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Escrevo para os que não conhecem
o Fórum Social Mundial e para os indiferentes. Sugiro que
assistam, não é preciso participar, à caminhada de abertura
do FSM, que vai do Mercado Público até o Anfiteatro Pôr-do-Sol.
Fui nas duas primeiras e não perderei a terceira. Tenho dito
que é o momento em que mais se sente a força do projeto de
um mundo diferente. No primeiro ano foram 10 mil, no segundo
50 e agora já dizem que poderá ter 100 mil, e sempre ocorre
com participantes de mais de 100 países, com músicas típicas,
com bandeiras, com uma alegria que emociona aos mais céticos.
É possível ir às escadarias do Viaduto da Borges e assistir
de lá à passagem do grande desfile mundial. Para quem é gaúcho
é ainda mais emocionante, porque tudo acontece nesta cidade,
para nosso espanto.
No ano passado, participei
num debate sobre a Psicopatologia da Solidariedade, e disse
que era preciso perguntar se um outro mundo é possível. Questionar
a tese central deste movimento mundial é importante para abrir
um espaço de reflexão e não ficar em mais uma idealização,
que reconforta, que alivia a dura realidade, mas que no fim
não muda nada. Nesta mesa houve uma pergunta sobre o que no
sujeito é obstáculo para o desenvolvimento da solidariedade.
Um aspecto é o estimulo à competição de forma individual,
onde cada um tem que lutar para conquistar um espaço, e à
responsabilidade social, de todos os que estudam e ganham,
fica em segundo ou terceiro plano, quando fica.
Política é diálogo, mas às vezes
é difícil, porque cada um pensa ter toda razão. Por exemplo,
tenho um amigo que sempre me diz ser a esquerda burra. Ele
está convencido de que é inteligente por não ser de esquerda
e fica indignado com a insistência da esquerda em viver. Até
hoje não disse a ele que se a esquerda é burra, e muitas vezes
é, a direita é pobre. Pobre de espírito, porque não pode sonhar
uma sociedade mais justa e mais humana. Mas é bobagem o que
diria, assim como o que ele diz, pois há verdade tanto na
direita quanto na esquerda. Isso tudo sem definir o que é
uma e o que é outra, e convenhamos que saber ao certo o que
é direita e o que é esquerda já foi mais fácil.
A caminhada do Fórum Social
é uma mostra do que seria a humanidade se pudesse caminhar
com as suas diferenças em uma mesma direção. A humanidade
mudaria o seu rumo, adquirindo um norte em que os valores
da justiça social iriam brilhar. Mas antes será preciso que
os dois Fóruns se encontrem, e seja criado o Fórum Social
e Econômico, um encontro entre Porto Alegre e Davos, numa
união de esforços para criar um mundo melhor. É o que o Brasil
começa a viver no governo onde Lula aparece como líder de
um governo de conciliação da sociedade, de verdade, marcando
uma mudança na História. A conciliação dois dois Fóruns hoje
ainda é um sonho, mas a civilização é definida pela capacidade
humana de antevisão.
Construir uma sociedade mais
justa é um desafio que vem dos profetas bíblicos e do qual
não devemos desistir. Andar com os pés na terra, olhando às
vezes para o céu, e assim recuperar a fé numa humanidade melhor,
nos faz mais felizes. O sentimento que um novo mundo é possível
se a gente quiser é sentido ao ver milhares de pessoas vindas
da África, Ásia, Europa e América para debater os novos rumos
da sociedade. Mas não basta querer para o mundo mudar, pois
mudar uma realidade é difícil, às vezes impossível. A saída
talvez seja a de seguir em frente na direção da solidariedade
social, e a caminhada do Fórum fica como ensaio para um novo
mundo. Um sábio cético daria um meio sorriso e diria: É vão
ter que ensaiar muito.
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