Assim caminha o Fórum
Abrão Slavutzky/ Psicanalista - 16/01/2003

     Escrevo para os que não conhecem o Fórum Social Mundial e para os indiferentes. Sugiro que assistam, não é preciso participar, à caminhada de abertura do FSM, que vai do Mercado Público até o Anfiteatro Pôr-do-Sol. Fui nas duas primeiras e não perderei a terceira. Tenho dito que é o momento em que mais se sente a força do projeto de um mundo diferente. No primeiro ano foram 10 mil, no segundo 50 e agora já dizem que poderá ter 100 mil, e sempre ocorre com participantes de mais de 100 países, com músicas típicas, com bandeiras, com uma alegria que emociona aos mais céticos. É possível ir às escadarias do Viaduto da Borges e assistir de lá à passagem do grande desfile mundial. Para quem é gaúcho é ainda mais emocionante, porque tudo acontece nesta cidade, para nosso espanto.

     No ano passado, participei num debate sobre a Psicopatologia da Solidariedade, e disse que era preciso perguntar se um outro mundo é possível. Questionar a tese central deste movimento mundial é importante para abrir um espaço de reflexão e não ficar em mais uma idealização, que reconforta, que alivia a dura realidade, mas que no fim não muda nada. Nesta mesa houve uma pergunta sobre o que no sujeito é obstáculo para o desenvolvimento da solidariedade. Um aspecto é o estimulo à competição de forma individual, onde cada um tem que lutar para conquistar um espaço, e à responsabilidade social, de todos os que estudam e ganham, fica em segundo ou terceiro plano, quando fica.

     Política é diálogo, mas às vezes é difícil, porque cada um pensa ter toda razão. Por exemplo, tenho um amigo que sempre me diz ser a esquerda burra. Ele está convencido de que é inteligente por não ser de esquerda e fica indignado com a insistência da esquerda em viver. Até hoje não disse a ele que se a esquerda é burra, e muitas vezes é, a direita é pobre. Pobre de espírito, porque não pode sonhar uma sociedade mais justa e mais humana. Mas é bobagem o que diria, assim como o que ele diz, pois há verdade tanto na direita quanto na esquerda. Isso tudo sem definir o que é uma e o que é outra, e convenhamos que saber ao certo o que é direita e o que é esquerda já foi mais fácil.

     A caminhada do Fórum Social é uma mostra do que seria a humanidade se pudesse caminhar com as suas diferenças em uma mesma direção. A humanidade mudaria o seu rumo, adquirindo um norte em que os valores da justiça social iriam brilhar. Mas antes será preciso que os dois Fóruns se encontrem, e seja criado o Fórum Social e Econômico, um encontro entre Porto Alegre e Davos, numa união de esforços para criar um mundo melhor. É o que o Brasil começa a viver no governo onde Lula aparece como líder de um governo de conciliação da sociedade, de verdade, marcando uma mudança na História. A conciliação dois dois Fóruns hoje ainda é um sonho, mas a civilização é definida pela capacidade humana de antevisão.

     Construir uma sociedade mais justa é um desafio que vem dos profetas bíblicos e do qual não devemos desistir. Andar com os pés na terra, olhando às vezes para o céu, e assim recuperar a fé numa humanidade melhor, nos faz mais felizes. O sentimento que um novo mundo é possível se a gente quiser é sentido ao ver milhares de pessoas vindas da África, Ásia, Europa e América para debater os novos rumos da sociedade. Mas não basta querer para o mundo mudar, pois mudar uma realidade é difícil, às vezes impossível. A saída talvez seja a de seguir em frente na direção da solidariedade social, e a caminhada do Fórum fica como ensaio para um novo mundo. Um sábio cético daria um meio sorriso e diria: É vão ter que ensaiar muito.