O ano de 2008 se desenhava dourado para as montadoras, principalmente nos mercados emergentes e especialmente no Brasil. Mas os títulos tóxicos da economia virtual precipitaram as vendas e expuseram antigas e graves dificuldades do setor, que agora fecha um exercício melancólico, com apelos a socorros bilionários de governos.
Nada é mais emblemático dessa guinada do que a General Motors (GM) ter revelado situação financeira crítica a ponto de estar sob risco de não ter em caixa o mínimo necessário para continuar as operações no primeiro semestre de 2009.
- Já fizemos os cortes possíveis. Sem ajuda do governo, não vamos conseguir operar - admitiu o presidente da GM, Frederick A. Henderson.
As dificuldades da GM tocam fundo o coração do povo americano. Por quase toda a segunda metade do século passado, a montadora dominou a indústria local. Chevrolet, Pontiac, Oldsmobile, Buick e Cadillac, algumas das marcas do grupo, são parte da vida da nação e
moldaram a cultura do país. Os EUA se
tornaram um país sobre quatro rodas. No Brasil, a GM chegou há 82 anos e é uma das quatro grandes ao lado de Ford, Fiat e Volkswagen. Fez história. Que chefe de família dos anos 1970 não sonhou em pilotar um Opala?
No terceiro trimestre deste ano, a supremacia da GM no mundo foi desbancada pela japonesa Toyota, que vendeu 2,236 milhões de carros, enquanto a americana emplacou 2,115 milhões. Desde o dia 7 deste mês, quando a montadora divulgou perdas muito acima do esperado pelos investidores, a situação piorou bastante para a gigante que liderou o ranking das 500 maiores empresas da revista Fortune por 37 anos (em 2006 a montadora havia caído para a terceira posição). Suas ações estão na pior cotação em 65 anos.
O pior efeito da atual crise é que a falta de crédito e a recessão sepultaram as chances de os recordes de vendas em países como o Brasil reduzirem o risco de desmanche das montadoras americanas. Embora a exposição da GM seja mais visível, a crise inclui Ford e
Chrysler, ambas na fila
do socorro governamental.
Risco de quebra de toda a cadeia de fornecimento
Se a GM chegar à bancarrota, provocará uma quebra em série, pois afetará os seus fornecedores de autopeças, que, por sua vez, produzem para a Ford e a Chrysler, e apressaria a falência delas. A quebra das três causaria o desemprego de 3 milhões de trabalhadores nos EUA e perda de US$ 156,4 bilhões em impostos nos próximos três anos. O quadro poderia se tornar pior com as falências dos fornecedores de autopeças, aço, plástico e vidro. Tal efeito dominó poderia se repetir nos locais onde as montadoras têm linha de produção.
Mas é pouco provável que a companhia venha a quebrar, avalia Fernando Sarti, do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da Unicamp. É possível que algumas plantas possam fechar e investimentos sejam suspensos. Mas Sarti vê no tom dramático do presidente da GM algum senso de oportunidade.
- As montadoras têm
importância estratégica em qualquer economia, sempre são disputadas
quase aos tapas pelos governantes. Agora que bilhões são injetados no sistema bancário, também querem receber ajuda, até para resolver problemas estruturais anteriores à crise - diz Sarti.
| UMA VISÃO DE UM GIGANTE |
| A GM no mundo |
| > Tem indústrias em 35 países e negocia em 142 países, com 13 marcas. |
| > No ano passado, vendeu em todo o mundo 9,37 milhões de veículos e teve faturamento de US$ 25 bilhões. De janeiro a setembro, vendeu 6,65 milhões. |
| > Emprega 266 mil pessoas. |
| > Era a 9ª maior empresa do mundo, segundo a lista das 500 maiores da revista Fortune, divulgada em julho, antes do agravamento da crise econômica. |
| A GM no Brasil |
| > Chegou há 82 anos e tem seis fábricas. |
| > Vendeu 498.654 veículos no ano passado e faturou US$ 8,5 bilhões. |
| > Emprega 21 mil funcionários. |
| AS UNIDADES NO PAÍS \> Complexo em São Caetano do Sul (SP): inaugurado em 1930, produz as linhas Astra, Vectra e Corsa Classic |
| > Complexo em São José dos Campos: inaugurado em 1959, produz Corsa, Meriva, S10, Montana, Blazer e Zafira |
| \> Complexo em Gravataí (RS): inaugurado em 2000, produz Celta e Prisma |
| > Complexo em Mogi das Cruzes (SP): inaugurado em 1999, produz componentes estampados em aço |
| > Campo de provas em Indaiatuba (SP): inaugurado em 1974 |
| > Centro distribuidor de peças em Sorocaba (SP): inaugurado em 1996, recebe, embala, separa e despacha peças produzidas pelos fornecedores da montadora |
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