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Ninguém pode assistir a todas as conferências
e a todos os debates que diariamente se fazem às dezenas
no Fórum Social Mundial. Claro, muito do que se diz
neste tipo de evento merece ser esquecido, mas também
muito exige registro e reflexão, dada a envergadura
intelectual e política de alguns participantes. A solução
seria a publicação de anais, mas a experiência
ensina ser mais fácil organizar tais eventos do que
editar seus anais.
De todo modo o sentido real e simbólico do FSM parece
bastante óbvio. Faz parte do patético esforço
da esquerda para construir uma nova identidade teórica
e política em substituição à que
possuiu entre meados do século 19 e fim do século
passado, quando pereceu. Nada mais resta daquela identidade.
O comunismo está morto, deixando de existir no continente
europeu, onde nasceu. Na Ásia, os governos comunistas
da China e do Vietnã empenham-se em promover um rápido
crescimento capitalista e, o que é mais significativo,
capitalismo selvagemente desumano. Na Coréia do Norte
e em Cuba, regimes comunistas fiéis aos velhos dogmas
mantêm seus povos na estagnação econômica,
na miséria social e na opressão política.
A utopia comunista perdeu a sedução.
Se o comunismo está morto, o socialismo democrático,
ou social-democracia, que também nasceu na Europa e
nela atingiu seu fastígio, está evidentemente
moribundo, limitado hoje a ações de retaguarda
para preservar suas conquistas. Em quase toda a Europa partidos
social-democratas perderam o poder para o centro-direita e
se o recuperarem será para adaptar-se ainda mais ao
novo mundo do capitalismo globalizado.
O que então é hoje ser esquerdista? Ninguém
mais pensa seriamente em transcender o capitalismo. Como não
há sequer uma alternativa conceitual, o discurso anticapitalista
tornou-se inconseqüente. Por oposição à
direita, a esquerda distingue-se apenas por um compromisso
com os mais fracos e pobres, tentando dar-lhes fatia maior
no bolo capitalista. Como não há uma alternativa
revolucionária, cumpre fazê-lo democraticamente,
promovendo o desenvolvimento do capitalismo para que crie
mais riqueza a ser socialmente distribuída. Invés
de alternativa ao capitalismo, ampliação da
sua base democrática. O agente da mudança já
não será a classe operária, condenada
à extinção pela crescente informatização
da produção e sem poder de fogo dada a ameaça
crônica de desemprego. A esquerda hoje aposta demasiado
na complexa, heterogênea e contraditória sociedade
civil, que abrange capitalistas e trabalhadores, ricos e pobres,
pessoas ignorantes e instruídas, progressistas e reacionários,
idealistas e canalhas, individualistas anti-sociais e humanistas
generosos, libertários hedonistas e autoritários
desapiedados, constituindo interesses e pressões que
devem ser levados em conta no jogo político democrático.
Tal o barro com que tentar amassar uma mudança.
Assim também, na busca de novos agentes históricos,
a esquerda substituiu o movimento operário por uma
ampla gama de "novos movimentos sociais": o feminismo,
a ecologia, o pacifismo, os direitos dos gays, o anti-racismo,
os direitos humanos, a subcultura dos jovens. Naturalmente
não são inúteis estes movimentos culturais
e devem até ser aplaudidos, mas a verdade é
que não mudam a ordem econômica e social. Se
em alguns casos beneficiam categorias excluídas, também
beneficiam categorias incluídas. À luz das aspirações
da esquerda, os "novos movimentos sociais" falharam.
Estará então a esquerda num dead-end em que
todas as saídas se acham bloqueadas?
No momento em que se realiza o terceiro FSM, a esquerda mundial
se vê ante um fato novo, que é a presidência
de Luiz Inácio Lula da Silva num dos maiores e mais
importantes países do mundo.
O sofrido ex-retirante, torneiro mecânico e líder
sindical, percebeu pragmaticamente o que intelectuais e doutrinários
não souberam perceber, ou seja, que a esquerda não
tinha mais alternativa que ingressar no clube. O que importava
em aceitar a regra de ouro do clube, a de que nele a regra
é feita por quem tem o ouro. Fez alianças eleitorais
conservadoras e integrou em seu governo conspícuos
membros do establishment, conversou com o imperador do Ocidente,
veio a Porto Alegre para o FSM e depois foi a Davos para o
colóquio dos que têm o ouro. Apesar de sua amplíssima
base popular, sabe que nem toda vontade do povo é lei
e que nem toda lei é vontade do povo. Sobretudo, sabe
que o sufrágio popular não resolve todos os
problemas, como mostra o caso do desastrado Hugo Chavez. Em
matéria econômica, financeira e monetária,
parece clone do governo FH, mas sua meta derradeira é,
gritantemente, diversa.
A contrapelo dos slogans do FSM, o projeto Lula não
se contenta de xingar o capitalismo. Sabe que ele é
uma droga, mas que estamos condenados a ele. Também
sabe que é inútil chorar ilusões perdidas
dum passado que passou. E sabe finalmente que não há
soluções radicais. Se der certo, poderá
contribuir para que a esquerda deixe de ser um cafarnaum -
depósito de coisas velhas.
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