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| As armadilhas
da semântica (27/02/2000) |
George Orwell, o escritor inglês que nos
deu algumas das obras que melhor iluminaram o ambiente dos difíceis
anos que duraram da Depressão à queda do Muro de Berlim,
entre elas as duas terríveis sátiras 1984 e Animal Farm,
foi antes de mais nada um homem de excepcional integridade. Firme
nas suas convicções de esquerda, foi voluntário
contra os franquistas, na Guerra Civil espanhola. Ferido em combate
(numa campanha admiravelmente contada em Homenagem à Catalunha),
enfrentou com coragem os comunistas, quando estes, na tentativa de
assumirem o controle do movimento, traíram seus outros camaradas
de esquerda. Foi depois objeto de um patrulhamento feroz que tentou
transformá-lo numa "não-pessoa". Morreu em
1950 aos 47 anos.
Águas políticas passadas, talvez. A União Soviética,
a ex-formidável pátria do socialismo, não existe
mais, esfarelada em repúblicas conflituosas. Para felicidade
do gênero humano, não se realizaram as sombrias previsões
orwellianas de 1984 - uma sociedade hipertotalitária, metida
em guerras intermináveis, impondo ao povo um brutal controle
do pensamento e da expressão -, o "novopensar" (newthink)
e a "duplafala" (doublespeak). A televisão não
se tornou um instrumento de massificação ideológica
em favor do Big Brother, sendo ao contrário um instrumento
de denúncia, que dificulta o ocultamento de selvagerias ditatoriais.
As previsões de Orwell não se realizaram ao pé
da letra. Mas os verdadeiros escritores têm o dom de entrever
formas da realidade que escapam facilmente aos olhos da multidão.
Porque alguma coisa do "novopensar" e do "duplofalar"
se encontra em nosso quotidiano. Raramente as mensagens que a humanidade
troca entre si são meramente descritivas. Em geral, atingem-nos
mais pelas associações de idéias e sentidos.
Não haveria poesia, nem literatura, nem mesmo prece, sem adjetivos,
metáforas e toda a ilimitada teia de ligações
que vão se estabelecendo entre as palavras, ao longo do tempo.
Mas o que faz prece ou poesia pode fazer também intriga e malefício.
Questão de intenção e de dose.
Parece que mesmo línguas robustas, como o inglês, vêm
perdendo a velha simplicidade por conta da "duplafala".
Nos Estados Unidos, parece praga. Não há muito, uma
companhia que estava mandando embora 500 empregados esclareceu: "Não
caracterizamos isto como dispensa de pessoal; estamos gerenciando
nossos recursos administrativos". Há consultores que trabalham
especialmente no ramo de mandar gente embora, e apresentam seus serviços
como "consultoria para terminação e colocação
externa", ou "engenharia de reemprego". No Canadá,
um acidente de helicóptero foi higienizado como "desvio
de um vôo normal". E os advogados do famoso jogador de
futebol americano, O. J. Simpson, o tal que teria matado a mulher
(em quem dava surras) e o amante dela, pintaram essa relação
como mera "discórdia marital". E consta que na Universidade
da Califórnia, em Berkeley, a turma de educação
física passou a chamar-se de "departamento de biodinâmica
humana".
Exemplos inesgotáveis, alguns engraçados, outros ridículos.
Mas embaçam a percepção da realidade, embora
hoje não tão sinistros como no auge dos totalitarismos.
Uma ilustração recente tem pegado por aí muita
gente distraída. Temos ouvido muito a expressão "excluídos",
para designar grupos de pessoas de baixa renda, ou supostamente marginalizadas.
Há palavras apropriadas para as situações concretas:
"pobre", "analfabeto", "doente", "desempregado",
"drogado", por exemplo, designam situações
em que determinadas pessoas objetivamente se encontram num dado momento.
No resto da sociedade, espíritos decentes certamente sentirão
um dever de solidariedade, e sem dúvida pensarão no
que possa ser feito para mudar esse estado de coisas.
A exclusão, no entanto, supre uma ação deliberada
contra o excluído, no caso, essa gente pobre, desempregada
etc. Portanto, subentende que alguém impeça à
força que ela tenha acesso a bens que todos desejam. O "excludente"
passa a ser indiciado como "culpado" por essa situação
penosa.
Essa generalização é safada, porque sub-repticiamente
legitima todas as demandas de supostos "excluídos",
às custas dos demais. Houve políticas deliberadas (e
criminosas) de exclusão, como a nazista, contra os não-arianos,
e a comunista, contra os não-proletários.
Mas há formas de "exclusão" legítimas,
e até indispensáveis à existência do indivíduo
e da espécie. Os países costumam fechar suas fronteiras
para não serem atropelados por massas de imigrantes deslocados
de outras paragens. O abuso da palavra "excluído"
é particularmente freqüente nas conferências internacionais.
Muitos países se queixam de "excluídos" pela
globalização, pela revolução tecnológica
ou pelo liberal-capitalismo. Ao mesmo tempo praticam um nacionalismo
excludente, que hostiliza capitais estrangeiros, supridores de poupança
e tecnologia. Ou se impõem auto-mutilação tecnológica
como o Brasil, com sua política de nacionalismo informático.
Para não falar de países recipientes de ajuda externa,
que gastam dinheiro em armamentos ou guerras tribais.
Essa confusão semântica atrapalha a compreensão
do desenvolvimento econômico. Antes do processo de acumulação
que é a civilização, os bandos dos nossos primitivos
tataravós viviam em "equilíbrio" com a natureza
- quer dizer, em média, pouco mais de 10 anos, chegando a em
torno de 20 ao tempo de Roma, e só alcançando 40 nas
sociedades industrializadas, no final do século passado. Fome,
frio, doença, eram a regra geral. E permanente guerra de pilhagem
entre tribos e clãs. A escassez universal era a regra que gerava
a violência.
A aquisição da racionalidade tem sido um longo esforço
humano de "inclusão" ao longo de milênios.
A globalização é um fenômeno de "inclusão"
e não o contrário. Pelo menos usar as palavras sem deformar
a mensagem está nas nossas mãos. E é parte da
solução. |
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| A globalização
e nós (20/02/2000) |
Um pensador de ótica social-democrática,
Anthony Giddens, observou, recentemente, que poucos termos são
freqüentemente usados, e tão pobremente conceitualizados,
quanto "globalização". Para alguns, representa
uma internacionalização sem precedentes da vida econômica
e política; seria o colapso das fronteiras, anunciando câmbios
fundamentais na sociedade e na cultura. É tipicamente a turma
do "fim": o fim da História, o fim do trabalho, o
fim da família.
