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17 de junho de 2019
 

| 26/07/2008 | 15h30min

"Fui o bode expiatório da revolução"

Entrevista: Newton Cruz, General da reserva

A seguir, a síntese da entrevista que o general Newton Cruz concedeu a Zero Hora no dia 10 em seu apartamento, no Rio:

Zero Hora - Onde o senhor estava em 31 de março de 1964?

Newton Cruz
- No dia da revolução era major instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, na Praia Vermelha, no Rio. Andava pelos corredores com os alunos quando ouvi os gritos, no telefone, de um dos comandantes, o general João Bina Machado. Falava com o Castello Branco (general Humberto Castello Branco, o primeiro presidente da ditadura militar). Lembro bem das palavras de Bina Machado: "Aquele maluco já saiu de Minas, e agora o que vamos fazer?" O maluco era o general Olímpio Mourão Filho, que havia partido de Minas Gerais com as tropas. Foi assim que entrei na revolução.

ZH - O senhor se envolveu com o processo de conspiração contra o governo de João Goulart, que foi fartamente documentado?

Newton Cruz
- Militar não conspira. Faz insurreição. Não fui convidado para ser revolucionário. Fui por não concordar com a quebra da hierarquia militar que havia se instalado no país.

ZH - No governo do sucessor de Castello Branco, o general Arthur da Costa e Silva (presidente de 1967 a 1969), houve a edição do AI-5, que suspendeu garantias constitucionais. Os historiadores descrevem isso como um golpe militar dentro da própria revolução. De que lado o senhor ficou?

Newton Cruz
- Do lado do Exército. Na caserna havia dois grupos. Os castelistas defendiam a posição de Castello Branco, que era a de arrumar a casa e voltar para o quartel o mais rápido possível. E os costistas, alinhados com Costa e Silva, em nome da caça aos comunistas, defendiam o endurecimento do regime. Eu concordava com os castelistas. Fomos derrotados por uma decisão de Castello Branco.

ZH - Que decisão?

Newton Cruz
- Ele não concordava que Costa e Silva fosse o seu sucessor. Não pela pessoa, era um ótimo camarada de farda. Mas pelo grupo que o rodeava, muitos deles sedentos de vingança contra os comunistas. Castello tinha prestígio suficiente para fazer o sucessor. Pela lógica, deveria ser o general Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1979). Ele permitiu que Costa e Silva o sucedesse porque temia que um enfrentamento causasse um racha no Exército. Foi um erro que nos manteve fora dos quartéis por 21 anos.

ZH - Durante boa parte do regime militar o senhor esteve ligado ao SNI (Serviço Nacional de Informações). Em São Paulo, houve a Operação Bandeirante, do DOI-Codi, que resultou em torturas e mortes. No Rio Grande do Sul, houve o caso do seqüestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti pelos agentes da Operação Condor. O que o senhor sabe desses episódios?

Newton Cruz
- Lembra 1968? Ali, os linha-dura se aglutinaram e se organizaram nos órgãos regionais de coleta de informações, que então passaram a atuar como operadores na luta contra os opositores do regime. Houve muitos excessos, porque agiram igualzinho àqueles a quem perseguiam. As coisas só chegavam ao governo central quando aconteciam grandes rolos. Lembro de Geisel tendo uma crise de raiva quando sabia das barbaridades. Ele retomou o controle da situação quando demitiu (em janeiro de 1976) o comandante do II Exército, Ednardo DAvila Melo (haviam morrido nas dependências do DOI-Codi paulista o jornalista Vladimir Herzog e, posteriormente, o operário Manoel Fiel Filho). A demissão mostrou à linha-dura quem mandava.

ZH - Mas o senhor nunca viu ou leu relatórios oficiais sobre as torturas?

Newton Cruz
- Nunca vi ninguém sendo torturado. Fora do papel circulavam muitas histórias. Uma delas falava que havia uma cobra grande criada em cativeiro em uma unidade no Rio. E que era só ameaçar colocar a pessoa com o animal que ela falava o que sabia e o que não sabia.

ZH - O senhor foi julgado e inocentado em 1992 pelo assassinato do jornalista Alexandre von Baumgarten e da mulher, Janette. O episódio aconteceu em outubro de 1982. No ano seguinte, veio a público um dossiê preparado por Baumgarten pouco antes de morrer em que ele dizia que seria assassinado a mando do SNI. Só não sabia se por ordem sua ou do general Octávio Medeiros, então chefe do SNI. Esse episódio alterou o rumo da sua carreira?

