Nas últimas décadas - por sorte - o mundo não viu apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados ao terror e à fé. Vem testemunhando também a reação de livres-pensadores, filósofos e intelectuais ateus de todos os matizes. Cientes de que o radicalismo nas religiões pode ser maléfico, e da possibilidade de ser honesto, menos salafrário e, até mesmo, espiritualista sem Deus, os intelectuais produzem trabalhos importantes sobre a temática.
Para eles, por debaixo da aparente democracia do velho axioma "religião e política não se discutem", havia - e há - um sutil artifício de censura e de interdição de esclarecimento pessoal que pode muito bem ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os países latinos em geral - e o Brasil em particular - se encontram atualmente, tanto no universo da política como no da religiosidade. A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a esta ou àquela
religião ou a
nenhuma, têm sido o motivo principal daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que vieram pelos séculos afora regando a terra de imposturas e de sangue.
Entre os livros lançados recentemente no Brasil sobre o assunto, destacam-se Deus, Um Delírio, do biólogo norte-americano Richard Dawkins, Carta a Uma Nação Cristã, do filósofo formado em Stanford, o norte-americano Sam Harris, e O Espírito do Ateísmo, do pensador francês André Comte-Sponville.
Três ensaios mais do que oportunos que, sem nenhuma sisudez ou fobia, mostram-se conectados. Principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são igualmente insalubres - tanto para a civilização como para as sociedades. Além dos esclarecimentos concernentes à crença no suposto design inteligente, o que é precioso nesses livros é tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as
neuroses inerentes às
crenças no sobrenatural que, inclusive em países influentes como os Estados Unidos, causam mais estragos naqueles atascados na pobreza e no subdesenvolvimento.
Para Harris, o fato de quase a metade da população norte-americana ainda acreditar na vinda de Cristo, na idéia de que o mundo está prestes a acabar - e mais - , que o fim será glorioso deve ser considerada uma emergência moral e intelectual. Além do resgate das idéias clássicas anticlericais e ateístas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama a atenção para outro fato: tanto a pregação da intolerância religiosa contra os "infiéis" e contra os "ateus" como a interpretação ao pé da letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade individual e de interditar os avanços das ciências, podem colocar em risco até mesmo a sobrevivência da humanidade.
Charles Darwin ainda é proibido em partes dos EUA
Nesse particular (sem falar do dogmatismo religioso a
respeito de questões como o aborto, a transfusão de
sangue, o uso de preservativos, as células tronco etc.), é importante lembrar que, em muitas das escolas primárias dos EUA onde a Bíblia é usada como livro didático, continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin, assim como fazer menção às suas teorias evolucionistas. Daí o alerta de Harris:
- Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores - e muitos dos que são eleitos - acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível. E o mais bizarro de tudo isso é que esse Deus absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé... Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade.
Insiste em
habitar o invisível, fato
que, para o filósofo Comte-Sponville, é espantoso. Um Deus que se esconde com tanta obstinação!
- Seria simples e eficaz, Deus consentir em se mostrar, pois, se quisesse que eu acreditasse nele, resolveria num instantinho esse assunto. Um Deus oculto!
Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento. Sim, a religião permite - segundo também Harris - que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não são - isto é, quando elas não têm nada a ver com o sofrimento ou com o alívio do sofrimento. A religião permite que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente imorais - isto é, quando insistir nessas preocupações inflige sofrimento atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.
Sociedades com menos religião são mais saudáveis
Mas ser ateu não
é necessariamente uma opção glamorosa e nem tão fácil como se pode
pensar. Pesquisas nos EUA, Brasil e em outros países já demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à presidência da república é mínima e que os eleitores elegeriam com mais tranqüilidade um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual. "Se você tem razão ao acreditar que a fé religiosa oferece a única base real para a moralidade", escreve Harris, então os ateus deveriam ser menos morais do que as pessoas de fé. "Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente imorais. Será que são mesmo? Será que os membros das organizações de ateus nos EUA cometem crimes violentos em proporção maior que a média? Será que os membros da Academia Nacional de Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente?"
- Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e de mim mesmo para imaginar que um deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo - declara Comte-Sponville para explicar seu ateísmo.
E é esse mesmo
filósofo materialista e
racionalista que acredita que prescindir de religião não o obriga a prescindir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandonar seu espírito aos padres, mulás ou espiritualistas. Tanto a intervenção de Harris como a de Sponville bem que poderiam fazer o universo religioso mais tolerante para com os ateus. Está provado, por um lado, que o ateísmo é compatível com as aspirações básicas de qualquer sociedade civil e por outro, que a crença em Deus não é garantia para a saúde física e nem para a saúde mental de ninguém.
Entre seus correspondentes, Harris lembra que os mais perturbados citam capítulos e versículos bíblicos. Em Carta a uma nação cristã, o filósofo norte-americano lembra ainda que, embora se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é importante perceber que o fato já é realidade em muitos países do mundo desenvolvido.
Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão
entre as sociedades menos
religiosas da Terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa de vida, alfabetização, renda per capita, educação, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os 50 países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são religiosos. Enfim, as leituras mencionadas são obrigatórias a qualquer um - ateu ou crente - que queira estar à altura de sua época.
| Frase |
| André Comte-Sponville, escritor |
| Se você topar com alguém que lhe diga eu sei que Deus não existe, não é um ateu, é um imbecil. E, igualmente, se você encontrar alguém que lhe diga eu sei que Deus existe, é um imbecil que confunde sua fé com um saber. |
Grupo RBSDúvidas Frequentes | Fale conosco | Anuncie - © 2000-2007 RBS Internet e Inovação - Todos os direitos reservados.