Para a comunidade internacional dos negócios, é a perspectiva
do crescimento incontido do mercado. Para os "hiperglobalizantes",
prenuncia a vitória dos mercados sobre o estados, e assim,
uma reconfiguração do mapa político do mundo,
com base em cidades-Estado e regiões econômicas, em vez
de Estados nacionais. Já os "céticos da globalização",
como P. Hirst, dão-se à pachorra de mostrar que a economia
mundial esteve mais integrada no começo do que no fim do século
20.
Mas que há algo fundamentalmente novo, isso há... P.
Sutherland, hoje diretor-gerente da Goldman Sachs Internacional, no
auge da crise financeira mundial, em 1998, depois da genuflexão
ideológica de praxe às virtudes da globalização,
reconhece que ela fez a vida difícil para muitos. Ameaça
deixar parte do mundo para trás e assusta tanto os ricos (que
temem perder seus padrões de vida) quanto os pobres (que se
sentem cada vez mais distantes do Primeiro Mundo). Alguns desses efeitos
provêm de outras causas facilmente identificáveis (câmbios
tecnológicos, deficiências educacionais, mercados de
trabalho inflexíveis, impostos altos, e uma força de
trabalho em envelhecimento).
Mas a galera acha que as causas da angústia são o comércio
e os investimentos globais. E que fazer de problemas que surgem de
um sem-número de causas que são impossíveis compreender
totalmente, e que tendem a ficar cada vez mais complicados, como a
degradação ambiental, as doenças, o crime, o
terrorismo, as pressões migratórias incontroláveis?
O economista americano R. Kuttner, que se intitula um "liberal"
(o que nos Estados Unidos indica tendências esquerdistas), afirma
que a grande conquista deste século foi domesticar a força
bruta do capitalismo laissez-faire. Através de políticas
macroeconômicas ativas e da regulamentação das
tendências autodestrutivas dos mercados, o capitalismo teria
colocado um piso em baixo da força de trabalho. Recorreu a
investimentos públicos diretos, para cura das recessões,
e adotou normas ambientais. Tudo isso gerou um capitalismo mais eficiente
e ao mesmo tempo mais socialmente aceitável, temperando os
extremos de volatilidade e desigualdade.
É claro que as esquerdas brasileiras neoburras não concordam.
Acham que essa história de neoliberalismo são idéias
da burguesia e dos seus intelectuais para "aniquilar uma seção
da nossa sociedade". Isso representa um pouco o lado obscuro
do espírito, que precisa de inimigos misteriosos e de forças
ocultas para juntar coisa com coisa. Quando o papa Inocente VIII,
no final do século 15, com a assistência técnica
de dois monges alemães, Kramer e Sprenger, inaugurou, através
da bula Summi Desiderantes, a fase "moderna" da Inquisição,
estava apenas expressando aquilo que no seu tempo era um pensamento
generalizado. Acreditava-se que forças demoníacas estavam
operando às escondidas. Houve uma febre repressiva que se estendeu
a leigos e protestantes, nobres e camponeses, doutos e ignorantes,
cavaleiros e juristas, que passaram todos a acreditar em coisas absurdas,
como a existência de relações sexuais com o belzebu.
Já tivemos demonologias de muitos tipos. Ainda peguei as purgas
de Stalin e vi de perto, há quase 50 anos, o fenômeno
do macarthismo, nos Estados Unidos. Baixando o nível de tragédia
para o Carnaval, tivemos aqui as "forças ocultas"
com Vargas e Jânio.
Voltando, porém, à globalização. O que
acabou com a crença num universo movido a feitiçaria
foi uma "inovação" que rendeu pouco a um empresário
de nome Johannes Gutenberg, mas, discretamente, começou a globalizar
a informação.
A impressora de Gutenberg não foi "a" causa. Inúmeras
variáveis entraram no processo: avanços tecnológicos,
do plantio do nabo à metalurgia das armas de fogo, ao aperfeiçoamento
da construção naval, à astronomia de Copérnico
e Kepler, à física experimental de Galileu, aos descobrimentos
geográficos. Só que neste último século
e meio a aceleração científica, tecnológica
e econômica tornou-se prodigiosa. Mudanças que se davam
ao longo de gerações ou de décadas foram encurtadas
para anos ou meses. E o complexo IC (informação e comunicações),
possibilitando a interação face a face entre gente de
todas as partes, encolheu o mundo a uma aldeia virtual.
Só para dar uma idéia: em 1942, o valor dos ativos intangíveis
das empresas americanas cotadas em bolsa (índice Dow Jones),
que em 1920 era estimado em 87% dos ativos tangíveis (instalações,
máquinas, estoques etc), caiu para quase zero em 1942 e, na
metade dos anos 90, já era umas quatro vezes maior do que estes!
É o que a economia do conhecimento está fazendo. Hoje
a Microsoft vale mais do que a General Motors. Os clicks (toques de
computador) valem mais do que os bricks (tijolos) .
Há aquela história da diferença entre um psicótico
e um neurótico. Aquele acha que 2 mais 2 são 5, enquanto
que este sabe que são 4, mas não tolera a idéia.
A globalização é um processo que está
acontecendo - sem pedir licença a nenhum de nós. Acentuo
a palavra "processo". Vai ser penoso para alguns, mas com
o tempo, vantajoso para a maioria. Sobretudo, porém, é
um dado da realidade, a partir da qual temos de colocar-nos, tanto
quanto possível com uma visão estratégica, procurando
antever os custos e benefícios das sucessivas jogadas ao longo
do tempo. Reanimar esquemas estáticos pensados para os problemas
de 1950, como fazem nossos neonacionalistas, não é o
portal de entrada no século 21. |
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| O sumiço
do contribuinte (13/02/2000) |
Os sistemas fiscais clássicos - dos quais
o nosso é um filhote particularmente depravado - estão
crescentemente ameaçados pela revolução da Internet.
É que eles se baseiam todos na "identificação
física" do contribuinte e na localização
do fato gerador num estabelecimento determinado. Na economia global
e virtual da Internet, há dois fenômenos que só
agora começam a ser percebidos: a "desmaterialização"
e a "transfronteirização". Tomemos dois exemplos.
