A arte contemporânea em Florianópolis, nos últimos anos, vive um impasse curioso: se, por um lado, é visível o aparecimento de uma série de novos artistas com certo desejo e consistência - alguns, inclusive, com alguma entrada em um circuito de alcance nacional, como apontam as últimas seleções para o Rumos Visuais, do Itaú Cultural - , por outro lado há uma grande falta de instituições respeitáveis e espaços relevantes. Sabe-se que uma coisa dificilmente vive sem a outra, ou vive mesmo dificilmente - e que quase nada deve significar a obra de um artista quando não se apresenta com uma política de visibilidade, seja dentro desta política ou fora dela. Afinal, uma das perguntas fundamentais da arte contemporânea (feita por Duchamp e refeita) pode ser justamente esta: como se tornar visível? - como se tornar ausente?
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Ano passado, dois acontecimentos em duas exposições que aconteceram paralelamente em Florianópolis servem de metáfora para
refletir sobre este contexto
político da cidade. A primeira se deu em uma grande retrospectiva do pintor Martinho de Haro no Museu de Arte de Santa Catarina - ou seja, a instituição que, teoricamente, deveria servir como espécie de modelo do Estado. Em um dia de chuva razoável, todo o espaço do Museu foi invadido por baldes e panos de chão que procuravam conter as inúmeras goteiras que se formaram no teto. Curiosamente, o problema não foi resolvido e continuou até a abertura da exposição seguinte, que era justamente parte da coleção de Chateaubriand - uma exposição com um cuidado nacional, portanto. Só então as goteiras se tornaram notícia e, parece, foram resolvidas.
O segundo acontecimento é mais sutil, porém também vale como fonte de reflexão. Em uma instalação do artista Fernando Lindote, em que imprime barbotina direto sobre a parede, realizada na Galeria Municipal Paulo Vecchietti, as paredes estavam todas pretas, devido à opção curatorial de uma exposição anterior. Sabe-se que, comumente, as paredes de um cubo
branco, com
o perdão da redundância, são brancas, e assim devem ser entregues para o artista. Provavelmente em um gesto de ironia - já que muitas vezes uma discussão sobre a política da arte retorna no trabalho poético de Lindote - o artista realizou seu trabalho sobre a parede negra mesmo, à diferença de todas as versões anteriores, e assim permaneceu, representando uma espécie de luto institucional incorporado.
Uma das conseqüências que considero mais graves desta falência institucional - dentre outras - é justamente a ausência de exposições que, dentro da cidade, elaborem uma sofisticação visual a partir de discursos que circulam no debate da arte nacional e internacional. Em linhas gerais, as exposições maiores que temos à disposição para visitar em Florianópolis ou são retrospectivas de artistas regionais ou repetições cansadas da arte oficializada brasileira, que já é alguma coisa. Assim como não temos bibliotecas, também não temos arquivo visual: o acervo do Masc, por exemplo, está quase morto
faz algum
tempo - embora haja algumas tentativas de ressuscitá-lo, por vezes, como a curadoria que Charles Narloch realizou no começo de 2007 com parte deste acervo, intitulada Rótulos. Tudo isto, em última análise, e para dizer o mínimo, torna provinciana grande parte da reflexão da arte contemporânea na cidade.
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Neste contexto, o Salão Victor Meirelles, realizado faz 10 anos pelo mesmo Masc, oferece uma possibilidade de respiro, já que busca justamente constituir um discurso além do local e com certo risco, pois geralmente se trata de artistas considerados emergentes. Se o formato do Salão, de modo geral, e o alto investimento financeiro, neste caso específico, sejam sempre questões que provocam uma discussão meio silenciosa, é inegável, por outro lado, a relevância que o Salão Victor Meirelles tem na cidade, sobretudo porque faz circular a arte nacional dentro de um discurso mais ou menos sofisticado.
E há, no entanto, ainda, um esforço
interno, realizado quase sempre pelos
próprios artistas da cidade, no sentido de tornar o debate mais aberto. Enfatizo algumas tentativas que, com mais ou menos felicidade, insinuaram ou realizaram uma proposta de diálogo menos local.
