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Diário de Santa Maria

19/06/2010 | N° 2530AlertaVoltar para a edição de hoje

REPORTAGEM

A glória durou pouco tempo

Euclides Guterres era filho de Ernesto e Manuela Guterres. Ele e seus seis irmãos foram criados em São Martinho da Serra. Desde cedo, ele acompanhava o pai, que tropeava o gado e aprendeu a laçar. O laço acabou lhe trazendo fama e, por algum tempo, dinheiro. Para a revista O Cruzeiro, em 1952, o peão afirmou sobre a sua famosa laçada: “Eu não fiz por maldade. Foi pura brincadeira. Para falar a verdade, não acreditava que pudesse pegar o aviaozinho pelas guampas.”

Noal, o piloto laçado por Guterres, não achava que o peão era tão bom quanto se dizia. Em 1999, em uma das poucas entrevistas que deu sobre o caso, ele garantiu a Zero Hora: “Aquele não laçava nem vaca. Foi uma sorte muito grande.”

O espírito aventureiro de Guterres também foi responsável por muita confusão. Uma delas foi ter abandonado a mãe de sua primeira filha quando ela estava grávida. Carolina Soares dos Santos morreu no começo deste ano sem apagar a mágoa do peão.

– Ele foi o pai biológico da minha mãe, mas abandonou a minha avó com seis meses de gravidez. Era um aventureiro – conta o neto de Euclides, o advogado Dinarte Marshall Júnior, 37 anos.

A mãe de Dinarte, a professora Maria do Carmo Marshall, morreu em julho de 2005, aos 55 anos. Ela só conheceu o pai aos 18 anos. Em 1999, Maria do Carmo deu entrevista a Zero Hora, falando sobre a proeza do pai. Naquela época, contou que Guterres tentou voltar com sua mãe, mas que já era tarde, porque ela estava casada com outro. Maria do Carmo ensaiou um perfil do pai: corajoso, preocupado com a aparência e conquistador de mulheres.

– Minha mãe, como ele, foi uma grande laçadora. Ela se orgulhava muito disso – lembra, com carinho, Dinarte.

Segundo Dinarte, Maria do Carmo e a mãe, Carolina, ficaram muito tempo brigadas por conta da entrevista. As duas só teriam se reconciliado quando Maria do Carmo descobriu que estava doente.

– Laçar um avião até que é fácil, perto de criar um filho. Isso ele não quis para a vida dele. Eu penso que foi tudo uma brincadeira de moleques entre ele e o piloto – afirma Dinarte, que também guarda ressentimentos do avô por tudo o que sua avó passou.

Poucos anos depois de laçar o avião, Guterres foi para o Uruguai. Por lá, comprava e vendia gado para os estancieiros. A juventude de aventuras, no entanto, não lhe garantiu um fim de vida com posses. Acabou morrendo pobre, em 1981, vítima de leucemia.


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