Mensalão, farra das passagens aéreas, funcionários fantasmas, desvios de dinheiro. Os escândalos se sucedem no noticiário, e a população se diz cada vez mais revoltada. No discurso, todos são contra a corrupção, mas, no dia a dia, alguns pequenos atos também representam desvios de conduta e podem, ao longo do tempo, tornar as pessoas mais tolerantes às irregularidades.
Ficar com o troco a mais dado pelo caixa, furar fila, copiar pela internet o trabalho de outra pessoa, estacionar em vagas de deficientes, furar o sinal vermelho, trocar etiqueta de preço, colar em provas e consumir produtos dentro do supermercado e não pagar são exemplos de contravenções cotidianas muitas vezes praticadas sob o pretexto de que “só uma vez não faz mal”.
A pensadora alemã de origem judia Hannah Arendt (1906–1975) ficou famosa por conceitos, elaborados a partir do evento do nazismo, como o da banalização do mal e a aceitação do mal menor. Analisando como os hábitos éticos e morais
de uma sociedade, no caso da
Alemanha antes da Segunda Guerra, mudaram do dia para noite, Hannah questionava a aceitação do mal menor, o que para ela era a aceitação do mal em si.
Cultura de colocar o interesse pessoal à frente do coletivo
Traçando um paralelo com a sociedade brasileira atual, pode-se dizer que, aceitando um pequeno ato de corrupção, aceita-se os grandes atos também. E é nesta constatação que se baseia a campanha “O que você tem a ver com a corrupção?”, criada pelo Ministério Público de Santa Catarina e hoje adotada em todo o país.
– Se não peço a nota fiscal, se dou um jeitinho no troco, tento subornar um guarda, eu faço um pequeno ato de corrupção, mas também consolido e aceito o grande ato de corrupção, que pode ser o desvio de milhões por um senador corrupto ou a venda de sentenças – diz o idealizador e coordenador nacional da campanha, promotor Affonso Ghizzo Neto.
Para o promotor, muito desta cultura vem da origem
patrimonial brasileira, em que a tendência é colocar sempre o
interesse pessoal à frente do coletivo. De acordo com ele, é comum, por exemplo, ver uma pessoa defendendo o meio ambiente, se dizendo contra o desmatamento da Amazônia. Porém, quando esta mesma pessoa compra uma casa na beira do mar, onde não pode construir, ela arranja uma desculpa e acha que, naquele caso, não existe problema, pois o dano ao meio ambiente nem será tão grande assim.
– Além disso, caímos frequentemente no erro da generalização, que é um mecanismo para reproduzir a impunidade, porque não se identifica ou pune os verdadeiros culpados. Então, quando adotamos o discurso de que todo político é corrupto, todo juiz vende sentença, todo promotor quer aparecer, estamos beneficiando as exceções. O desgaste das instituições favorece os corruptos – acrescenta Ghizzo Neto.
natalia.viana@diario.com.br
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> Qual prática comum na vida das
pessoas você considera mais condenável?
( ) Atravessar fora da faixa de segurança
( ) Não parar para pedestre na faixa de segurança
( ) Baixar música pirata da internet
( ) Falar ao celular enquanto dirige
( ) Furar fila
( ) Estacionar em vaga de idoso ou deficiente
( ) Andar no acostamento para driblar congestionamento
( ) Não dar lugar para idoso em ônibus
( ) Dar esmola
( ) Não dar esmola
| Histórico da campanha |
| > Foi lançada em agosto de 2004, em Chapecó, com o objetivo de conscientizar a sociedade, especialmente crianças e adolescentes, sobre o valor da honestidade e transparência das atitudes do cidadão comum, a partir de um vídeo animado com abordagens diferenciadas sobre o assunto |
| > Até maio de 2005, o vídeo já havia sido exibido em todos os meios de comunicação do Estado, iniciando um ciclo de palestras e debates sobre a campanha |
| > Passou a ter alcance estadual a partir do apoio de instituições como o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Também foi produzida uma cartilha que, com apoio da Secretaria de Estado da Educação, foi distribuída nas escolas primárias e secundárias de Santa Catarina |
| > Neste mesmo ano, ganhou o prêmio Innovare do Ministério da Justiça, chamando a atenção dos outros ministérios públicos (estaduais e federais) e sendo encampada nacionalmente |
| > Em 2008, ganhou prêmio Unodc, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes Brasil e Cone Sul, na categoria Mobilização Social NO TWITTER |
| > A campanha também está no Twitter - http://twitter.com/@corrupcaotofora - onde são divulgadas as novidades, entrevistas, material para reflexão e a opinião de estudantes sobre o tema. Confira algumas postagens: |
| > Corrupção é fazer o que sabemos que é errado Giovanni Calabraide Cardenas, 7 anos. |
| > Ela existe na política e dentro de casa, como colar na prova Maria Eduarda Portela, 7 anos. |
| > O que você acha da corrupção? Ela tem som de palavrão e é uma coisa muito feia que não devemos fazer Letícia Costa, 8 anos. |
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