A música antes transmitida via CDs - objeto físico tributável
- pode ser hoje captada via Internet, desmaterializando-se. Projetos
e desenhos, que exigiam papelório, empacotamento e transporte,
podem ser transmitidos por correio eletrônico. E nasceram as
"empresas virtuais", como a Amazon, que vende livros pelo
computador no mundo inteiro, substituindo inúmeras lojas de
varejo por um armazém de distribuição. A "transfronteirização"
se traduz em extrema mobilidade não só de capitais como
também de pessoas. Ambos podem buscar paraísos fiscais.
E as empresas podem, através de "preços de transferência",
alocar alguns processos ou componentes de suas fábricas globais
para os países de fiscalidade mais mansa. Acresce que grande
parte dos registros documentais é substituída por memórias
eletrônicas codificadas.
Era de se imaginar que nesta era eletrônica os países
que sentem necessidade de modernizar seu fisco marchassem para métodos
de tributação eletrônica, abandonando os impostos
clássicos que exigem declaração de renda, consumo
ou serviços, engordando três burocracias - a do contribuinte,
a do controle e a do contencioso. São três oportunidades
de corrupção e evasão.
Mesmo antes de se tornar visível a revolução
que advirá do comércio eletrônico, surgiram no
Brasil idéias pioneiras de eletronificação do
fisco, descartando-se os "impostos declaratórios"
por ineficientes e injustos. Ineficientes, pelo alto custo da arrecadação
e injustos pelas possibilidades de sonegação. Infelizmente,
a Comissão Especial de Reforma Tributária da Câmara
dos Deputados pôs de lado a Emenda Constitucional nº 8,
que visava a substituir os impostos declaratórios por impostos
eletrônicos cobrados na fonte, segundo idéias seminais
dos deputados Marcos Cintra e Luis Roberto Ponte. Perdemos a oportunidade
de pioneirismo na tecnologia de tributação, ao contrário
do que aconteceu na reforma fiscal de 1966, quando fomos o primeiro
país do mundo a adotar em escala nacional o Imposto Sobre o
Valor Adicionado, que só anos depois foi imitado no Mercado
Comum Europeu.
Receio que a nova reforma fiscal padeça do mesmo vício
da Constituição de 1988: nasce como um bebê anacrônico.
A preocupação dos legisladores parece ser a manutenção
das receitas atuais, as quais, ao nível de mais de 30% do PIB,
representam um freio ao desenvolvimento. Deveria ser ao contrário:
1) reduzir os encargos do contribuinte e livrá-lo da burocracia;
2) diminuir os "custos" de arrecadação por
inovações na tecnologia tributária. Estes dois
objetivos se alcançariam com a tributação eletrônica
e continuarão inatingíveis com a tecnologia tradicional.
Temos uma espécie de "mini/max" perversa: todos querem
maximizar o "nível" da arrecadação
e poucos se preocupam em minimizar os "custos".
Um consolo para os brasileiros, que tanto ouvem falar da guerra fiscal,
é o que está sucedendo na Europa semifederada. Os franceses
se queixam da perda de talentos empresariais para a Inglaterra, cujo
imposto de renda é mais benigno; os alemães querem tributar
juros sobre depósitos bancários, enquanto Luxemburgo
e Inglaterra protegem os depositantes: a Irlanda e a Holanda outorgaram
generosas renúncias fiscais para atrair empresas de alta tecnologia.
No Brasil, a guerra fiscal entre Estados teve uma fase útil.
Vários governadores abandonaram a cultura da mendicância
de verbas pela cultura do investimento privado, gerador de receitas
futuras. Hoje a guerra fiscal se agravou tanto que ameaça a
estabilidade do pacto federativo. Duas das modificações
adotadas no projeto de reforma fiscal serão eficazes para contenção
da guerra fiscal: a federalização da legislação
sobre o IVA estadual e a cobrança do IVA na ponta do destino.
Recentemente, surgiu na Câmara uma proposta de emenda aglutinativa
(nº 175/95) subscrita pelos deputados Fetter Junior, Marcos Cintra,
Mares Guia e Alberto Mourão, que introduz um toque de inovação.
Reduz a contribuição empresarial paga ao INSS sobre
a folha de pagamento, no intuito de diminuir os custos diretos da
contratação da mão-de-obra, que hoje incentivam
o desemprego e/ou a informalização do trabalho. Reduz-se
a contribuição patronal direta ao INSS de 20% para 15%
sobre a folha de pagamentos, sendo o montante economizado transformado
em aumento de salários para os empregados. Para compensar o
INSS elevar-se-ia para 0,5% a alíquota do IMF, com dois aperfeiçoamentos
em relação à atual metodologia: dar-se-ia crédito
tributário aos exportadores e isentar-se-iam as operações
no mercado financeiro. É um ensaio tímido de realismo
inovador, pois a seguridade social é melhor coberta por encargos
gerais sobre a comunidade do que por impostos que oneram diretamente
a mão-de-obra.
A tributação eletrônica do futuro ter-se-á
que concentrar nas duas pontas do processo econômico: na transação
financeira que é a síntese da atividade e na compra
de insumos básicos fisicamente necessários ao processo
produtivo - eletricidade, combustíveis, veículos e telecomunicações
- todos cobráveis eletronicamente nas fontes produtoras e hoje
pagos mascaradamente sob várias figuras tributárias.
A percepção direta desses encargos disciplinaria seu
consumo com efeitos ecológicos favoráveis, que se somariam
ao desincentivo ao vício pela tributação de cigarros
e bebidas. Essa heróica simplificação tributária
teria efeitos dramáticos sobre a produtividade nacional e,
last but not least, reduziria a taxa de corrupção do
país. |
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| Não basta
investir (30/01/2000) |
Até o fim da II Guerra pouco se falava
em desenvolvimento econômico. A questão mais quente era
como controlar as flutuações cíclicas da economia,
os ciclos de prosperidade e depressão. Depois da guerra, no
entanto, tudo mudou, e depressa.
Tinha havido uma enorme transformação do ambiente. Depois
de 10 anos de depressão e mais seis da guerra, todos os povos
queriam recuperar o tempo perdido. A palavra-chave era "reconstrução".
