Oenvolvimento do governo brasileiro no episódio hondurenho configura, até o presente momento, a aplicação prática de uma tradição diplomática que nosso país mantém. A concessão de abrigo ao presidente Manuel Zelaya, deposto há três meses, não pode, por isso, ser criticada. A hospitalidade concedida ao mandatário de Honduras coloca nosso país como um dos protagonistas da crise, ao mesmo tempo que reforça a política internacional de não intervenção e de proteção da democracia que historicamente cultuamos. O golpe, rejeitado pela maioria dos países, da Venezuela de Chávez aos Estados Unidos de Obama, por boa parte das organizações internacionais, ganhou um cenário mais tenso com a chegada de Zelaya a Tegucigalpa e sua busca de proteção na embaixada do Brasil. Ainda assim, trata-se de uma situação incomum, já que o presidente deposto não quer pedir asilo formal ao Brasil, ao mesmo tempo em que o governo interino, que assumiu há 90 dias, quer a situação se defina ou com a concessão de asilo ou com a entrega de
Zelaya.
As tropelias que ocorreram ontem de manhã em frente à embaixada brasileira, quando os manifestantes foram dispersados à força, dá uma ideia da gravidade e delicadeza dessas questões. O próprio presidente Lula, em conversa com o presidente asilado, recomendou-lhe que não fornecesse qualquer pretexto para a invasão da sede diplomática e recomendou “negociação democrática” para romper o impasse que há três meses significou um quebra do sistema representativo de Honduras.
O que está em jogo no episódio do país centro-americano, agora com a participação importante e até essencial do Brasil, é muito mais do que a tentativa de devolver o poder ao presidente que a sociedade hondurenha elegeu. Há uma complexa soma de realidades políticas e econômicas que se embaralham neste momento hemisférico. Se do caso hondurenho resultar um fracasso institucional, o que ainda não está descartado, ele terá sido a demonstração da dificuldade que a América Latina tem de manter-se no
caminho da normalidade
democrática e do respeito à vontade das urnas. Os próprios governantes acabam colaborando para isso sempre que colocam seus interesses pessoais ou partidários acima da valorização das instituições. O Brasil, que desde a redemocratização na década de 80 mantém uma postura de rejeição formal aos golpes e às rupturas institucionais que afetam a rotina eleitoral e a normalidade, precisa usar essa autoridade para ajudar a construir uma solução capaz de fazer com que, no atual episódio, a democracia avance em Honduras e no continente.
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