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Diário de Santa Maria

26/08/2009 | N° 2273Alerta Voltar para a edição de hoje

CRÔNICA | MARCELO CANELLAS

  • Quem matou Elton?

    Elton Brum da Silva morreu com um tiro nas costas. Quem o matou? Elton era um brasileiro muito pobre. Não tinha casa e não tinha emprego, embora não lhe faltasse vontade de trabalhar. Podia ter sentado e chorado, esperando uma migalha do governo, vegetando passivamente, conformado e submisso, como se o destino dos pobres fosse sempre o desalento. Mas não. Movido pela inquietação e pela esperança, Elton resolveu se juntar com outros brasileiros muito pobres, todos sem casa e sem emprego, para reivindicar o direito de trabalhar produzindo alimentos para o Brasil.

    Quando alguém xingar o MST na minha frente, vou me lembrar sempre do Elton. Quando alguém disser, espumando de raiva, transtornado de ódio, que os sem-terra são baderneiros perigosíssimos, radicais comunistas e terroristas disfarçados, vou recordar o sonho prosaico do agricultor que queria apenas plantar couves e beterrabas. Em vez disso, Elton levou um tiro nas costas. Quem matou Elton?

    A Brigada Militar reconheceu os erros da desastrosa operação de reintegração de posse da fazenda Southall, em São Gabriel, na sexta-feira passada. Ao que tudo indica, o tiro parece ter partido mesmo de um brigadiano, ou seja, de um integrante da corporação paga por nossos impostos para proteger todos os cidadãos. Elton era um cidadão, mas ninguém o protegeu da Brigada.

    Se foi mesmo um brigadiano que matou Elton, não lhe faltam cúmplices. Todos os poderes do Estado brasileiro ajudaram a planejar a morte do agricultor. O legislativo, por omissão e conivência, sempre procurando entravar avanços na legislação agrária; o judiciário, por priorizar, em grande parte das vezes, a proteção da propriedade dos mais ricos em detrimento da vida dos mais pobres; e o executivo, por fazer jogo duplo, fingindo que faz reforma agrária, quando quer mesmo é estimular um sistema de produção socialmente injusto, que expulsa os agricultores do campo, e ambientalmente insustentável, que joga 700 milhões de toneladas de veneno no solo e nos rios brasileiros a cada nova safra.

    Se continuarmos tratando a questão agrária como caso de polícia, e os sem-terra como bandidos, é provável que a intransigência movida pelo ódio de parte a parte resulte em mais mortes. O campo não precisa de mais mortes, precisa de mais comida, precisa das couves e das beterrabas que o Elton não pode mais plantar.

    jornalista

    marcelocanellas@uol.com.br


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