Isso queria dizer políticas, programas e projetos que só
pareciam factíveis com recursos e liderança do setor
público. Em 1936, Keynes havia feito a cabeça dos economistas
- deixando sem graça, por um quarto de século, os neoclássicos
tradicionalistas - com uma idéia surpreendentemente simples:
a de que, numa conjuntura recessiva, em que há ociosidade de
mão-de-obra e de máquinas e equipamentos, pode-se aumentar
a demanda real simplesmente pela injeção de recursos
para aumentar a demanda monetária. Criando dinheiro, o governo
conseguiria provocar um aumento efetivo da renda e, graças
a isso, reduzir o desemprego da força de trabalho.
No pensamento de Keynes, isso só ocorreria em situações
recessivas, mas a tentação de esquecer esse "detalhe"
seria grande demais para os políticos.
Outra novidade teórica de um brilhante economista soviético
dos anos 20, N. Kovalesky, que passaria despercebida durante muito
tempo, foi o uso da relação capital/produto para projetar
o crescimento do país. Essa idéia manipulada décadas
mais tarde por dois economistas ocidentais - R. Harrod e E. Domar
- se transformou num famoso modelo, que se popularizou de modo fulminante
entre os planejadores desenvolvimentistas.
Depois da guerra, todas as regiões coloniais queriam ficar
independentes. Alguns partiram para a luta armada contra as metrópoles
mais renitentes, como Bélgica, Holanda, França e Portugal.
Outros colonizadores, Inglaterra e Estados Unidos, tiveram mais bom
senso. No final de três décadas, perto de uma centena
de novos Estados havia surgido, todos sequiosos por rápido
desenvolvimento.
Receitas simples têm grandes vantagens. E foi o que aconteceu
com o modelo Harrod-Domar. Naquele momento, era razoável supor-se
que: 1) havia grande redundância de mão-de-obra na agricultura;
2) o capital (máquinas, equipamentos) era o fator mais escasso;
e que 3) seus rendimentos eram lineares, isto é, diretamente
proporcionais à quantidade disponível. Tornou-se irresistível
a tentação de um modelo fácil: com um coeficiente
capital/produto de 3, para o país crescer a 7% ao ano, digamos,
bastaria ao governo promover um investimento líquido de 21%
do PIB - dele próprio, dos investidores privados e de fontes
estrangeiras.
Inutilmente Domar, algum tempo depois, renegou sua fórmula
por simplista demais. Era exatamente esse simplismo que a popularizava.
Os teóricos sérios sempre souberam que a realidade era
muito mais complexa, incluindo complicadores tais como a distribuição
dos recursos naturais, a posição geográfica,
a tecnologia, a cultura, os valores sociais, as instituições,
a segurança e estabilidade das leis, a liberdade de iniciativa
e o direito aos frutos da atividade econômica. Max Weber chegou
mesmo a explicar o êxito histórico do desenvolvimento
capitalista do centro-norte europeu pelos valores individualistas
do protestantismo.
O simplismo de Harrod-Domar fez esquecer um princípio econômico
elementar, que o professor W. Easterly formulou da seguinte maneira:
"As pessoas respondem a incentivos".
Em 1960, W.W. Rostow publicou um best-seller, Os Estágios do
Crescimento Econômico, em que classificava cinco estágios
econômicos até se chegar à "decolagem"
para o desenvolvimento auto-sustentado. Este dependeria do aumento
da formação de capital. E se tornaria mais ou menos
automático, quando atingida uma relação adequada
entre investimentos e o PIB. No contexto da Guerra Fria, quando os
Estados Unidos pareciam estar perdendo a corrida tecnológica
e econômica contra a falecida União Soviética,
surgiram os grandes planos de ajuda externa para subsidiar o crescimento
econômico. Era preciso fazer alguma coisa para ganhar a guerra,
e a fórmula de crescimento automático pela intensificação
de investimentos era uma arma disponível para os países
ricos exportadores de capital.
Solow, cujo modelo foi o sucessor do de Domar, chamou atenção
para o princípio que ficou conhecido como "produtividade
total dos fatores". Ou seja, a produção não
é função apenas do capital e do trabalho, mas
também da tecnologia. Disso tirou o resultado surpreendente
de que o crescimento a longo prazo é função apenas
das mudanças tecnológicas e não da taxa de investimento,
a qual determina só o nível do produto. Ultimamente,
houve uma inovação teórica importante. A lei
dos rendimentos decrescentes só se aplicaria aos setores convencionais.
Nos setores de alta tecnologia, como a Internet, os rendimentos seriam
crescentes, pois a ampliação indefinida dos usuários
reduziria os custos de transação, aumentando a produtividade
global.
Dois exemplos ilustram a importância da qualidade e eficiência
do investimento. Um deles é o da União Soviética,
que experimentou estagnação econômica na década
dos 80, apesar de taxas de investimento da ordem de 30% do PIB. Outro
é o do Brasil em seus investimentos sociais. Nossos gastos
sociais são bastante elevados como proporção
do PIB, mas os resultados são pífios, colocando-nos
em posição desonrosa em matéria de índice
de desenvolvimento humano.
Na ânsia de descobrirem o milagre do desenvolvimento, os economistas
vêm sempre acrescentando novas variáveis explicativas.
No final, talvez aprendam que não podem prever trajetórias
tão exatas como a física permite em relação
aos foguetes. Voltamos sempre aos velhos fundamentos conhecidos desde
Adam Smith: governo pequeno e honesto, tributação moderada,
respeito ao direito de propriedade e melhoria do agente econômico
pela competição e pela educação. Não
basta investir. É preciso investir bem. |
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| Em berço
esplêndido (16/02/2000) |
A recente republicação pela Editora
TopBooks do livro do embaixador Meira Penna Em Berço Esplêndido
constituiu para mim uma festa cultural de fim de ano, pela espantosa
erudição do autor, um corajoso defensor do liberalismo.
Dizia o filósofo Schopenhauer que os primeiros 40 anos da vida
humana são "o texto"; os 30 subseqüentes são
"comentários". Nada diz sobre o resto, pois morreu
aos 72 anos. Presume-se que a partir dos 70 a gente vire nota de rodapé.
Orgulho-me de que na minha geração do Itamaraty sobrevivem
setentões e oitentões que são campeões
de erudição, como Oscar Lorenzo Fernandes (economista,
matemático, filósofo e historiador), Mario Vieira de
Mello (filósofo e cientista político) e José
Oswaldo de Meira Penna, proprietário de cultura ecumênica,
que vai da filosofia à sociologia, à psicologia e à
literatura. Felizmente, nenhum deles virou nota de rodapé.
