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10 de novembro de 2009 | N° 8619AlertaVoltar para a edição de hoje

A matança como rotina

Nenhuma das festas populares catarinenses realizadas em cidades espalhadas por todo o Estado, e que costumam atrair multidões e multiplicar o movimento nas estradas, estava em andamento. Não era um feriadão ou data especial, capazes de causar o mesmo efeito. Tratava-se apenas de um fim de semana como outro qualquer, que começou quente e ensolarado e depois teve vento forte e chuva. Mas, entre a noite de sexta-feira e a de domingo, ocorreram mais 15 mortes em acidentes registrados nas estradas e vias urbanas de Santa Catarina. Quarenta e oito horas, apenas 48 horas foram suficientes para registrar mais uma matança recorde para a crônica macabra. Sem qualquer razão especial capaz de dar uma explicação plausível para tanto.

Algumas comparações se impõem: no recente feriadão de Finados, foram sete as mortes no asfalto em três dias; durante os feriados da Páscoa deste ano, foram 12 as vidas perdidas; no mesmo período de 2008, 14. Portanto, carnificina do fim de semana ultrapassou, em definitivo, o limite do suportável, e requer bem mais do que explicações que nada explicam, que se repetem com tediosa monotonia, enquanto vidas são ceifadas, e cada uma dessas perdas provoca pungentes tragédias humanas e familiares. Mas não é só. Cite-se, também, o drama enfrentado pelos feridos e mutilados nesses acidentes, muitos dos quais jamais se recuperarão das sequelas sofridas, e só terão uma vida pela metade daqui para a frente.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), são vários os fatores capazes de influir para a ocorrência de acidentes envolvendo veículos, mas o principal é – e sempre foi – o comportamento imprudente dos motoristas, que em Santa Catarina responde por mais de 94%. As mortes são mais numerosas em colisões frontais, quase todas em decorrência de ultrapassagens proibidas ou forçadas. O excesso de velocidade faz a regra nos finais de semana. Ou seja, o desprezo às mais elementares regras e procedimentos do trânsito pelos motoristas garante a Santa Catarina o triste segundo lugar no ranking nacional da letalidade no trânsito na proporção do número de veículos que integram a sua frota. O Estado é, também, responsável por expressivo percentual das quase 20 mil mortes anuais em acidentes associados ao consumo de álcool depois de a Lei Seca ter entrado em vigor.

Este é o cenário da insensatez e da ignorância, que a leniência com que a lei trata o infrator e a impunidade quase generalizada ajudam a compor. A verdade precisa ser encarada como primeiro passo para romper a inércia e partir em busca de soluções que amenizem esta tragédia interminável: até agora, pouco ou quase nenhum avanço foi obtido com as dezenas de campanhas de conscientização já realizadas, algumas delas que custaram alentadas somas aos cofres públicos. Bem mais efetivo, urgente e necessário é que o aparato oficial se equipe e fiscalize, com rigor, as rodovias – sejam as federais, as estaduais e as municipais – e as vias urbanas. Que não deixe nenhuma infração passar em branco, que aplique a lei em toda a sua extensão e retire de circulação os infratores contumazes. Caso contrário, o poder público se transformará em um cúmplice da matança. Nos fins de semana, nos feriadões e em qualquer dia, pois a violência do trânsito se incorporou ao cotidiano catarinense.

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