a conquista do período "Harmoniolítico" (com perdão a Camões).

Para comprovar esse rumo, analise-se o processo de integração e desenvolvimento da América do Sul no qual o setor privado e a sociedade civil vêm atuando desde 1996, através de ações ordenadas, organizadas e estruturadas, com a criação do Comitê das Rotas de Integração da América do Sul. Os mesmos princípios foram oficializados pelos 12 países no ano 2000, estando hoje o processo sob a responsabilidade dos governos.

O processo, porém, segue sendo acompanhado permanentemente pelo comitê, quando se reúnem, com regularidade e em uma mesma mesa, participantes da sociedade civil, representantes dos governos, dos bancos de fomento como o BID e a CAF. Na última reunião, também estiveram representantes do Banco Mundial e de instituições internacionais como a Cepal e a Aladi, cujo objetivo básico é conquistar o desenvolvimento harmônico para a América do Sul, onde desenvolvimento econômico e social são, de fato e de direito, os dois pratos de uma mesma balança.

Essa forma de atuação do comitê - que vem constando dos encontros do Fórum Econômico Mundial na América do Sul desde 1997, portanto já há seis anos consecutivos - é um passo concreto para a humanidade ingressar no chamado "período harmoniolítico", constituindo-se em prova irrefutável de que as ações promovidas por Davos se estendem por todos os campos da atividade humana. Os fundamentos desse processo de integração e desenvolvimento englobam saúde, educação, proteção ambiental, integração física das regiões, tecnologias adequadas às condições regionais e a criação de lideranças independentemente de ideologias.

O que Porto Alegre e Davos têm em comum? O combate às desigualdades. Provavelmente muito bem externado por Eça de Queiroz quando escreveu: "(...) a Terra continuava sua infindável marcha para o Oeste. A Leste surgia uma claridade; era a hesitação da luz do dia em ter que descer à miséria dos homens".

Desarmando extremismos e radicalismos, essa miséria a que se referiu Eça de Queiroz, bem como as que surgiram após, poderá ser confinada com os conhecimentos hoje consolidados pela humanidade com um limite de miséria tendendo a zero.

Não será declarando guerra a Davos que consolidaremos o desenvolvimento social. A conquista de um mundo de miséria tendendo a zero passa pela construção de uma maneira de ser, de pensar e de agir, na qual o equilíbrio de ações será obtido com desenvolvimento econômico e social, onde o conhecimento supera radicalismos e a responsabilidade é genérica e não apenas atribuída a interesses específicos.

Em um dos quadrantes mais tristes da história pátria, quando éramos o último país em que a escravatura não havia sido abolida, Castro Alves gravou para a eternidade : "Disse um dia Jeovah, vai Colombo, abre a cortina da minha eterna oficina e tira a América de lá" .

Pois hoje vislumbra-se - entre os dois pratos de uma mesma balança, onde se poderão amalgamar componentes sociais e econômicos, e, tal como escreveu Castro Alves, na eterna oficina, aguardando há milhares de anos - o desenvolvimento harmônico. Com ele, se poderão construir os novos tempos para o planeta Terra e afirmar, sim, Porto Alegre e Davos, tudo a ver.