Um novo não-lugar
ABRÃO SLAVUTZKY/ Psicanalista

O Fórum Social Mundial é a nova utopia, a utopia do século 21. O rápido crescimento neste terceiro ano de vida indica que o mundo está buscando um novo caminho de esperança, uma via nova em direção a uma sociedade mais justa. O Fórum começa sua história como a contrapartida do outro Fórum, o Econômico, de Davos. Foi então estabelecido um confronto entre o Fórum dos ricos e poderosos e o da sociedade crítica do poder globalizante, entre a direita liberal e a esquerda social. Embatem-se os que defendem o mundo como ele era e os que desejavam construir um mundo melhor, ou, como diz seu bordão, "Um novo mundo é possível". Essa esperança é o que mobiliza cem mil pessoas vindas de 130 países, representando milhares de organizações, para juntas buscarem um norte para um mundo sem rumo.

O Fórum inicia-se todos os anos com uma grande caminhada que vai do Mercado Público até o Anfiteatro Pôr-do-Sol. Este é o único caminho - dentre todos os muitos caminhos do Fórum - que está bem definido, com um início e um fim. Considero a caminhada o ensaio de um novo mundo, a fantasia de uma humanidade solidária que resista à crueldade. "Um novo mundo é possível", além de ser a afirmação basilar de todos os participantes do Fórum, deve também ser uma pergunta, pois, ao contrário, pode-se ter criado uma idealização perigosa. O século 20 criou idealizações que terminaram em destruição. Sendo assim, o fato de o Fórum ser menos ambicioso nas suas propostas é também sua qualidade.

Como escreveu Edson Sousa no caderno Cultura de Zero Hora, em março de 2002, "Podemos inverter o sentido do vetor e pensar na utopia como um movimento que vai do futuro ao passado, numa correnteza contra a realidade. A utopia adquire aqui sua virtude de crítica social". É uma crítica à situação de exclusão da maior parte da humanidade dos direitos fundamentais. Toda utopia é uma crítica social e foi assim desde que surgiu essa palavra, inventada por Thomas Morus. Seu livro tem um título que termina com Insula Utopia, a Ilha da Utopia, uma ilha que não existe. O livro tem uma primeira parte de críticas à sociedade inglesa, no que tange às injustiças sociais e à miséria. Na segunda, há claros sinais de um humanismo judaico-cristão, herdeiro dos profetas e de Cristo, pois descreve um mundo feliz.

Mas o que é a Utopia? Sua origem é grega: "u" é prefixo de negação e "topia", lugar. Logo utopia é o não-lugar, não existe a não ser na fantasia, no desejo. A busca da utopia é a busca por uma sociedade que não existe, inventada pelo entusiasmo dos sonhadores. Atrás da Utopia de Morus virão duas mais: Cidade do Sol (1623), de Campanella, e a Nova Atlantis (1627), de Francis Bacon. Ao mesmo tempo, a Europa sonhou a América como um Novo Mundo, imaginaram a utopia, a volta ao paraíso. Ocorreu a incrível Revolução Francesa, que, com seu lema "liberdade, fraternidade e igualdade" pretendia mudar o mundo. Na primeira metade do século 19, surgiu o Socialismo Utópico com Simon, Fourier e Owen. Na segunda metade deste século, nasceu o Socialismo de Marx e Engels, o autor de Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico. Um socialismo não tinha o método de atingir o poder, o outro sim, daí a pomposa palavra "científico".

No século 20, nasce a nova utopia, o mundo novo, do homem novo e também de sua queda. Em 1917, ocorreu a Revolução Socialista, com a criação da União Soviética, que termina em 1989 como a grande desilusão política do século. A revolução permanente foi perdendo o sentido político. Às vezes a utopia começa no amor à humanidade e termina no terror, pois o autoritarismo exclui a liberdade. Nos anos 60, surge a famosa geração 68, que criou uma expectativa de uma grande mudança no mundo. Paris, Woodstock, as grandes manifestações em toda América, inclusive no Brasil. Um mundo onde era "Proibido Proibir" onde os estudantes ocuparam o lugar de protagonistas da História. Dany Cohn-Bendit publicou 20 anos após Nós que Amávamos Tanto a Revolução, um balanço melancólico dos jovens que ambicionaram mudar o mundo.

