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6 de setembro de 2008 | N° 8185AlertaVoltar para a edição de hoje

Objeto-Experiência, n° 5

Não há nenhuma importância nesta página, e se há alguma é apenas dar a ver aquilo que não parece importante. Porque qualquer gesto para a poesia se desfaz por dentro da história, porque qualquer ética para a poesia é conversa fiada. O que vale, de fato e de pronto, é o quanto se expõe da qualidade de um mundo que solicita por ela. Assim, se poetas sem importância são poetas sem qualidade, logo, podem ser esses os poetas deste tempo. Manuel de Freitas, poeta português, diz claro: "A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades. Curiosamente, estes últimos parecem ser não apenas uma espécie rara, como pouco apreciada." E lembra Walter Benjamin para nos dizer da distração fundamental que caracteriza o apetite das massas, que tem a ver com valor de exposição e reconhecimento. E ainda diz também, depois, o que tomo emprestado para mim, aqui: "não é minha intenção pronunciar-me sobre poetas com qualidades, até porque prefiro os outros." Estes outros, para mim, são os que podem abrir alguma ferida no tempo.

Assim, me volto para o ano de 1981, na pequena cidade de Santa Fé do Sul, interior de São Paulo, quando nasce e onde mora o Renato Mazzini. Foi Konstantinos Kaváfis quem disse que "As cidades pequenas são um encargo pesado e difícil - que falta de liberdade!", mas disse, também, que apesar disso tudo se radicaria ali, em Alexandria, porque aquele lugar era, como existência e de alguma maneira, uma forma para colocar-se na vida; lugar de memória, casa, amor. Lembro de William Carlos Williams e de Horácio Dídimo, algo do gosto em permanecer, ir e voltar, ficar por ali, etc. Renato é mais um bacharel qualquer do curso de Direito, que trabalha por fora, como ele mesmo diz, em atividade industrial-comercial, e que ainda cumpre a vaga do espaço para o dinheiro como professor de língua inglesa, um segundo expediente. E como conversa e ranhura cuida do blog As Escolhas Afectivas (citado aqui na Objeto-Experiência, nº 4). Está com um livro de poemas pronto, inédito, para nada e para tudo, como me parece é cada livro de poe-mas, com o interessante e forte título de Paisagem com Dentes, livro que tem poemas pronunciados de escavação e experiência vazada com a poesia.

Renato me conta que a poesia lhe veio primeiro na rede de túneis aberta como possibilidade através da poesia de Mario Quintana, Drummond e Murilo Mendes. E que isto passa a lhe interessar como um "escape e como iniciativa", uma espécie de escritura e de leitura de certas coisas que movem outras e outros estados, um sacrifício do tempo, uma espécie de "desconforto necessário que desemboca em alívio, em gosto". Daí, me diz textualmente que a poesia é a "passagem estreita para um lugar bastante significativo cuja tendência é escapar-nos", "um organismo, algo com células revoltas, que respira, que ocupa espaço, comotivo, revoltante, de peso esmagador e, em tantos momentos, de beleza quase táctil". Diz do quanto o poema lhe vem como fenda, como papel "inespecífico" que bem pode ser "papel nenhum". Penso que isto que diz o Renato está vinculado ao poema provável, ao poema como aquilo que vem, existe, mas que logo agora e em breve já pode morrer.

A sua outra fila do gosto agora, mais recente, está com Charles Bernstein, com Jeffrey McDaniel e com Bob Hicok. E com Greta Stoddart, que ele chama de "uma poeta extraordinária". E sim, claro, Andi Nachón. Por aqui, algo da poesia de Armando Freitas Filho, dos moveres de Moacir Amâncio, de Marília Garcia ("poemas que sempre me parecem lugares muito novos"), e poetas com quem conversa, como Carlos Augusto Lima e Aníbal Cristobo, entre alguns outros. O resto é o quanto a poesia de Renato Mazzini padece desta qualidade insuspeita para continuar sua precisão: "é preciso continuar a meter o coração / pelos atalhos", como registram os versinhos de Rui Pires Cabral, outro português, outro sem qualidades. Ao lado, três poemas de Renato Mazzini para dar a ver algo desta Paisagem com Dentes.

* Poeta, professor de literatura portuguesa na UFSC, autor de 55 começos (Editora da casa), entre outros livros

MANOEL RICARDO DE LIMA *
Poema
Código
onde. impossível determinar campo.
há, ocorrência do óbvio,
janelas - o vidro com frisos que replicam
aqueles olhos antigos,
seus. decifrar os sons do lugar
resulta em alguma estática
mas quase subterrâneo
o rastejar de um nome.
aqui esbarra numa questão elementar:
lugar é miragem, esta
imersão no imaginário - se alguém está
ali fumando um cigarro
corpo virado de frente na verdade
não está. o possível a ser
explicado é a grossa nuvem de aves
noturnas que divisa um
céu sem claro nenhum
parte
nosso coração compartilhado
é uma pergunta capciosa.
segundo esta abelha e seu pouso espinhal
dentro da concha das
mãos, partindo de um rasante
de imagem, ar em resíduo
(rápidos slides substituindo-se) -
quando e como os batimentos também
quebram seu ritmo;
(o mundo vai se apequenando)
e se moramos nestes insetos
amarelos e negros e dentro,
entre cada intervalo de chegada e ida
de outras abelhas
habitando uma lâmpada fluorescente
luz de
varanda esses ferrões - ou um músculo morando
a mesma caixa de carne no peito
abalo
sísmico.
deste
a mesma mesa
de ínsitos contornos mortos
casa de livros e pratos
um talher torto, porta -
guardanapos,
rangendo o piso se
o peso dos cotovelos;
toalha alguma,
nenhuma necessidade de
arrumação
que lhe prenda os movimentos
- do que reste só
profundeza de
copo dágua bebido à noite
vago agora sem
extrato
suor nos vidros
deixado vazio

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