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15 de novembro de 2009 | N° 8624AlertaVoltar para a edição de hoje

“Procuro me policiar em dobro”

Entrevista: Affonso Ghizzo Neto, promotor e idealizador da campanha

O promotor de Justiça catarinense Affonso Ghizzo Neto ganhou notoriedade nacional como idealizador da campanha “O que você tem a ver com a corrupção?” Em pouco mais de cinco anos, ele viu uma iniciativa que nasceu em Chapecó, com a proposta de ser uma campanha regional, ganhar projeção estadual e, mais tarde, nacional, com o apoio da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) e do Conselho Nacional dos Procuradores-gerais (CNPG). O próximo passo é ganhar o mundo a partir de uma cooperação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Prestes a completar 40 anos de idade e 11 de Ministério Público, Ghizzo Neto afirma que não quer ser visto como um “paladino contra a corrupção” e que, como qualquer ser humano, também comete erros. Nesta entrevista, ele define os rumos da campanha, os desafios e como este trabalho interfere em sua vida pessoal.

Diário Catarinense – Como coordenador da campanha, o senhor já fez diversas palestras falando sobre a corrupção, estimulando a reflexão sobre os pequenos delitos do dia a dia. Mas, como cidadão, como o senhor lida com os desvios do cotidiano?

Affonso Ghizzo Neto –
Estes dias fiz uma palestra em um batalhão da PM e comentei que um dos policiais presentes havia me multado. E ele fez certo, porque eu estava dirigindo falando ao celular. Fui multado duas vezes por isso e, depois, refletindo, vi que estava errado, pois por egoísmo estava colocando a vida de outros em risco. Em outra oportunidade, quando me mudei para Joinville (há cinco anos), estava levando minha filha para a escola, vi o sinal amarelo e acelerei. Minha filha, na época com oito anos, me perguntou se podia passar no sinal amarelo. Aprimeira reação é procurar dar uma desculpa, mas disse a ela que o que tinha feito era errado e que não faria de novo. Até hoje estou cumprindo esta promessa. Sou humano, cometo erros, mas procuro me policiar em dobro, até por causa da campanha.

DC – Mas dos desvios do dia a dia, qual o deixa mais irritado?

Ghizzo –
Um cuidado que tenho que ter com o projeto é não me tornar intolerante, me colocar como o paladino contra a corrupção. Às vezes, me pego bravo no trânsito ao ver uma irregularidade. Quando vejo alguém furando fila, já quero ir lá falar com a pessoa. Mas tenho a consciência de que não posso transformar meu dia num inferno astral. Procuro ter o cuidado de trabalhar isso, até mesmo com minha família, para não me tornar um chato. Se for o caso, acho que até devo procurar uma terapia, porque não adianta se alucinar com uma coisa e querer resolver na marra.

DC – O senhor acha, então, que precisa se desligar um pouco da campanha?

Ghizzo –
Uma coisa que venho procurando fazer é despersonalizar a campanha. Arualmente, já divido a coordenação estadual com o promotor Ricardo Paladino e quero passar o bastão da coordenação nacional para outro promotor no ano que vem. O ponto principal da campanha é que não existe e não existirá um salvador da pátria. Nada se faz sozinho ou isoladamente com sucesso. O projeto conquistou o país pela sua simplicidade e, principalmente, pela estratégia de somar forças e agregar ideias com outras pessoas e instituições.

DC – Quais os desafios da campanha a partir de agora?

Ghizzo –
A campanha surgiu em 2004 com a pretensão de ser regional e, em virtude de parceiros, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE), tornou-se estadual. No ano seguinte, ganhamos um prêmio nacional. Isso chamou a atenção para a proposta, que acabou sendo abraçada pela Conamp e pelo CNPG. Hoje, temos coordenadores em todos os estados, diversos parceiros, e a campanha vem crescendo, ganhando força. Não procuramos mais os parceiros, somos procurados. Nossa meta é continuar com as ações de mobilização, como a do Dia Internacional de Combate à Corrupção, no dia 9 de dezembro. Também estamos planejando uma exposição de fotos que deve ser lançada em janeiro em Santa Catarina para, depois, percorrer todo o país. Outra novidade é uma parceria com a Unesco para traduzir o material da campanha para cinco idiomas (inglês, francês, italiano, espanhol e alemão), para que a mesma ideia possa ser adotada por diferentes países a partir de sua cultura e realidade.

DC – A campanha continua sendo feita nas escolas?

Ghizzo –
Este é um dos pontos chaves da campanha, a mobilização nos colégios. Nestes dias, as escolas suspendem as atividades por dois dias para trabalhar a temática da corrupção a partir de projetos pedagógicos. Recentemente, fizemos uma ação neste sentido nos colégios Bom Jesus, de Joinville, e Imaculada Conceição, em Florianópolis, e os resultados foram muito positivos. Na nossa visão, sem educação, toda ação será em vão. Defendemos uma nova educação problematizadora, que deve superar a contradição existente entre educador e educandos, libertando, através do diálogo franco e igualitário, a troca de conhecimentos entre os agentes do processo educativo.

DC – E como estão os preparativos para o Dia de Combate à Corrupção, em 9 de dezembro?

Ghizzo –
Realizamos algumas reuniões preparatórias com as entidades parceiras e a ideia é realizar um ato na Capital para marcar a data. Nossa proposta é reunir os parceiros, alunos e educadores em um ponto de encontro e depois seguir em passeata até a Assembleia Legislativa. Convidamos as escolas públicas e particulares da região e pensamos que cada uma possa indicar um estudante para representá-la. Na Assembleia, cada aluno poderá ocupar a tribuna por 30 segundos para deixar sua mensagem contra a corrupção. Nosso objetivo é mostrar que esta reflexão faz parte do exercício da cidadania.

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