Talvez a metáfora mais apropriada para uma leitura possível da obra de Silveira de Souza (daqui em diante somente S.S.) esteja no centro do próprio conto que intitula um de seus últimos livros: Janela de Varrer (2006). Neste conto, entre ficção e memória autobiográfica, crônica de costumes e reflexão, em um cenário tão conhecido quanto esquecido do Centro de Florianópolis, aparece D. Carlota - uma personagem que, debruçada na janela de sua casa, fica o dia inteiro "a espiar a rua (...) pobre de novidades e movimentos". A ênfase do conto, e este é o motivo que mais "espanta" o narrador, se refere ao modo como D. Carlota olha os acontecimentos - varrendo tudo que aparece de disperso e desnecessário, apreendendo das cenas apenas o há nela de mais preciso e íntimo, singular.
Antes, vale dizer: trata-se de uma reflexão sobre o olhar, sobre a imagem e a própria narrativa. O cineasta Wim Wenders, em sua conhecida participação no documentário Janela da Alma, ao traçar uma metáfora para seu
próprio cinema,
seu procedimento fotográfico, lembra justamente o enquadramento dos seus óculos, recorte do mundo, que seleciona e salva a imagem (no limite, toda a questão se refere a isso) de um excesso de realidade, portanto. Como se sabe, este é um problema central do cinema de Wenders. A discussão, afinal, é sobre a possibilidade quase mágica de olhar para o invisível, descobrir o que se esconde por trás do supérfluo, da sobra morta e dispensável das coisas - e tornar possível a aparição de sombras, e dos fantasmas, portanto.
Recorto, então, um fragmento do conto de S. S. que considero indispensável para o entendimento desta questão inicial. Diz o narrador sobre D. Carlota: "O que me surpreendia não era o fato de ela permanecer tanto tempo à janela a olhar aquela rua pobre de novidades e movimentos. O que me surpreendia era que ao passar pela calçada diante dela, nascia em mim a estranha impressão de que D. Carlota não estava vendo nada. Os seus olhos verdes pareciam perpassar pelas coisas sem ver,
embora ela
não fosse cega." E ainda: "Era como se desgostassem, ou varressem, as imagens do mundinho pequeno à frente deles, para visualizarem algo mais íntimo, mais essencial, que só ela, D. Carlota, conseguiria admirar".
Quando o narrador se refere a D. Carlota, está narrando diante de um espelho. S. S. parece dizer, para além da personagem, de sua própria literatura. Este desejo de apreender ou tocar em um ponto preciso - seja o que move ou mesmo aquilo que desespera: em suma, os fantasmas mais uma vez - parece ser recorrente na literatura de S. S. E esta apreensão acontece de maneira rápida, portanto aberta - incompleta, ainda, eu diria.
Assim, é possível pensar na opção de S. S. pelas narrativas mais curtas. E mais, pode-se também entender os motivos que o fazem constantemente republicar seus textos com pequenas alterações. O que está em jogo é uma procura infinita pela limpeza, o cálculo medido. Não por acaso, a matemática (sobretudo a metáfora da geometria) aparece enquanto
referência constante
nos contos do autor - Contas de vidro pode servir como exemplo, já que tematiza, de uma só vez, os números e as formas. Talvez este seja um ponto de aproximação também com a escrita de F. Kafka - que vai interessar também a Orson Welles, um cineasta tão delirante quanto matemático - escritor que S. S. traduz para o português. Curiosamente: os escritos menores.
Alguns títulos de S. S. são marcas possíveis de concentração e apontam sempre para uma linha narrativa do relato, como se fossem funcionais e estivessem, ironicamente, a orientar o leitor - neste sentido, os títulos Um nome: Marina, Ruídos na casa, O vestido, O homenzinho que corria, podem servir como exemplos. No entanto, estes títulos costumam sofrer pequenos abalos de sentido durante a leitura do conto. Em outras palavras, se o leitor constrói uma imagem do que venha a ser aquilo que aponta o título, esta imagem logo em seguida pode ser desfeita. Trata-se de uma armadilha de linguagem, portanto. Há uma extrema sofisticação na
maneira como
estes abalos acontecem. Diferente de qualquer imagem que possa ser feita sobre "o vestido", este objeto aparentemente inofensivo será causador de medo e até mesmo certa aura de horror. Qualquer lembrança de Kafka não será mera coincidência.
