Bem provável que muitos já tenham cruzado com João S pelas ruas de Florianópolis – ou talvez somente aqueles que tenham alguma atenção para o invisível – mas ninguém, de fato, o conhece. João S está disperso na cidade, mas anônimo, desconhecido; não é uma assinatura, tampouco uma presença, mas somente uma ausência que se repete. Podemos dizer qualquer coisa sobre seu nome, jamais ouvi alguém dizer, qualquer especulação; será inútil. Não conheço João S, jamais irei conhecê-lo.
João S é artista visual e escritor, contudo; dizem, também, que estudou Arquitetura. Aliás, a biografia de João S não é de todo desconhecida. Sabe-se, por exemplo, que não nasceu em Florianópolis – mas vive aqui há alguns anos e, inclusive, já foi visto em um bar conhecido no Centro da cidade – e sabe-se, também, que fez de Florianópolis um dos principais temas de suas intervenções. Imagino que tenha mais ou menos a minha idade. Sua obra, digamos assim, é acessível – está ou esteve em qualquer lugar da cidade:
Escadaria do
Rosário, Escadaria do Teatro Álvaro de Carvalho, Avenida Hercílio Luz, Praça dos Bombeiros – e ao mesmo tempo não para de se esconder: apaga-se com o tempo, com o ritmo da cidade, e então desaparece.
Uma de suas intervenções mais visíveis é a inversão que o artista faz de Cruz e Sousa – ‘SOUSA CRUZ E’ – com um pequeno ornamento sob seu nome. Escrita, imagem e arquitetura tornam-se uma coisa só. A lição de Joan Brossa, uma das referências de João S, aparece evidente: humor e movimentação rápida. A memória do nome de Cruz e Sousa, nome canonizado e conhecido por todos, portanto – mesmo que ninguém leia a obra do poeta, todos sabem do que se trata –, dá lugar ao que nomeia o mais contingente e mais usual: uma empresa de cigarro. Um nome e outro são cristalizados, transparentes, mas se embaralham de repente, perdidos no meio da rua.
Geralmente suas intervenções envolvem a escrita. Além da velocidade, há outras duas repetições em seu procedimento, a meu ver – a frase feita e
o jogo de palavras. Por
mais simples e imediata – não devemos nunca esquecer que são frases feitas para funcionar na cidade, em um lugar discursivo que seria o publicitário, como um golpe ou um susto ou um sopro –, sua escrita é graciosa e, principalmente, bem acabada. A frase ‘NÃO HÁ VAGAS’, de vários modos, está disseminada na cidade inteira. Aliás, a frase feita é uma apropriação e, portanto, também um modo de desaparecer. Em outras palavras, a frase não é sua. Nada é seu. Não há assinatura.
O jogo de palavras me parece muitas vezes inferior, mas não deixa de ter a sua graça, sobretudo porque leva em consideração um diálogo com o espaço. Em P ARTE, por exemplo, a palavra se quebra na própria arquitetura – se parte – e oferece, assim, uma redundância interessante entre o sentido e a forma. Haverá sempre, seja através da redundância, do jogo ou do deslocamento da frase feita, na dispersão de enunciados que se equilibram entre o sentido e o sem sentido, haverá sempre uma inversão da lógica comunicativa, quer
dizer: um
esvaziamento do comentário, da mensagem. Imagino, ainda, que estes aparecimentos dizem respeito a uma investigação do funcionamento da escrita no espaço urbano. De fato, a cidade torna-se um livro.
E o livro, de tão rápido, torna-se uma rua. João S, dizem também, faz livros. Faz, com as próprias mãos, faz e escreve. Trata-se de livros mínimos, feito sua presença na cidade, elegantes e discretos, com tiragens mínimas, costurados, rápidos, quase ninguém conhece. Pude ter acesso a um destes livros, publicado no ano de 2008, que se intitula justamente Desterro – título que faz retornar certa memória da cidade, um fantasma, mais uma vez, porém a partir de outras chaves de leitura. Há 40 exemplares espalhados por aí. Os textos, fragmentos, também são curtos e rápidos – e, principalmente, fazem aparecer, de outro modo, uma dicção anônima. Ninguém conhece João S.
Um fragmento como este, o primeiro: “acordei e fui lá no horário combinado. esperei meia hora e ninguém apareceu”,
por exemplo, já tematiza
o lugar do corte na prosa, a prosa é puro corte, o lugar da indecisão. Depois, nenhum personagem de João S tem nome. Talvez seja o mesmo personagem de sempre, que retorna durante todo o livro: “o homem”, “um homem”, “outro homem”, o mesmo. Outro conto mínimo, apenas o início: “o homem caminha pela rua. só a luz dos postes. madrugada. outro homem vem ao fundo. se cruzam. boa noite, boa noite.” O sentido não se entrega de modo imediato, toda a cena é vaga, de tão rápida – e aqui aparece outra possibilidade de velocidade na escrita – tudo se passa na noite: “o homem sobe no ônibus vazio. é manhã cedo. pessoa aqui, lá. o homem está sozinho. paga o cobrador e vai se sentar no lugar dos homens sozinhos”.
Interessante, ainda, notar que o nome da cidade de João S é um nome perdido. Como a forma do livro, aliás, o Desterro – todo feito com restos de papel, de experiência. E deve ser um deserto a cidade de João S, depois, é uma cidade incerta: ausente. A cidade inteira está no livro, afinal – a
cidade é
inteira um livro esquecido.
* Mestrando em Literatura pela UFSC, autor das narrativas de piano e flauta – fragmentos de um romance (SP, 2007). Mantém o blog www.victordarosa.blogspot.com
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