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A Gerência Regional de Educação da Região Carbonífera, no Sul de Santa Catarina, concluiu nesta semana o recolhimento de 6.236 exemplares da obra Aventuras Provisórias, do autor catarinense Cristovão Tezza. Em todo o Estado, foram recolhidos mais de 130 mil exemplares.
A determinação partiu da Secretaria de Estado da Educação há cerca de duas semanas. O motivo teria sido o uso de palavras inadequadas, segundo avaliação de professores que tiveram acesso ao título antes da distribuição aos alunos do ensino médio da rede estadual. O conteúdo descreve, por exemplo, trechos de relações sexuais (leia trecho abaixo).
Segundo nota divulgada nesta quinta-feira, pela secretaria, a "aquisição (dos livros) deu-se pelo processo licitatório nº 088/08 ao custo unitário de R$ 11,75".
Arcângelo Nuernberg, gerente regional de Educação na Região Carbonífera, avalia que o ideal seria que os professores fossem preparados para o debate
com os alunos do ensino médio — na faixa dos 15 aos 18
anos, na média. Entretanto, ele acredita que o livro não retorne para as escolas. Alguns exemplares ficaram à disposição nas bibliotecas, mas não serão trabalhados diretamente com os estudantes.
— O livro constava na lista de obras preparatórias para o vestibular ao lado de clássicos como Menino do Engenho, de José Lins do Rego, Melhores Poemas, de Luis Delfino, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Acredito que a obra de Tezza não será substituída por outra — disse Nuernberg.
Assistente diz que vocabulário é chulo
A assistente técnica pedagógica do Colégio Estadual Governador Heriberto Hülse, no Bairro Próspera, em Criciúma, Maria Gorete da Silveira, considera que o livro de Tezza tem uma boa história e um enredo interessante, que se passa na Ilha de Santa Catarina. Entretanto, classifica o vocabulário "chulo e em alguns parágrafos a relação sexual é abordada
de maneira banal".
— O vocabulário é exagerado e essas palavras queremos
extingui-las da boca dos alunos, banir do ambiente escolar. O aluno não está preparado para receber esse conteúdo — avalia Maria Gorete.
A coordenadora regional do Sindicato dos Trabalhadores em Educação em Santa Catarina (Sinte), Janete Medeiros, não acredita que o conteúdo do livro enriqueça o vocabulário dos estudantes. E que apesar de ser uma obra de um autor conhecido, premiado e o livro indicado para o vestibular, usa palavreados "baixos".
— Se querem moralizar o ensino, é preciso cuidar. O sindicato considerou irresponsável a distribuição desse livro. Houve irresponsabilidade das equipes preparadas para checar a lista. Se leram, e mandaram, é pior ainda — finaliza Janete.
Diretor avalia que obra é credenciada
O diretor de Educação Básica da Secretaria de Estado da Educação, Antônio Pazeto, afirmou que, quando se trata de livros de literatura brasileira, reconhecidos e credenciados em
instituições como a Academia Brasileira de Letras e Associação
Catarinense de Literatura, eles já têm seu valor literário comprovado.
Na manhã desta quinta-feira, Pazeto disse que o livro não foi lido antes da distribuição. E frisou:
— Este livro do Tezza não foi lido antes, reconhecemos. Como o autor é moderno, novo, poderíamos ter lido, mas não lemos. Como em uma gerência um professor observou termos e abordagens que não eram pertinentes ao ambiente escolar, pedimos que quatro professores lessem e nos fizessem uma avaliação.
À tarde, ao ser novamente consultado pela reportagem, se contradisse:
— Eu não li o livro. Mas a comissão de avaliação do livro leu e considerou adequado do ponto de vista literário.
Entretanto, no que diz respeito a questões éticas e morais, a Secretaria de Educação optou por não criar um choque ou ferir os princípios éticos, morais e religiosos das famílias.
— Esta foi uma lição para nós. Não temos nada contra o autor e não
vamos solicitar que a obra tenha seu conteúdo alterado. Afinal, o processo
criativo e a produção literária têm que ser preservados e respeitados — acrescentou Pazeto.
Até o início da próxima semana haverá uma reunião da diretoria de ensino com o secretário de Estado da Educação, Paulo Bauer, para definir qual será a destinação dos livros recolhidos.
Obras serão redistribuídas
Em nota oficial, a A Secretaria da Educação de Santa Catarina informou que "por prudência" decidiu recolher todos os exemplares depois que foi constata a existência de expressões consideradas incompatíveis com a idade de alunos das séries iniciais do Ensino Médio.
A secretaria esclareceu ainda que está providenciando a redistribuição dos exemplares de Aventuras Provisórias a bibliotecas e salas de aulas para uso de alunos adultos. Professores e servidores também serão orientados para o uso pedagogicamente esclarecido da obra.
Escritor
afirma não ter controle sobre uso da obra
Cristovão Tezza afirmou, na
tarde desta quinta-feira, que não há nada a dizer a respeito do assunto. Para ele, cabe ao professor adotar ou não seus livros, de acordo com seu método e seus critérios de adequação à faixa etária dos alunos.
— Várias vezes romances meus foram adotados em escolas e vestibulares. Obviamente, não tenho e nunca tive controle sobre isso — argumentou via e-mail.
Cristovão Tezza afirmou, ainda, que como autor envolvido, sente-se eticamente impedido de dar palpite sobre o recolhimento dos livros. E finaliza:
— Trata-se de uma questão didático-pedagógica, que deve ser tratada com frieza e bom-senso. De qualquer modo, faço votos de que o problema encontre uma boa solução.
O livro
O romance Aventuras Provisórias foi lançado originalmente na década de 1980 e recebeu o Prêmio Petrobras de Literatura Brasileira em 1987, como o segundo lugar na categoria
novela. A obra narra o reencontro inesperado entre dois amigos de infância.
Um
deles, saído dos porões da tortura do regime militar, induz o outro a percorrer um difícil e tortuoso caminho em busca da auto-realização.
Um dos "trechos polêmicos"
— A tua grande fraqueza — me disse Mara na cama, a primeira vez, quando eu broxei vergonhosamente mesmo depois de baixar a calcinha dela com os dentes e chupá-la como um pêssego maduro, na boca um gostinho de sal molhado — é que teu orgulho te castra. Disfarçadamente, você exige que todos te dêem atenção, te bajulem, te achem o máximo. Se alguém recusa o jogo, mesmo sem maldade, como eu (e olhe, eu gosto muito de você, você é sensível), você entra em pane e fecha a Couraça.
Assista à reportagem exibida pela RBS TVDIARIO.COM.BR E DIÁRIO CATARINENSE
Uau, há pessoas que se superam nos comentários cheios de puritanismo ridículo... Livros abrem mentes, mas há mentes por aí que querem fechar os livros (assim o brasil vai pra frente!!) e professores mal formados que nem ao menos sabem o que é literatura, só preconceito. Tudo isso é ridículo demais pra aguentar.
Realmente! Tem que banir esta obra do ensino médio de SC... O atual ensino público catarinense de uma maneira geral é extremamente prejudicial a qualquer obra. Talvez no ano que vem seja banido o Machado de Assis por uso demasiado de palavreado "difícil", pois os nossos pupilos podem enriquecer demais o seu vocabulário e vão acabar descobrindo como é que se vota...

Escritor catarinense Cristovão Tezza faz votos para que a questão seja resolvida do melhor modo
Foto:Divulgação
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