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9 de junho de 2026
 

Municípios do RS | 12/07/2008 | 10h41min

Os bastidores do turno único em Caxias do Sul

Município abriu mão do segundo turno por ter apenas dois candidatos, um fato inédito no Estado

Roberto Carlos Dias | roberto.dias@jornalpioneiro.com.br

Em reuniões e jantares, foi costurado um cenário que até hoje só ocorreu uma vez em todo o país


Caxias do Sul – O desenho da inédita eleição em turno único em Caxias do Sul começou a ser rascunhado no início de 2007. Já naquela época, com os pré-candidatos a prefeito Pepe Vargas (PT) e José Ivo Sartori (PMDB) despontando como favoritos e polarizando a disputa, os outros partidos da cidade sepultaram as chances de apresentar uma terceira opção ao eleitor e caíram nos braços de um campo ou outro.


Jantares semanais com presidentes de partidos da base aliada de Sartori, afagos, reuniões, convites para ampliar o leque de alianças e contatos telefônicos com lideranças expressivas do cenário nacional e estadual para solicitar intervenção nas articulações locais foram dando forma aos rabiscos traçados no começo do ano passado. Com o cenário formatado, o caxiense conhecerá o futuro prefeito no dia 5 de outubro.


Velhos adversários, o deputado federal e ex-prefeito de Caxias Pepe Vargas e o prefeito Sartori vão protagonizar uma disputa sem a possibilidade de tentar virar o placar no segundo tempo do jogo. O pleito deste ano vai reprisar, de certa forma, a campanha de 2000, quando Pepe foi reconduzido ao cargo máximo de Caxias, derrotando Sartori por 824 votos no segundo turno, tornando-se o primeiro prefeito a ficar oito anos consecutivos no poder desde o advento da reeleição. A pequena diferença resultou num livro cunhado pelo então assessor de imprensa de Sartori, o jornalista Antonio Feldmann (PMDB), que hoje é o secretário de Cultura de Caxias. A obra foi nomeada Eleições 2000 – Uma disputa que não terminou.


Com a prerrogativa de ter segundo turno assegurada por lei, credencial de quatro cidades gaúchas, Caxias abriu mão da possibilidade e deixará esse fato inédito registrado na história do Estado. Essa é a primeira vez, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que uma cidade gaúcha com mais de 200 mil eleitores não terá segundo turno por ter apenas dois candidatos. No Brasil, dos 74 municípios com segundo turno em 23 Estados, o turno único por esse motivo ocorreu em 2004 em São Vicente (SP), onde existiam 219 mil eleitores, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O cenário com só duas candidaturas também não ocorria em Caxias há 34 anos. A última vez em que a cidade teve apenas dois candidatos foi em 1976, quando somente Victor Faccioni (Arena), e Mansueto Serafini Filho (MDB), concorreram. Mansueto, hoje no PTB, venceu com uma diferença superior a 10 mil votos.


Culinária e política na mesa – Oficialmente, a campanha começou no dia 6 deste mês, mas o duelo entre Pepe e Sartori tornou-se mais intenso no começo deste ano na busca de apoios. Na queda-de-braço, Sartori obteve a primeira vitória, atraindo para o seu lado o PSB – ex-aliado do PT – e o PSDC. Com essa cartada, ampliou a base de 12 para 14 legendas ao reeditar a coligação Caxias para Todos (PMDB -PDT -PTB -PP - PSDB - DEM - PSB - PV - PPS - PHS - PR - PRB - PSC - PSDC). O presidente do PMDB, Guerino Pisoni, teve papel importante na manutenção e ampliação da aliança. Na Festa da Uva, de 21 de fevereiro a 9 de março, foi o articulador da união, liderando jantares com os presidentes dos partidos uma ou duas vezes por mês.


Nos últimos 60 dias, as reuniões-jantares passaram a ocorrer uma vez por semana, geralmente às terças-feiras. O cardápio era à base de coquetel ou grelhados, mas o prato principal era a política. Os encontros eram em restaurantes, na casa de Pisoni, na residência do vice-prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT) ou no posto de combustível do presidente do PSDB, Moacyr Bressan. Pisoni e os dirigentes discutiam os erros e acertos e como as legendas se enxergavam dentro do governo. Depois de uma hora de encontro, chegavam Sartori e Alceu para jantar e receber o relato do que havia sido dito.


O tempero de Pepe Vargas – Os jantares, entretanto, nem sempre eram bem digeridos, principalmente quando entrava em discussão a representatividade das siglas no governo. Mas todos disfarçavam. Apesar de a culinária da Serra não ser parecida com a mineira, o assédio do grupo de Pepe colocou pimenta no molho, desestabilizando siglas como PP, PTB e o PDT de Alceu. Os progressistas estiveram a um passo de coligar com os petistas, outro fato inédito se forem levadas em consideração as posições ideológicas antagônicas de PT e PP. A aliança tinha a aprovação do líder do PP, Ricardo Golin, e da juventude do partido. Pepe assumiu as negociações, trocando telefonemas com o deputado estadual e presidente do PP gaúcho, Jerônimo Göergen, para propor o posto de vice. Göergen concordava, mas após muita discussão, a ala conservadora do PP venceu e o partido manteve-se com Sartori.


Com a derrota, os petistas investiram no PTB. Entre os padrinhos desse casamento, estavam o ex-prefeito Mansueto Serafini Filho e o senador Sérgio Zambiasi, que foi procurado por Pepe e avalizou a união. O deputado estadual Luís Augusto Lara também foi acionado. Mas o senador Pedro Simon (PMDB) chegou a telefonar para o vereador Zoraido Silva (PTB), quando ele jantava com peemedebistas, para pedir que revaliasse a idéia de ser vice de Pepe. O PTB acabou ficando com Sartori.

O PDT balança - O PDT igualmente travou embates internos. Primeiro, um grupo defendia que o partido deveria discutir a possibilidade de candidatura própria antes de dizer o sim a Sartori. A tese foi vencida. Com isso, os dissidentes começaram a defender uma possível composição com outras legendas para não enfraquecer o partido. Mais uma vez foram derrotados. Então, passaram a levantar a possibilidade de apresentar outro nome para ser vice de Sartori no lugar de Alceu. Após muito barulho, Alceu acabou aclamado.


PC do B conquista o posto de vice – Com a debandada da maioria das siglas para o lado de Sartori, Pepe e o presidente do PT, Ansélio Brustolin, recompuseram a Frente Popular, agora formada por PT, PC do B, PMN e PSL – essa última legenda foi reativada na cidade com a dissidência de filiados ao PPS, que não concordavam com a decisão de manter-se com Sartori.


Sem PP e PTB, ganhou força no PT a formação de chapa pura com o empresário Ovídio Deitos para vice. Fiel ao PT desde a primeira eleição de Pepe, o PC do B exigiu o cargo de vice para não lançar candidato próprio, como fez em 2004, e apresentou a sindicalista Abgail Pereira para a vaga. Apesar da coligação pró-Sartori oficializada, o núcleo petista assegura ter implodido alguns partidos aliados do prefeito, recebendo adesões de partes da base e de setores sociais.


Vice mulher

A análise da Frente Popular ao optar por Abgail Pereira para vice, foi a de que uma mulher na chapa sempre acrescenta e remete ao perfil de Pepe Vargas, que concorreu na primeira vez com Marisa Formolo (PT) de vice, e na segunda com Justina Onzi (PT).

 

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