A estrutura narrativa que S. S. constrói, por sua vez, conciliando referências tangíveis e abstratas com muita referência no real (datas, espaços facilmente reconhecíveis e signos da cultura cristalizados, como um violão Gianini e uma bicicleta Caloi) e ao mesmo tempo com forte traço imaginativo (por vezes ressurgem os mortos) costuma ter um foco bastante específico. Com poucos personagens, muitas vezes nomeados, e com cenários e espaços geralmente bastante definidos, é comum que apenas um conflito mova a narrativa. Por vezes o motivo é melancólico, por outras é puramente irônico - e neste ponto é possível pensar que o fantasma de Brás Cubas também esteja presente. Muitas vezes, o conto se resume a uma única cena, um diálogo. Para usar uma metáfora que
Sérgio
Medeiros lança ao se referir à obra do autor, a literatura de S. S. opera com uma escrita nua.
A aparente simplicidade das narrativas de S. S. - que pode ser lida, como muitos ainda o fazem, somente como elogio do prosaísmo - são pequenos disfarces de uma extrema sutileza. Afinal, os desvios são sempre mínimos. Recordo o conto que abre o livro, intitulado Para a rodoviária, em que um casal se separa "após quase um mês de paixão desregrada, bêbada e patética". De madrugada, após sair de um dormitório, ambos os personagens, "meio apressados, meio ressentidos", caminham pelas ruas em direção à rodoviá-ria. Em certa altura do conto, após reclamar do peso da mala e dizer de sua irritação em ter que levá-la, o narrador comenta de si: "No meu caso, depois de repetidas discussões inconciliáveis, carregar a mala de Marusa parecia a humilhação última que ela me infligia". Neste caso, a auto-referência desta "pequena humilhação" é o que emerge e nos retira da aparente eventualidade da narrativa: o
traço
invisível da cena.
O tema da falta, aliás, é constante na literatura de S.S. Muitas vezes, seus personagens se deparam com o abandono do outro, o desencontro ou mesmo com a perda irredutível da morte. Talvez por isso S. S. - na voz de um de seus personagens - tenha guardado o primeiro poema que leu de Elizabeth Bishop, já que aconselhava justamente: "perca algo a cada dia". Penso que, deste livro, Uma insólita amizade é o conto que toca com mais força nestas questões. Trata de uma amizade entre dois homens praticamente desconhecidos - se conheciam "há cinco ou seis semanas", "por acaso" - e que se perdem com a mesma facilidade com que se encontram. Entre generalidades e narrativas da vida pessoal, os dois novos amigos praticamente todos os dias se sentavam no banco da Praça XV para um diálogo qualquer - até que, certo dia, um deles não apareceu mais.
A literatura de S. S. não se explicita, é uma literatura sem histeria, que não se entrega ou não se prende ao visível. Ao
mesmo tempo, os
acontecimentos vão se costurando com uma estranha naturalidade. Por outro lado, ainda, trata-se de uma literatura que incorpora o silêncio que permanece ao redor. A concisão abre lugar para o incerto. Em Depoimento, por exemplo, a narrativa começa da seguinte maneira: "Sim, eu a conheci", trazendo, desta maneira, todo um contexto sem descrevê-lo ou tampouco explicá-lo. Em Bororós na praça, por sua vez, ao iniciar o conto descrevendo um personagem que "bebera algumas doses de conhaque", o narrador afirma: "agora queria esquecer essas muitas coisas que a gente precisa esquecer".
Ao mesmo tempo em que é omitido ao leitor o real objeto deste esquecimento, é também dada a este mesmo leitor a possibilidade de imaginação. Sem nomeá-los, a literatura de S. S. nos posiciona diante de fantasmas.
* Mestrando em Literatura pela UFSC. Autor das narrativas de piano e flauta - fragmentos de um romance (Lumme, 2007). Mantém o blog: www.victordarosa.blogspot.com
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