Infelizmente, nenhum deles atingiu posições de comando
na máquina burocrática de nossa política externa.
Zelosos de sua independência crítica, nunca se filiaram
às "igrejinhas" que confundiam deformações
ideológicas com Realpolitik.
Durante certo tempo, inclusive em fases do período militar,
um diplomata "progressista" tinha que demonstrar capacidade
de saborear um coquetel maldito, com os seguintes ingredientes: uma
pitada de antiamericanismo (como uma espécie de machismo residual),
uma dose de esquerdismo (suficiente para provar imunidade ao capitalismo
liberal), um toque de paranóia desenvolvimentista (apoio à
política de informática e ao acordo nuclear com a Alemanha,
que gerou mais dívidas que kilowatts), um verniz de terceiro-mundismo
custoso e ingênuo (como se a liderança na gafieira compensasse
a bola preta recebida no Country Club).
Esse coquetel seria impalatável para alguém como Meira
Penna, que sempre preferiu Adam Smith a Karl Marx, Hayek a Keynes,
Jung a Freud, o liberalismo ao socialismo. Em vez de paparicar mitos
e preconceitos, dedicou-se ele à tarefa de Eutzauberung (desencantamento
ou desmistificação), que Weber considerava prelúdio
indispensável da racionalidade econômica. Foi o que fez
em vários livros, como os de minha trilogia preferida A Psicologia
do Subdesenvolvimento (1972), O Espírito das Revoluções
(1997) e Em Berço Esplêndido, agora revisto em função
das grandes transformações trazidas pelo colapso do
socialismo. Solidários na angústia, Meira Penna e eu
nos temos preocupado ao longo dos anos com a pergunta irrespondida:
por que o Brasil continua pobre e subdesenvolvido? A pergunta é
sobretudo vexatória agora que o país completa 500 anos,
107 anos a mais que a primeira colonização inglesa na
Virgínia, da qual resultou a maior superpotência que
o mundo já conheceu.
Com minha deformação profissional de economista, limito-me
a explicar nosso atraso em função da "doença
dos ismos": o nacionalismo (temperamental), o populismo (perdulário),
o estruturalismo (inflacionário), o estatismo (intervencionista)
e o protecionismo (anticompetitivo). Há inúmeras explicações
sociológicas, que enfatizam fatores culturais, como a herança
ibérica, ora com pessimismo racial (Oliveira Vianna), ora com
uma visão condescendente da miscigenação (Gilberto
Freire). Não faltam os reducionistas que recorrem a determinismos
raciais ou climáticos, supostamente limitativos das civilizações
tropicais.
Meira Penna é bastante original em usar o instrumental de Carl
Gustav Jung para submeter nossa história a um exame de psicologia
coletiva. Como é sabido, das três grandes vertentes da
psicanálise, Freud enfatiza a libido pansexual, Adler o instinto
do poder e Jung o dualismo entre a atitude extrovertida, voltada para
o mundo exterior e a atitude introvertida concentrada sobre imagens
e sensações interiores.
Meira Penna sublinha com razão a básica polarização
da cultura ocidental entre um setor nórdico e um setor mediterrâneo,
tendo o primeiro contribuído maciçamente para a expansão
técnico/científica, e o segundo para as artes e o humanismo.
Prometeu e Fausto seriam protótipos do primeiro. Epimeteu e
Dom Juan, do segundo. Neste continente, os Estados Unidos e os ex-domínios
britânicos seriam parte da cultura nórdica, enquanto
o Brasil, com sua "civilização morena", carrega
a herança mediterrânea do patrimonialismo afetivo. Contrapõem-se
assim a civilização lógico-pragmática
com a civilização erótico-intuicionista. Meira
Penna faz uma crítica impiedosa mas salutar dos nossos vícios
do familismo paternalista, da dependência do Estado como se
fôssemos infantes perpétuos, e de nossa inconfiabilidade
na execução contratual, em contraste com o pragmatismo
racional de nossos irmãos do Norte. Este "sustenta a responsabilidade
abstrata do cidadão", facilitando tanto a implantação
da democracia quanto a competição no mercado.
No afã de exemplificar arquétipos junguianos, Meira
Penna produziu belas passagens literárias sobre a introversão
quase desumana dos personagens de Machado de Assis, capazes de paixões
pessoais porém insensíveis a pessoas abstratas, sobre
a energia primordial da libido descrita em Gabriela, Cravo e Canela,
de Jorge Amado, assim como em dissertações eruditas
sobre a simbologia do segundo Fausto de Goethe e do drama shakespeariano
de Otelo, que simboliza a construção racional por sua
sombra Iago, de um ciúme irracional e autodestrutivo. A desconstrução
por Meira Penna de mitos e tabus de nossa cultura morena é
uma contribuição importante para nossa transformação
"liberal" tanto em política quanto em economia.
Mas fica sempre a dúvida cruel: haverá salvação
para um país que em seu hino nacional se declara "deitado
eternamente em berço esplêndido" e cujo maior exemplo
de dinâmica associativa espontânea é o Carnaval? |
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| Repetindo
o óbvio (09/01/2000) |
Aceito o risco de parecer repetitivo. Diante das
grandes questões que preocupam mais no nosso país, a
originalidade do articulista fica em segundo lugar. Estamos atravessando
dias pesados, um ambiente de insatisfações e sombras.
Os mais jovens sentem-se angustiados diante das incertezas do futuro,
da ameaça de desemprego, de falta de horizontes. Os mais velhos
tentam lembrar-se daqueles períodos em que o Brasil não
atravessava um estado de crise permanente. Salvo alguns breves anos
do começo do Plano Real, parte da Era Kubitschek e o otimismo
do "milagre econômico" do fim dos anos 60 - que, no
entanto, foi tisnado pela situação política de
exceção -, todo o resto de nossa História contemporânea
é um confuso mosaico de problemas e condições
institucionais instáveis.
Não chegamos felizmente ao extremo dos gulags, campos de extermínio,
"limpezas étnicas" e coisas que tais. Nossos chamados
"anos de chumbo", comparados às experiências
de outras nações (e certamente aos "anos de aço"
dos regimes comunistas), pareceriam antes de papel de cigarro metalizado.
Se afundamos numa situação crítica injustificável,
é por nossa própria culpa, por falta coletiva de bom
senso e de responsabilidade.