Newton Cruz
- Indiretamente, sim. Baumgarten era um anticomunista pilantra, tinha inimigos por todos os cantos. A principal testemunha do caso foi um bailarino (Cláudio Werner Polila). O dossiê havia sido feito a quatro mãos. Um dos autores era um coronel canalha que demiti do SNI, já morreu e não vale a pena pronunciar o nome. Nada foi comprovado. Mas eu precisei ir aos jornais falar sobre a minha inocência. Daí virei ícone do regime militar. Era o general truculento, assassino.

ZH - Para defender-se, o senhor estudou o caso, tinha o SNI a seu dispor. Conseguiu descobrir quem matou o jornalista?

Newton Cruz
- A verdade eu sei. Mas soube sob garantia de profissional. Nem que tivesse sido condenado poderia dizer.

ZH - O Caso Baumgarten tem a ver com a sua transferência do SNI para o Comando Militar do Planalto, em Brasília, em 1983?

Newton
- Tudo a ver. O general Octávio Medeiros falou com Figueiredo (João Baptista Figueiredo, último presidente militar, 1979-1985) que era hora de eu voltar para a tropa, porque estava muito em evidência. Era tudo o eu que queria. Voltei para fazer manobras militares. Tudo corria às mil maravilhas. Até que Figueiredo lembrou de mim novamente, ao declarar medidas de emergência. Nem sabia direito o que era, precisei olhar na Constituição. Lá dizia que podia fazer tudo para cumprir a missão.

ZH - Jornais da época mostram que o senhor à frente do Comando Militar do Planalto agrediu um jornalista, bateu de bastão de comando nos automóveis que faziam uma carreata, entre outras coisas. Como foi?

Newton
- Isso é o que a imprensa escreveu. Muito coisa baseada em relatos inverídicos. Houve duas decretações de medidas de emergência, a primeira em outubro de 1983, para votação pelos deputados de alterações na lei salarial. E a segunda em abril de 1984, para a votação da emenda constitucional das eleições diretas. O episódio do jornalista aconteceu na primeira. Estava dando uma entrevista a dezenas de repórteres, e um deles (Honório Dantas, repórter da Rádio Planalto) insistia em enfiar um gravador na minha cara. Parei a entrevista várias vezes e pedi que tirasse aquele troço dali. Além de não ter atendido, ele ainda fez um desaforo, desligando o gravador na minha cara e saindo da entrevista. Fui atrás dele, peguei-o pelo braço e o fiz pedir desculpas diante da TV. O fato foi explorado politicamente. (Segundo Dantas, que falou com ZH, o general lhe deu uma chave de braço e o forçou a pedir desculpas)

ZH - E como foi o episódio em que o senhor bateu nos automóveis durante carreata, em 1984?

Newton Cruz
- Foi no dia da votação da Emenda das Diretas. Estava na minha sala e, lá embaixo, uma barulheira. Desci e ordenei ao sargento da guarda que atravessasse um ônibus no meio da rua para impedir a passagem da carreata. Sozinho, desarmado, iniciei caminhada no meio dos veículos. No primeiro, cheguei e bati no capô com o meu bastão de comando e disse para o motorista: vocês vieram me desmoralizar perante a minha tropa. Estou aqui. O cara parou de buzinar, apagou os faróis e ficou quieto. Notei que os veículos ao redor haviam feito o mesmo. Fui caminhando até o final da carreata batendo no capô dos carros. No final era aquele silêncio de cemitério. Voltei e ordenei ao sargento que deixasse sair dali um veículo de cada vez e anotasse as placas. Horas depois veio o sargento com as anotações. Mandei atirar fora.

ZH - Essa sua exposição acabou lhe custando sua quarta estrela, a de general-de-exército?

Newton Cruz
- Eu fui traído na reunião do Alto Comando onde estava sendo decidido quem iria ganhar a quarta estrela. Fui traído por colegas que sempre elogiaram minhas ações. Alguns deles tinham feito elogios poucos dias antes do encontro. Por que mudaram de opinião? Para se posicionar bem na Nova República que estava sendo implantada. Ninguém queria ficar perto de um general facínora. Fui o bode expiatório da revolução.

ZH - Depois o senhor tentou a carreira política.

Newton Cruz
- Precisava de um palanque para me defender. Na eleição para governador do Rio, em 1994, fiquei em terceiro lugar.

ZH - Como candidato, se envolveu em briga com militantes adversários. Como foi?

Newton Cruz
- Em parte é verdade. Havia saído de um debate em uma emissora de TV, e o meu carro foi cercado por militantes do PT. Não o do Lula. O outro, dos loucos. Cercaram o veículo e ficaram ali gritando que eu era truculento, facínora, assassino, ditador e coisas do gênero. Não dei bola. Sempre ouvi tal coisa. Mas aí um dos caras ofendeu a minha mãe. Aí, não. A mãe é sagrada. Saí do carro e fui para cima dele. Daí falaram que continuava truculento.

 

 

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