Chega finalmente a tristeza, a depressão pelos ideais fracassados: golpes militares crescentes na América do Sul - Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, com mortes e torturas. E uma Europa onde a social democracia foi perdendo seu fôlego. Cresce o conservadorismo. A música Horizontes, da peça Bailei na Curva, diz no final que "anos 70, não deu para ti, mas nos 80 não vamos nos perder por aí". Seguiram perdidos nos 80 e nos 90. Em toda essa época cresceu o individualismo, o narcisismo em tempos sombrios e o consumo de drogas (uma forma de eliminar momentaneamente as tensões, mas um rápido e perigoso paraíso, que já levou tantos à morte). E há também uma volta à religião e um crescimento do fundamentalismo assustador. O conservadorismo no mundo tem o seu apogeu numa nova utopia, desta vez do próprio establishment: a globalização. A mídia passou anos e anos apregoando as benesses de um mundo integrado, de um estado mínimo, da liberdade de mercado, que não resolveu a péssima distribuição de renda, nem fez o mundo mais feliz.

O futuro é sempre uma ilusão - ainda não ocorreu -, e as fantasias sobre o que está por acontecer manifestam os desejos do homem. Como saber o que pode e o que não pode ser modificado na realidade? Essa é a grande pergunta que Freud se faz aos 70 anos, na sua Análise Leiga: "A atividade suprema do eu: decidir quando é mais adequado dominar suas paixões e inclinar-se diante da realidade, ou tomar partido por elas, as paixões, e por-se em pé de guerra frente ao mundo exterior? Aí está o alfa e o ômega da sabedoria da vida%". Um importante pensamento do maior estudioso da realidade psíquica, enfatizando a paixão, pois sem ela não há mudança.

Freud, um conservador em matéria política, destaca a possibilidade de mudar a realidade externa e a importância dos homens trabalharem nessa direção. E define que o alfa e o ômega da sabedoria é saber o que pode e o que não pode ser mudado. Mas como saber, sem buscar, como saber sem tentar e, ao errar, buscar de outra forma? Um desafio à sabedoria de uma questão impossível como a política.

Muitas críticas justas têm sido feitas ao Fórum Social Mundial. Mas como exigir de uma criação humana a perfeição em tão pouco tempo? Uma crítica deverá ser resolvida no futuro próximo: ninguém deve ser excluído, é preciso abrir espaço para todos, o mundo precisa aprender a conviver com as diferenças, por maiores que sejam. E também penso que a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Porto Alegre e depois a Davos é uma grande ponte entre o Social e o Econômico. Um dia poderá ser criado o Fórum Social e Econômico. A integração é necessária, é preciso pensar um mundo novo, um mundo com menos pobreza e violência em busca da paz.

O grande desafio para o futuro do Fórum Social não é saber se será na Índia ou novamente aqui, mas sua capacidade de transformar a vida no mundo. Como será possível levar as conclusões contra a fome, pela moradia, pela paz, por uma melhor distribuição de renda, pela defesa da ecologia, a uma nova prática - a uma prática mais eficaz. Pois, do contrário, correrá o risco de o Fórum ficar só um grande encontro mundial, que é alegre, que empolga, mas pode ficar nas boas intenções.

De qualquer forma, uma coisa já é certa: Porto Alegre hoje é conhecida no mundo inteiro, como a capital do Fórum Social Mundial. Felizmente hoje a maior parte da sociedade apóia a esperança mundial. É um sonho, um desejo, uma utopia, mas, se houver paciência, como tão bem escreveu Kafka, a humanidade poderá ir mais longe. Uma caminhada que não seja só do Mercado Público até o Anfiteatro-Pôr-do Sol.