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Diário de Santa Maria

23/09/2009 | N° 2299AlertaVoltar para a edição de hoje

ARTIGO

O político bufão

A vida e o poder no contexto medieválico, segundo a história da arte, criou por meio da dramaturgia a figura “esquisita” e deformada do bufão. A sua “não-normalidade” o condenava a viver como ratos nos subterrâneos dos espaços de poder. O bufão é hilário. Causador de brincadeiras e risos quando sua figura emerge de seu submundo. Nas grandes tragédias, o bufão escalava, por vezes, sem a aquiescência de seu senhor ao mundo secreto do saber. Transformava-se, de forma autodidata, num erudito.

A desgraça humana produz, no trágico, por meio da figura do bufão, o riso de nossa própria condição. No ambiente da estética, representa o coletivo dos excluídos, dos marginais, ou seja, o grito de alerta contra a opressão. Nos subterrâneos do poder nacional, emergiu a figura patética do político bufão.

O político bufão não é deformado fisicamente. É bonito e usa ternos de grife. Suas atitudes insanas e desprezíveis banalizam a barbárie e silenciam os desmandos na vida pública. Os ratos da vida política nacional não são eruditos. São, em essência, pragmáticos. Gostam de levar vantagem em tudo. Seu maior objeto de desejo não é a esperança da caixa de pandora, mas as chaves dos cofres públicos. O político bufão é deformado eticamente. Engorda sua conta bancária e eleva sua posição, na triste pirâmide social nacional, com o dinheiro roubado.

O político bufão não mora em porões e não vive das sobras das festas do castelo. É sua excelência. Mora em mansões e é responsável pelas festas e orgias produzidas nas franjas do poder. É um déspota hilário que faz extravagância com o dinheiro de nosso orçamento. Diferentemente do bufão da dramaturgia, o político bufão é o denunciado, é a materialização das múltiplas formas de corrupção.

Na loucura da vida política nacional, o político bufão nos faz refletir: razões econômicas, de uma minoria de larápios, não podem justificar um mundo de injustiças sociais sofridas pelo povo. Temos de reconstituir nosso prazer produzido a partir da participação nas diferentes esferas da vida pública. Sim aos “corcundas” da dramaturgia e um não aos políticos corruptos. Um novo momento ético-político tem de emergir dos escombros.

LUIZ CARLOS NASCIMENTO DA ROSA|Professor do Centro de Edudação e associado à Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm)

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