Entre Davos e Porto Alegre
DÉCIO FREITAS/ Historiador

Ninguém pode assistir a todas as conferências e a todos os debates que diariamente se fazem às dezenas no Fórum Social Mundial. Claro, muito do que se diz neste tipo de evento merece ser esquecido, mas também muito exige registro e reflexão, dada a envergadura intelectual e política de alguns participantes. A solução seria a publicação de anais, mas a experiência ensina ser mais fácil organizar tais eventos do que editar seus anais.

De todo modo o sentido real e simbólico do FSM parece bastante óbvio. Faz parte do patético esforço da esquerda para construir uma nova identidade teórica e política em substituição à que possuiu entre meados do século 19 e fim do século passado, quando pereceu. Nada mais resta daquela identidade. O comunismo está morto, deixando de existir no continente europeu, onde nasceu. Na Ásia, os governos comunistas da China e do Vietnã empenham-se em promover um rápido crescimento capitalista e, o que é mais significativo, capitalismo selvagemente desumano. Na Coréia do Norte e em Cuba, regimes comunistas fiéis aos velhos dogmas mantêm seus povos na estagnação econômica, na miséria social e na opressão política. A utopia comunista perdeu a sedução.

Se o comunismo está morto, o socialismo democrático, ou social-democracia, que também nasceu na Europa e nela atingiu seu fastígio, está evidentemente moribundo, limitado hoje a ações de retaguarda para preservar suas conquistas. Em quase toda a Europa partidos social-democratas perderam o poder para o centro-direita e se o recuperarem será para adaptar-se ainda mais ao novo mundo do capitalismo globalizado.

O que então é hoje ser esquerdista? Ninguém mais pensa seriamente em transcender o capitalismo. Como não há sequer uma alternativa conceitual, o discurso anticapitalista tornou-se inconseqüente. Por oposição à direita, a esquerda distingue-se apenas por um compromisso com os mais fracos e pobres, tentando dar-lhes fatia maior no bolo capitalista. Como não há uma alternativa revolucionária, cumpre fazê-lo democraticamente, promovendo o desenvolvimento do capitalismo para que crie mais riqueza a ser socialmente distribuída. Invés de alternativa ao capitalismo, ampliação da sua base democrática. O agente da mudança já não será a classe operária, condenada à extinção pela crescente informatização da produção e sem poder de fogo dada a ameaça crônica de desemprego. A esquerda hoje aposta demasiado na complexa, heterogênea e contraditória sociedade civil, que abrange capitalistas e trabalhadores, ricos e pobres, pessoas ignorantes e instruídas, progressistas e reacionários, idealistas e canalhas, individualistas anti-sociais e humanistas generosos, libertários hedonistas e autoritários desapiedados, constituindo interesses e pressões que devem ser levados em conta no jogo político democrático. Tal o barro com que tentar amassar uma mudança.

Assim também, na busca de novos agentes históricos, a esquerda substituiu o movimento operário por uma ampla gama de "novos movimentos sociais": o feminismo, a ecologia, o pacifismo, os direitos dos gays, o anti-racismo, os direitos humanos, a subcultura dos jovens. Naturalmente não são inúteis estes movimentos culturais e devem até ser aplaudidos, mas a verdade é que não mudam a ordem econômica e social. Se em alguns casos beneficiam categorias excluídas, também beneficiam categorias incluídas. À luz das aspirações da esquerda, os "novos movimentos sociais" falharam. Estará então a esquerda num dead-end em que todas as saídas se acham bloqueadas?

No momento em que se realiza o terceiro FSM, a esquerda mundial se vê ante um fato novo, que é a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva num dos maiores e mais importantes países do mundo.

O sofrido ex-retirante, torneiro mecânico e líder sindical, percebeu pragmaticamente o que intelectuais e doutrinários não souberam perceber, ou seja, que a esquerda não tinha mais alternativa que ingressar no clube. O que importava em aceitar a regra de ouro do clube, a de que nele a regra é feita por quem tem o ouro. Fez alianças eleitorais conservadoras e integrou em seu governo conspícuos membros do establishment, conversou com o imperador do Ocidente, veio a Porto Alegre para o FSM e depois foi a Davos para o colóquio dos que têm o ouro. Apesar de sua amplíssima base popular, sabe que nem toda vontade do povo é lei e que nem toda lei é vontade do povo. Sobretudo, sabe que o sufrágio popular não resolve todos os problemas, como mostra o caso do desastrado Hugo Chavez. Em matéria econômica, financeira e monetária, parece clone do governo FH, mas sua meta derradeira é, gritantemente, diversa.

A contrapelo dos slogans do FSM, o projeto Lula não se contenta de xingar o capitalismo. Sabe que ele é uma droga, mas que estamos condenados a ele. Também sabe que é inútil chorar ilusões perdidas dum passado que passou. E sabe finalmente que não há soluções radicais. Se der certo, poderá contribuir para que a esquerda deixe de ser um cafarnaum - depósito de coisas velhas.