Talvez seja interessante refletir sobre as ações do ERRO Grupo (por falta de melhor nome, coletivo de arte contemporânea que atua em Florianópolis ou em qualquer lugar) a partir de seu próprio nome, dentro de sua assinatura mesmo - uma espécie de inflexão que o grupo pretende abrir nos espaços onde se instaura, ocupa, desorganiza, invade: ERRO, o nome. E deveríamos, talvez, usar palavras mais ou menos diretas, de um modo propositivo - ou ambíguas, no mínimo - pois penso que é desta maneira que o grupo costuma se comportar quando realiza suas ações: invadir, ocupar, intervir. Trata-se de uma dicção forte, porém quase anônima. O nome: ERRO. Repito: ERRO.
Acompanhei as últimas aparições do grupo em Florianópolis - pude assistir a pelo menos três projetos: Desvio, Enfim um líder e Bloomsburied, sendo os dois primeiros de caráter estritamente urbano e o último realizado especialmente para o Bloomsday, na galeria do Centro Cultural Arquipélago - e tenho a seguinte impressão: o ERRO atua onde o
consenso
está estabelecido, opera a partir de discursos comuns na tentativa de torná-los fragilizados. O procedimento do grupo consiste, de modo geral, quase sempre com ironia - e podemos lembrar que a ironia se diferencia do simples humor justamente porque é destrutiva - , em abrir um campo de incerteza naquilo que até então era considerado estável. A ironia do grupo, porém, não é a ironia do vencedor, a ironia que vence (ou então o grupo estaria facilmente no interior de uma dicotomia ingênua), e sim a ironia que anula, apaga. Em uma palavra: abrir uma trajetória de ERRO.
Não é por acaso que o cenário mais recorrente para as intervenções do grupo seja a rua - lugar privilegiado do senso comum, da proliferação normativa. Voltarei a esta questão. De início, é necessário dizer apenas o seguinte: em qualquer espaço onde o grupo atua é sempre levado em consideração seus restos simbólicos, sua história, sua constituição imaginária. Neste ponto, portanto, é possível pensar que o grupo se aproxima de
uma das
características mais definitivas da arte contemporânea, desde Duchamp, pelo menos - desde a instalação - , ou seja: fazer do espaço (qualquer espaço) o ponto de partida para a construção de um gesto crítico, do difícil. Trata-se de um teatro-instalação, portanto. Por outro lado, a procura parece ser sempre a de - nesta superfície do mesmo, da repetição, da banalidade - abrir caminho para o imprevisto. Em um panorama, mais uma vez o nome - desvio, vazio, ERRO.
O grupo, no entanto, nada tem para nos dizer - e qualquer espera, neste sentido, será sempre inútil. Não haverá nenhuma pedagogia. O grupo sequer nos agride (ao menos no sentido comum dos clichês participativos que exigem a presença do espectador). A única violência é a completa indecisão (que se reflete, também, na direção dos atores, pois nunca sabemos se, de fato, estão atuando: não há drama e nem personagens), e geralmente acontece com a apropriação do discurso do outro. Seremos um pouco mais claros, mas ainda com uma pergunta:
de onde surge
a proliferação de enunciados que caracterizou Enfim um líder, por exemplo? - ou seja, quem anuncia: Enfim um líder? Quem diz que o líder chegará? Quero dizer, afinal: a violência consiste no excesso da apropriação (o enunciado foi dito e repetido durante meses não somente pelos atores que esperavam o líder, mas também por cartazes, carros de som, adesivos e todos os meios possíveis, ou seja: por vozes anônimas), então a violência está neste excesso e não no sentido transparente do discurso. Repito: o grupo nada tem para nos dizer. Repito: ERRO.
Além da instalação, é possível pensar que a apropriação é o outro procedimento que permite aproximar a proposta do grupo com a arte contemporânea. Em tempos em que discursos se dispersam para todos os lados, e que se perdem em sua própria efemeridade, a estratégia do ERRO passa a ser não a da negação, mas a da apropriação excessiva destes mesmos discursos a partir de seus próprios mecanismos, a saber: o efêmero. E será este excesso o responsável
por construir
pequenos deslocamentos na norma. Por exemplo, o imaginário do crime na intervenção Desvio, encenada em um caminho estabelecido no Centro da cidade, de noite, quando tudo está mais ou menos vazio - neste caso, há uma construção estética mais suja: os atores barbados, a fala gritada, etc. Ou o discurso messiânico incorporado pelos atores na intervenção Enfim um líder, também encenada no Centro da cidade, desta vez durante o dia inteiro - com o figurino precisamente escolhido como forma de alusão aos uniformes religiosos e à proliferação de enunciados espalhados pela cidade.
Por fim, quero me deter em alguns comentários sobre o modo de encenação de Enfim um líder, intervenção que está mais perto da memória - e certamente a mais conhecida do grupo. O mais interessante talvez: o grupo não se comporta como se estivesse encenando - ou, de algum modo, trata esta encenação de modo ambíguo, indecidível. Em outras palavras: encenam como se estivessem, de fato, esperando um líder. Afinal, se
comportam como
grande parte das pessoas que passam por ali. Ou ainda: são atores desprovidos de personagens, sem uma linearidade dramática, enfim, sem profundidade. É como se fossem invisíveis, portanto. Mais uma vez é possível pensar sobre o motivo que leva o grupo para a rua, já que o teatro logo acusaria que se trata de uma encenação. Há, ainda, uma dimensão anônima nas aparições do grupo, feito este enunciado que nos chega fora de contexto: Enfim um líder - quem fala aqui?
Diante das perguntas de curiosos que passavam pela rua, e paravam alguns momentos diante das performances que o grupo realizava durante o dia (por vezes limpando o calçadão com vassouras e baldes para a chegada do líder, estendendo um tapete vermelho ou coisas do gênero), querendo saber se aquilo era uma manifestação religiosa ou política (geralmente as opções eram estas: religião ou política - curiosamente poucos perguntavam se era teatro), os atores respondiam geralmente de maneira neutra, porém atenciosa: estamos esperando o
líder. Nenhuma
indicação sobre o líder, nenhum valor, sequer uma informação sobre suas condições: apenas a espera. Em um nome: apenas o ERRO, o vazio. Nada confortável para quem desconhece que se trata de uma intervenção artística - pois sabemos que o líder não aparece, afinal - e menos ainda para quem sabe que está diante de uma encenação, pois o jogo do falso levado ao extremo (e, no limite, nosso próprio riso na tentativa de burlar um jogo que, afinal de contas, continua tão real) não deixa de ser também uma forma de perturbação.
O mais importante da intervenção Enfim um líder certamente não está em seu desfecho - trágico, poderíamos pensar - , mas no modo como é negociado durante os dias que acontece. Sugiro pensar que a ênfase está no procedimento mesmo, na medialidade da negociação e, portanto, na dissolução do limite entre arte e vida. No fim, frustradas as expectativas - e quem acompanhou alguma das edições sabe que a expectativa, de fato, é criada e reiterada - , resta o vazio de um líder
desconhecido ou
inexistente. Somos jogados, então, na repetição infinita do fracasso de um líder e na repetição anônima desta palavra que, somente ela, permanece depois do fim: ERRO. Repito: ERRO.
* Mestrando em Literatura pela UFSC. Autor de piano e flauta - fragmentos de um romance (Lumme Editor, SP, 2007). Mantém o blog: www.victordarosa.blogspot.com
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