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Diário de Santa Maria

16/12/2010 | N° 2687AlertaVoltar para a edição de hoje

ARTIGO

Indiferença social

O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 17, determina que é dever de toda a sociedade zelar pela dignidade dos sujeitos que a referida Lei protege, pondo-os a salvo de tudo que cause dano aos mesmos. No entanto, a cada dia, mais crianças estão travestidas do manto da indiferença e, por omissão, com o aval, da própria coletividade. Crianças, dentro de contêiner, catando lixo reciclável, realizavam a tarefa com a maior naturalidade, como se houvessem nascido em uma lata de lixo. Quem são os infantes? Onde estamos nós que nada fazemos para evitar isto? Estamos calejados, acostumados, perdemos o espanto? Somos mais sensíveis quando um cão revira a lixeira, do que um ser humano?

Meninos fazem malabarismos em sinaleiras: pequenos, magros, maltrapilhos, com seus olhares tristonhos, cansados, sem utopias. Na chuva, no frio, na madrugada, em horários e dias variados. Talvez estejam sendo abusados na própria família, ou prefiram a rua ao lar, ou estão, simplesmente, complementando a economia doméstica, mas alguma coisa deve ser feita. A lei é perfeita, os homens, não. Meninos invisíveis que pedem socorro são proibidos de trabalhar, mas precisam comer, sobreviver e, por isso, ficam à mercê das intempéries da vida.

São invisíveis à sociedade e fazem parte de um sistema falho e somente serão vistos quando infringirem a lei porque deixarão de ser vítimas e passarão a ser vitimizadores e todos clamarão por justiça: o cárcere. Os meninos do semáforo pedem esmolas com malabarismos, tendo como circo a rua e como ingresso algumas moedas. Não se pode alimentar a sina dos mesmos com moedas que, provavelmente, não irão para eles.

Os direitos humanos devem existir não só para quem está preso, mas para as vítimas dos encarcerados, do sistema e da sociedade, uma vez que ainda estamos longe de prevenir o crime, mas desejosos de punição. Devemos investir mais em programas que ocupem a criança e o adolescente o dia integral. A demonstração da indiferença foi estampada na luta contra o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Até que ponto a miséria e a pobreza do outro nos são indiferentes? A resposta é a criminalidade, os presídios lotados, a insegurança e o medo da nossa apatia.

Toda a sociedade brada por segurança, deseja o término da criminalidade, mas, enquanto houver receptador, haverá “bandido”. Enquanto houver dependentes de substâncias entorpecentes, haverá traficantes. O que fazer, então? Zelar pelas crianças e adolescentes, investir na educação e amar impondo limites. A liberdade excessiva e a indiferença já demonstraram os seus dissabores.

SILVIA LOPES DA LUZ|Advogada e professora da Ulbra

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