O público exprime sua perplexidade naquela conhecida anedota
de como Deus, tendo presenteado nossa geografia com uma abundância
de vantagens materiais, colocou no Brasil, como contrapeso, um "povinho
ruim". Essa autodepreciação está errada.
O trabalhador brasileiro, ainda que subinstruído, é
diligente e flexível, como as empresas estrangeiras são
as primeiras a reconhecer. Os engenheiros e gerentes especializados
têm em alguns casos nível bastante alto. Somos a oitava
economia do mundo e temos conseguido adaptar-nos a mudanças
tecnológicas complexas. Falta-nos reduzir os excessivos contrastes
em matéria de educação, informação
e saúde - demanda social justa, mas não um impedimento
real ao nosso desenvolvimento tecnológico ou industrial.
A verdade é que nosso grave subdesenvolvimento não é
só econômico ou tecnológico. É político.
Somos um gigante preso por caguinchas dentro de estruturas disfuncionais.
A máquina político-administrativa que rege hoje nossos
destinos é uma fábrica de absurdas distorções
cumulativas. O regime presidencialista e o voto puramente proporcional,
cada um dos quais, já de si, dificilmente funcionam bem, transformam-se,
quando combinados, numa crise quase ininterrupta. O presidencialismo
americano, que nos serviu de modelo, é conjugado ao voto distrital,
e a federação é autêntica, porque foram
os Estados que a criaram, enquanto que no Brasil estes resultaram
do desfazimento do império unitário.
Não é que os políticos só pensem em si
ou sejam "corruptos" de nascença. Essa é uma
visão popular deformada. A maioria é dedicada e séria.
Mas o deputado, o senador, o prefeito, o governador e, obviamente,
o presidente têm de ser eleitos, ponto de partida do qual não
há escapatória. Nas eleições proporcionais
de hoje, os deputados são obrigados a catar votos por todo
o Estado, garimpando aqui e ali - um processo caro e tremendamente
incerto, porque eleitor em geral não sabe como discriminar
entre dezenas de representantes eleitos. Como é que o eleitor
médio vai se lembrar de quem propôs medidas ou leis,
para poder avaliar quem merece o seu voto? Um americano ou um inglês
pode falar no "seu" deputado: sabe exatamente quem ele elegeu
e tem como cobrar respostas ao representante do "seu" distrito.
O alemão, com um sistema misto, tem o "seu" deputado
distrital e também o da lista do seu partido. E, como o regime
é parlamentarista, pode cobrar de ambos.
No Brasil, cobrar o quê? De quem? Mal acaba de ser eleito por
um partido, o deputado ou senador se sente à vontade para mudar
de partido. Não existe sanção. A eleição
presidencial então é sempre um trauma violento, agravado
pela percepção de que o vencedor passará a controlar
a máquina pública, os mecanismos de dar ou negar favores.
Gerir a coisa pública é, entre nós, um contínuo
varejo. Dá para estranhar que, desde o início da República,
raros tenham sido os governos que não se envolveram em conflitos
com o Congresso, com riscos de descontinuidade institucional? Contra
um sistema tão ruim, tanto faz se os políticos são
santos ou bandidos. Num ônibus sem freios, o perigo de desastre
é o mesmo para todos.
Há perto de três séculos e meio, Colbert, o famoso
ministro protecionista da França monárquica, assim se
lamentava na Carta de Luís XIV aos funcionários e ao
povo de Marselha (26 de agosto de 1764):
"Como desde a morte de Henrique IV temos tido só exemplos
de carências e necessidades, precisamos determinar como aconteceu
que, durante tão longo tempo, não tenhamos tido, se
não abundância, pelo menos uma renda toleravelmente satisfatória..."
Colbert põe a culpa no sistema fiscal e afirma que piores do
que os muitos corruptos foram aqueles altos funcionários "cuja
incompetência prejudicou mais o Estado e o povo do que os roubos
pessoais". Entre os vícios da burocracia fiscal da época,
Colbert lista os seguintes: "Consumir com despesas correntes
as receitas ordinárias e extraordinárias dos dois próximos
anos..." e "negligenciar as receitas gerais ordinárias
afazendadas, dedicando-se ativamente à busca de fontes de renda
extraordinárias..."
Colbert se revelou um reformista e desenvolvimentista avant la lettre.
Mas a França já estava politicamente entalada, e ele
não conseguiu realizar sua "reforma fiscal". O mundo
está cansado de esperar pelas "reformas" brasileiras.
E de ouvir lamentações sobre a nossa pobreza. Há
muito, exceto em regiões desérticas da África
ou gravemente sobrepovoadas da Ásia, a pobreza deixou de ser
uma fatalidade. É um acidente histórico de povos que
preferem externalizar a culpa em vez de fabricar seu próprio
destino. |
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| Dois desapontamentos
(02/01/2000) |
O fim do século 20 e o começo de
um novo milênio redobram o interesse internacional em análises
comparativas de desempenho. Sob esse prisma, há dois grandes
países que se tornaram grandes desapontamentos: Brasil e Rússia.
Grande desapontamento pela diferença entre o potencial, que
é reconhecidamente enorme, e o desempenho, que é admitidamente
medíocre. Nenhum desses países têm o direito de
ser pobre. Ambos confirmam minha velha teoria de que há países
naturalmente ricos mas vocacionalmente pobres (Brasil, Rússia,
Venezuela, por exemplo). Há países naturalmente pobres
mas vocacionalmente ricos (Japão e Suíça). E
há casos raros, como o dos Estados Unidos, que são ricos
por natureza e por vocação.
Na Rússia, a atual humilhação é particularmente
aguda. Tendo sido uma superpotência nuclear, descobriu que está
inaugurando uma nova tipologia de país: é um "novo
pobre". Sua renda por habitante é um sexto da japonesa
e a dimensão de seu PIB real, comparável ao da Holanda,
países de mesquinho território e desprovidos de riquezas
naturais. Isso deveria ter ensinado aos nossos nacionalistas a enorme
bobagem de se confundir recursos naturais, que são cadáveres
geológicos, com riqueza real, que vem da educação
e da tecnologia.
O Brasil nunca chegou ao fastígio da superpotência. Mas
depois do salto juscelinista dos anos 50 e do "milagre brasileiro"
de 1968 até a crise do petróleo, era uma respeitável
potência emergente, que parecia condenada ao sucesso, tornando-se
grande potência no fim do século. Mas a ele chegamos
sofrendo velhas doenças, com um indecente déficit fiscal,
um humilhante déficit externo e duas décadas de estagnação.
