Um líder em Porto Alegre
ROSANE DE OLIVEIR/ Editora de Política de ZH

Na visita a Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assegurou que terá coragem de encaminhar ao Congresso a reforma da Previdência, mesmo tendo de contrariar interesses. Vai contrariar também o discurso do PT ao tempo em que era oposição, mas justifica que "os tempos são outros".

No contato com a multidão que foi ouvi-lo no Anfiteatro Pôr-do-Sol, Lula incorporou o sedutor de multidões. Saiu ileso da abordagem do assunto mais espinhoso de sua visita a Porto Alegre, a participação no Fórum Econômico Mundial. As vaias previstas por conta de sua ida a Davos não se confirmaram. Adversários da viagem limitaram-se a entoar um coro de "fica, fica, fica", quando o presidente começou a explicar sua decisão de discursar diante dos ricos. Habilidoso, atribuiu à força do Fórum Social Mundial o convite para ir a Davos e assegurou que, em 2004, estará na Índia. Arrancou aplausos quando disse que irá a todos os fóruns onde puder defender as causas sociais.

Principal estrela do Fórum Social Mundial, Lula deixou de lado a preocupação com a concordância verbal e voltou aos tempos de líder metalúrgico. Pediu aos militantes que enrolassem as bandeiras para que todos pudessem vê-lo e para que ele pudesse vê-los. Sem tradução simultânea, foi aplaudido com o mesmo entusiasmo pelos eleitores brasileiros e pelos estrangeiros que nada entendiam do discurso.

Quem ouviu os discursos de posse teve a sensação de estar assistindo a uma releitura, desta vez de improviso, à beira do Guaíba. Não deverá ser muito diferente neste domingo em Davos. O próprio Lula já avisou que não tem duas caras. Logo, não terá dois discursos.

O que muda é o tom. Em Porto Alegre, a informalidade cautelosa, estudada para não desapontar a platéia e não arranjar encrencas diplomáticas. Em Davos, será o discurso escrito, arredondado pelo professor Marco Aurélio Garcia, sem abdicar do tom emocional quando fala de fome e miséria, única forma de driblar a frieza da tradução simultânea.