O Museu Victor Meirelles, que também expõe o acervo de seu artista, é um dos espaços institucionalizados que, com a maior seriedade, dedica parte de seu esforço para o fomento da arte contemporânea e o debate acerca dela. A política do Museu, nos últimos anos, procura realizar exposições de artistas de outros lugares, jovens ou não, a partir de um edital que é lançado sempre no final do ano; além disso, realiza exposições de artistas mais consagrados, como a de Leonilson e Waltércio Caldas, que se tornaram dois acontecimentos nas artes visuais de Florianópolis; e ainda se abre para pensar a produção realizada por artistas que vivem ou viveram no Estado, como a recente exposição de Luiz Henrique Schwanke. Ainda, o Museu procura estimular debate e reflexão através de vários eventos do projeto
Agenda. E por
fim, em outro exercício de diálogo, tão interessante quanto silencioso, procura estabelecer conciliações e confrontos entre a pintura de Victor Meirelles, Desterro, e obras de artistas contemporâneos, como uma forma de reler a tradição, através do projeto Diálogos com Desterro.
Dois espaços criados pelos próprios artistas formados na cidade também merecem valorização, segundo meu ponto de vista. São eles: o Espaço Arco, espécie de ateliê do artista Roberto Freitas que, durante mais ou menos cincos anos, em parceria com Fernando Lindote, se tornou espaço ativo de discussão e exposições de risco - geralmente exposições de novos artistas de Florianópolis que consideravam, talvez, mais consistentes; e o Centro Cultural Arquipélago, fundado faz um ano pelas artistas Letícia Cardoso e Fabiana Wielewicki, e que, além de estimular o mercado de arte na cidade, também procura trazer certo frescor para as exposições que promove - como as recentes exposições da artista Gabriele Gomes, de Curitiba, e
do artista
Franzoi, de Joinville. O Espaço Arco, infelizmente, por vários motivos, faz algum tempo, parou suas atividades.
Vale citar, ainda, o projeto Pretexto, promovido pelo Sesc, que atua em todo o Estado. Trata-se de um formato de exposição que se realiza a partir da orientação de artistas geralmente mais iniciantes por parte de outros artistas e/ou curadores com alguma trajetória dentro do Estado. Esta orientação acontece durante algumas semanas e serve para discutir e tornar mais consistente o pensamento de cada artista sobre o próprio trabalho. Se as exposições do Pretexto não costumam alcançar um grande nível já no final de cada processo - seja pela falta de problemas comuns que construam certa margem para uma discussão curatorial e seja pelo nível dos artistas mesmo - o projeto apresenta resultados mais lentos, como a formação de um grupo de artistas preocupado em discutir a própria produção no interior de cada cidade de Santa Catarina.
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Talvez o maior desafio que
certa geração esteja trazendo para a cidade seja justamente o do esquecimento de alguns ideais do imaginário local que ainda nos ocupam - e na verdade, acredito que seja possível falar já de gerações, embora nos artistas que surgem nos últimos cinco anos, para sugerir alguma data, seja possível visualizar melhor um corpo. Nos últimos anos, também, é visível que certa homogeneidade poética dos artistas com formação no curso de artes visuais da Udesc foi relativizada com o aparecimento de outros agentes dentro do circuito de arte contemporânea de Florianópolis, sejam outros artistas, críticos e até mesmo curadores, ainda que de forma tímida, vamos dizer. Em tempo: a presença do Centro de Artes da Udesc - e o próprio fato de haver uma universidade pública de artes visuais na cidade (coisa que não acontece em Recife, por exemplo) - é, em parte, fundamental para este nível do debate além do local, embora não amenize muito a falta da UFSC nesta discussão.
Talvez por esta breve notícia eu
imagine que são
três as imagens que, em conflito, possam sintetizar de alguma maneira a arte contemporânea em Florianópolis: ilha, deserto e arquipélago.
* Ensaísta, mantém o blog www.victordarosa.blogspot.com
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