Haverá semelhanças que expliquem, pelo menos parcialmente,
os desapontadores resultados do Brasil e da Rússia, em busca
do desenvolvimento sustentável? Alguns analistas apontam três
semelhanças no século passado, que projetam sombras
negativas sobre o presente. Desde o século 19 essas duas nações,
multiculturais e imperiais (o império russo sobreviveu até
1917 e o brasileiro até 1889), apresentaram três perniciosas
analogias: a) alta taxa de analfabetismo; b) atraso na abolição
da escravatura (servos de gleba ou escravos negros); c) economia patrimonialista.
Estatísticas reconstruídas pelo professor Nathaniel
Leff, de Harvard, sobre a estrutura educacional no século 19
revelam que Brasil e Rússia eram campeões do analfabetismo.
Em 1850, apenas 1% da população brasileira era alfabetizada;
na Rússia, 2%. Na Europa Ocidental, a situação
era melhor e mais diferenciada: 7% na Holanda, 10% na França
e 14% na Inglaterra.
A grande surpresa são os Estados Unidos, que já em 1850
tinham 22% da população alfabetizada, provavelmente
pela influência dos puritanos imigrantes, que consideravam a
leitura da Bíblia condição indispensável
da cidadania. Não é de se subestimar a importância
econômica de três traços culturais trazidos pelos
dissidentes religiosos: a alfabetização imposta pela
leitura da Bíblia; o coral dominical que impõe hábitos
de cooperação e disciplina e a rebeldia religiosa, que
favorecia a mentalidade não-conformista.
Um segundo fator de semelhança entre Brasil e Rússia
no século 19 foi a do mercado de trabalho, pelo prolongamento
do regime de servidão. Enquanto na Europa Ocidental o feudalismo
se desintegrara ao longo dos séculos 17 e 18, os "servos
de gleba" só foram liberados por édito do czar
em 1861. No Brasil, a escravatura negra só foi formalmente
abolida em 1888. A barateza espoliativa da mão-de-obra sob
o regime de servidão teve duas conseqüências: diminuiu
o interesse na busca de alternativas tecnológicas para redução
do custo da mão-de-obra, e retardou o crescimento do mercado
interno, refreando a capacidade de consumo dos não-assalariados.
Um terceiro fator de semelhança foi a cultura patrimonialista
dos dois regimes imperiais. Essa cultura era caracterizada pela tênue
linha divisória entre a propriedade pública e a propriedade
privada; pela intensa capacidade apropriativa do poder dominante através
de desapropriações e confisco; pela implantação
de monopólios estatais ou de corporações privadas
privilegiadas pelo Estado, retardando o advento do capitalismo competitivo.
Nenhum desses países absorveu adequadamente dois elementos
básicos da cultura capitalista: a soberania do consumidor e
o respeito ao contribuinte.
A trajetória neste século foi bastante diferente. A
Rússia superou completamente sua deficiência educacional.
Cabe mérito ao comunismo o mérito de tê-la transformado
numa potência científica e tecnológica. Apenas
foi uma tecnologia de base estreita, enviesada para o esforço
militar e espacial. Lenin se enganou ao proclamar a eletrificação
e a alfabetização como sendo o "binômio do
desenvolvimento", esquecendo-se do papel das "instituições".
O Brasil está ainda longe de resolver seu problema de educação
fundamental de massa, gastando até hoje demais com o beletrismo
elitista.
O grande erro russo no século 20 foi a institucionalização
do comunismo, esse misto de despotismo político e ineficiência
econômica. A Rússia sempre foi vítima de modernizações
tiranicamente impostas e não democraticamente referendadas.
Assim foram a modernização de Pedro, o Grande, e a industrialização
forçada de Stalin.
O Brasil teve sorte em não agravar seus problemas por opções
institucionais erradas, aderindo desde o começo do século
à democracia política e à economia de mercado,
ainda que sem praticá-las continua e competentemente. Na realidade,
passamos do mercantilismo patrimonialista ao capitalismo de Estado,
sem chegarmos ainda à fase do capitalismo liberal-competitivo.
O neoliberalismo, de que tanto se fala, seria até uma doença
desejável, mas ainda não fomos contaminados... |
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| Uma fábula
futura (26/12/1999) |
Seis bilhões de gentes pululam na terra,
1,2 bilhão delas numa dieta de emagrecimento de menos de um
dólar por dia para viver. Alarmado, o Banco Mundial propõe
uma "grande coalizão de ajuda internacional
para evitar que dentro de um quarto de século 4 bilhões
de pessoas tenham que sobreviver com menos de US$ 2 por dia. Nesse
cenário dantesco, abundam fotografias de crianças angolanas
esfaimadas, enquanto os adultos se dedicam com inabalável entusiasmo
ideológico, aprendido com as não menos entusiásticas
direitas e esquerdas mundiais, a destruir o que ainda resta do país.
Associe-se a isso as guerras étnicas ou religiosas entre tamils
e singaleses, entre hindus e paquistaneses, entre russos e chechenos,
a gente se pergunta: haverá esperança para a nossa capacidade
criadora, ou será que a visão do inferno terreno de
hoje terá de ser o baço espelho do futuro?
Não pretendo ser profeta. Espero, aliás, vir a ter,
agora nesta minha idade mais ponderada, um pouco mais de instinto
de autopreservação, porque as previsões certas
que no passado andei fazendo a respeito da economia da pátria
amada me custaram muitas pancadas. Mas está ficando difícil
resistir às cócegas do otimismo tecnológico.
Nos Estados Unidos, ele anda especialmente na moda. Fala-se na morte
da inflação e no fim dos ciclos econômicos da
depressão. Nestes últimos 17 anos só houve uma
recessão, quando tradicionalmente elas repontavam cada três
ou quatro anos.
Esse otimismo não chega a ser uma novidade surpreendente no
ambiente americano, porque esse povo se desenvolveu ativo, criativo
e crente no futuro. Hoje, porém, depois de perto de 10 anos
de prosperidade contínua, com a bolsa de valores quebrando
sucessivamente os próprios recordes, com o índice Dow
Jones, esse ícone do capitalismo mundial, furando tetos tidos
como números mágicos (subindo de menos 3 mil pontos
entre o começo desta década para perto de 11 mil hoje)
- e tudo isso mirabile dictu com superávit fiscal - é
lícito perguntar: será que existe mesmo um Papai Noel
tecnológico?
