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Elton Brum da Silva morreu com um tiro nas
costas. Quem o matou? Elton era um brasileiro
muito pobre. Não tinha casa e não
tinha emprego, embora não lhe faltasse
vontade de trabalhar. Podia ter sentado e
chorado, esperando uma migalha do governo,
vegetando passivamente, conformado e submisso,
como se o destino dos pobres fosse sempre o
desalento. Mas não. Movido pela
inquietação e pela
esperança, Elton resolveu se juntar com
outros brasileiros muito pobres, todos sem casa e
sem emprego, para reivindicar o direito de
trabalhar produzindo alimentos para o
Brasil.
Quando alguém xingar o MST na minha
frente, vou me lembrar sempre do Elton. Quando
alguém disser, espumando de raiva,
transtornado de ódio, que os sem-terra
são baderneiros perigosíssimos,
radicais comunistas e terroristas
disfarçados, vou recordar o sonho prosaico
do agricultor que queria apenas plantar couves e
beterrabas. Em vez disso, Elton levou um tiro nas
costas. Quem matou Elton?
A Brigada Militar reconheceu os erros da
desastrosa operação de
reintegração de posse da fazenda
Southall, em São Gabriel, na sexta-feira
passada. Ao que tudo indica, o tiro parece ter
partido mesmo de um brigadiano, ou seja, de um
integrante da corporação paga por
nossos impostos para proteger todos os
cidadãos. Elton era um cidadão, mas
ninguém o protegeu da Brigada.
Se foi mesmo um brigadiano que matou Elton,
não lhe faltam cúmplices. Todos os
poderes do Estado brasileiro ajudaram a planejar
a morte do agricultor. O legislativo, por
omissão e conivência, sempre
procurando entravar avanços na
legislação agrária; o
judiciário, por priorizar, em grande parte
das vezes, a proteção da
propriedade dos mais ricos em detrimento da vida
dos mais pobres; e o executivo, por fazer jogo
duplo, fingindo que faz reforma agrária,
quando quer mesmo é estimular um sistema
de produção socialmente injusto,
que expulsa os agricultores do campo, e
ambientalmente insustentável, que joga 700
milhões de toneladas de veneno no solo e
nos rios brasileiros a cada nova safra.
Se continuarmos tratando a questão
agrária como caso de polícia, e os
sem-terra como bandidos, é provável
que a intransigência movida pelo
ódio de parte a parte resulte em mais
mortes. O campo não precisa de mais
mortes, precisa de mais comida, precisa das
couves e das beterrabas que o Elton não
pode mais plantar.
jornalista
marcelocanellas@uol.com.br
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