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9 de junho de 2026
 

Municípios do RS | 19/07/2008 | 09h41min

Candidato eleito em Santa Maria precisa lidar com desemprego

Sobram vagas, mas falta qualificação profissional no município

Responda rápido. O que é mais fácil em Santa Maria, conseguir emprego ou abrir uma empresa? Acertou quem escolheu a segunda opção, pois hoje, em 20 ou 30 dias, é possível abrir um novo negócio na cidade. Já um emprego, pode levar meses, até anos.


Não que faltem vagas. Os empresários garantem que há oportunidades de sobra. O que falta é informação para quem corre atrás desta vaga e entre os órgãos que buscam um determinado perfil de trabalhador, além de qualificação profissional em algumas áreas. Por isso, não é à toa que o emprego foi eleito pelos santa-marienses como a segunda prioridade do futuro prefeito. Centenas de pessoas procuram o escritório do Sistema Nacional do Emprego (Sine) toda semana na esperança de, mais do que ocupação, conseguir um emprego para tirar dele o sustento da família.


Todas as manhãs, cerca de 150 pessoas formam fila em frente à agência do Sine, na antiga Rua 24 Horas. Além dos currículos, os candidatos carregam a expectativa de sair dali com a chance de trabalhar com carteira assinada. Na quinta-feira, dia 10 de julho, Marluce Cardoso, 20 anos, insistia mais uma vez na realização do seu sonho.


- Não tenho noção de quantas vezes já vim aqui no último ano. Sempre que consigo alguma faxina, que sobra para pagar a passagem, eu venho tentar - conta a jovem, que mora no distrito de Santo Antão e precisa pagar R$ 2,65 só para ir até o Centro.


Marluce, que está terminando o supletivo do Ensino Médio, diz que não faz exigências sobre o futuro emprego. Mesmo assim, está difícil.


- No momento, eu não tenho escolha. O que tiver, eu vou pegar para trabalhar - desabafa a jovem, que só trabalhou com carteira como doméstica.


Com o cadastro no Sine já feito em outras oportunidades - dados pessoais e informações sobre escolaridade, cursos etc - , ela entrou na fila cedo da manhã. Por sorte, naquela quinta-feira, o atendimento foi rápido. Não demorou 10 minutos, após a abertura do Sine, às 8h, para ela ser chamada.


Do outro lado do balcão, ao conferir o número de inscrição da candidata, a funcionária falou: "Eu tenho uma vaga para não-morar, para cuidar de um menino de 1 ano e 9 meses. Tem de trazer uma carta de referência. As outras vagas são para camareira e vendedora de consórcio. Mas todas exigem experiência." Com a mesma velocidade com que entrou na agência, Marluce saiu, só que carregada de frustrações.


- A atendente me disse que só tem vaga para babá e pede que eu tenha em mãos uma carta de referência, mas eu nem sei o que é isso, o que tem de ter escrito. E já teve casos em que a vaga exige carteira de motorista. Eu chego a achar engraçado, pois, onde moro, além de só ter cavalo, sem emprego eu não tenho como pagar para tirar uma carteira de motorista - lamenta.


Falta orientação


Acreditando que o Sine é o único local que cadastra pessoas em busca de emprego, Marluce se prepara para pegar o ônibus de volta para casa. Por acaso, descobre que a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) seleciona candidatos a vagas no comércio. Ela se enche de esperança e tenta novamente. Sem ter noção de como fazer o currículo exigido pela entidade, ela, que sequer tem computador, atravessa a Rua Astrogildo de Azevedo e entra em uma livraria para comprar formulários de currículo e preencher os dados.


Na CDL, depois de ser atendida e ter uma conversa informal com um dos responsáveis pelo recrutamento, a jovem descobre que há uma terceira chance. O Sindicato dos Lojistas (Sindilojas), por meio do programa ProJovem, busca dar a tão sonhada chance do primeiro emprego aos jovens que têm vontade de trabalhar, mas que, em muitos casos, são barrados pela exigência dos seis meses de experiência. Porém, ao chegar na sala indicada em busca de informações, Marluce chega à triste constatação de muitas famílias de baixa renda: a exclusão digital, que afeta muito quem busca emprego.


- Me disseram que só aceitam o cadastro pela Internet. Como eu vou fazer se não tenho como acessar? Depois de insistir muito, a moça ficou com o meu currículo, mas acho que ela não vai nem ler porque ela me disse para eu me cadastrar no site - lamenta.


Antes de desistir e voltar para Santo Antão, ela descobriu que na Casa de Cultura, na praça central, funciona de graça uma sala de acesso à Internet:


- Assim como eu não sabia desse lugar, muitos não sabem. Ninguém, nos locais onde eu passei em busca de emprego, disse que eu poderia vir aqui. E quem não tem dinheiro para pagar um cyber, como fica?


Com a ajuda do monitor Glauber de Ávila Reetz, a jovem, que não tinha domínio da web, entra no site, faz seu cadastro e volta otimista para casa.


Raio X do desemprego


A história de Marluce Cardoso é apenas uma das que engrossam as filas do desemprego na cidade. Só este ano, de janeiro a junho, 1.825 novas pessoas bateram na porta do Sine na expectativa de um lugar para trabalhar. Em 2007, foram 3.724 pessoas. Também no ano passado, pelos relatórios do Sine, das 7.452 pessoas encaminhadas para a seleção das vagas oferecidas, 1.237 pessoas conseguiram um emprego na cidade. Ou seja, apenas 16% saíram empregadas.


O cálculo para se chegar ao número total de desempregados na cidade é difícil de ser concluído porque as informações são desencontradas. O que se sabe é que só no Sine há, pelo menos, 24 mil pessoas cadastradas. Porém, como nem sempre é dada baixa no número de pessoas que conseguem trabalho e o número de admissão e demissão é flutuante, não é possível afirmar que esse número corresponde ao de desempregados em Santa Maria.


Observando o perfil do candidato cadastrado no Sine este ano, é possível dizer que a maioria é mulher entre 20 e 24 anos e tem o Ensino Médio. Uma das justificativas dos empresários para a não-contratação dessas pessoas é a falta de qualificação profissional para a área pretendida (leia na próxima página). Marluce acredita que a cidade deveria oferecer mais chances de qualificação.


- Deveriam pensar em cursos gratuitos para quem não tem condições de pagar. Quem está sem emprego não tem como fazer sobrar dinheiro para investir em cursos - afirma ela, que quer trabalhar para juntar dinheiro e fazer uma faculdade de Medicina ou Enfermagem.


A exigência de qualificação é constante, mas nem sempre garante a vaga. Outro empecilho encontrado por Marluce foi a distância, o fato de morar longe do Centro. Para não pagar passagem, o empregador escolhe o candidato que mora mais perto do serviço.


- Eu tenho curso de informática. Uma vez fui encaminhada para uma vaga de vendedora, e o senhor que me atendeu nem fez a entrevista. Olhou o meu endereço (Estrada de São Martinho) e me dispensou - conta a jovem.


Nesta sexta-feira, uma semana depois da via-crúcis de Marluce, a jovem continuava desempregada. No dia 11, ela foi chamada pela CDL e fez uma entrevista para uma vaga de caixa de supermercado, mas ainda segue no aguardo. Há mais de um ano Marluce está à procura de trabalho. Para ela e tantos outros na mesma situação, é uma espera sem fim.


 

DIÁRIO DE SANTA MARIA

 

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