Certa vez mencionei aqui a ideologia californiana, uma interessante
combinação de extremo radicalismo tecnológico
e inovacional, com um não menos radical individualismo libertário.
Isso, no vocabulário pobre de alguns membros da intelligentsia
subnacional tupiniquim, é traduzido como conservadorismo político.
O otimismo tecnológico tem muito a ver com o universo de informação.
Algumas das cabeças mais radioativas do Silicon Valley e dos
territórios em volta do MIT estão sonhando de olhos
abertos com um Dow Jones de 30 mil (talvez em quatro anos) e com um
cenário de ininterrupta expansão econômica a 4%
ao ano, com baixa inflação, altíssimo emprego,
firme confiança do consumidor, preços estáveis,
juros baixos, salários crescentes e criminalidade cadente!
Excusez du peu...
A maioria entretanto ainda olha desconfiada. Afinal, perto de meio
século de hábitos de verdade científica, ceticismo
da mídia e relativismo pós-moderno não passam
à toa. A inflação e os ciclos econômicos
estariam apenas anestesiados, porém não mortos. Argumentam
muitos que ondas de otimismo já aconteceram antes. O papel
estimulante hoje exercido pela revolução da Internet,
foi desempenhado no começo do século 19 pelas ferrovias
e no albor deste século pelo automóvel. Mas há
uma diferença. Essas inovações trouxeram saltos
de produtividade, mas estes foram descontínuos e não
disseminadores de conhecimento, enquanto que a Internet parece uma
fonte interminável de difusão tecnológica e multiplicação
da produtividade individual.
A interessante revista Wired, que é uma espécie de bíblia
da ideologia californiana, usa um novo termo: a ultraprosperidade.
Eis seus componentes: uma renda média familiar de US$ 150 mil
em 2020, todas as pessoas atingindo um nível considerado até
hoje privativo dos ricos, trabalhadores de macacão ganhando
tanto quanto os de terno e gravata, emprego formal sendo substituído
pela condição de auto-empresário. Quando se olha
a nova realidade criada pelas tecnologias da informação,
não é tão esdrúxulo assim. Existem hoje
8 milhões de milionários nos Estados Unidos e estima-se
que uns 250 mil se concentrem no Silicon Valley. E há quem
calcule que uns 30 mil funcionários da Microsoft também
se achem nessa situação, graças às stock
options.
O mais interessante, porém, é que toda essa riqueza
nova está fazendo ferver a moda da filantropia. Os americanos
sempre foram dados a um hábito que aqui não é
dos mais disseminados: deixar fortunas para hospitais, fundações
de amparo, obras sociais, universidades, instituições
de pesquisas e museus. Mas agora a coisa se exacerbou. O grande luxo
da milionarada deixou de ser o consumo conspícuo e passou a
ser a prática das doações em escala industrial.
Os marxistas falavam muito na competição capitalista
pela espoliação, mas agora está surgindo um animal
novo: a competição pela filantropia. Já há
até especialistas em achar a quem dar e como administrar o
processo. Isso, pelo que se sabe, não é sopa. Ganhar
dinheiro, afinal, parece ser coisa que muita gente aprendeu a fazer
na nova economia. O problema é aprender como distribuí-lo
eficientemente. O profissionalismo está nisso: saber doar com
a mesma eficiência com que se ganhou.
Do ponto de vista dos países emergentes, seria uma angústia
gostosa preocupar-se com a maximização dos resultados
da filantropia. Nosso problema imediato é o de reduzir o coeficiente
de pilantropia.
Para Bill Gates, que agora inicia sua carreira de filantropo, com
doações na casa dos bilhões de dólares,
o mercado de doações deve parecer exasperante. Que será
melhor para a África: investir na alfabetização
ou em pesquisa da cura da Aids? Fará sentido auxiliar Índia
e Paquistão com dinheiro novo, quando desperdiçam recursos
num arsenal nuclear para se protegerem uns dos outros? Que fazer para
o Sri-Lanka, onde tamils e singaleses se matam diariamente? Ou pela
América Latina, onde o ensino fundamental é grotescamente
inadequado e a elite se beneficia de universidades públicas
gratuitas? O problema dos novos-ricos é saber doar: o dos pobres
perpétuos é saber usar. |
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| Leis da política
(19/12/1999) |
Era uma crespa noite de inverno londrino. Eu tinha
convidado para um jantar na embaixada brasileira, ao fim dos anos
70, o grande filósofo liberal francês Raymond Aron e
dois sociólogos radicados na Inglaterra, Ralf Dahendorf e Ernest
Gellner, este último professor de José Guilherme Merquior,
meu conselheiro de embaixada. Na curva do conhaque, quando filosofávamos
sobre nominalismo, realismo e existencialismo, contei uma piada que
Aron achou divertida. Era a definição de "realidade"
por um irlandês, revoltado pela interrupção de
suas libações alcoólicas à hora do fechamento
dos pubs. "A realidade", disse ele, "é uma ilusão
criada por uma aguda escassez de álcool".
Quando partiram os hóspedes, resolvemos, Merquior e eu, em
rodadas de uísque, testar duas coisas. Primeiro, a teoria irlandesa
do realismo alcoólico. Segundo, nossa capacidade de recitarmos,
de memória, aquilo que poderíamos chamar de "leis
de comportamento sociopolítico" de variadas personagens
e culturas. Alternávamos nas citações, que registrei
num alfarrábio que outro dia desenterrei numa limpeza de arquivos.
Ei-las:
A lei de Lenin: "É verdade que a liberdade é preciosa.
Tão preciosa que é preciso racioná-la".
A lei de Stalin: "Uma única morte é uma tragédia;
1 milhão de mortes é uma estatística".
A lei de Krushev: "Os políticos em qualquer parte são
os mesmos. Eles prometem construir pontes mesmo quando não
há rios".
A lei de Henry Kissinger: "O ilegal é o que fazemos imediatamente.
O inconstitucional é o que exige um pouco mais tempo".
A lei de Franklin Roosevelt: "Um conservador é um homem
com duas excelentes pernas, que contudo nunca aprendeu a andar para
a frente".
A lei de Lord Keynes: "A dificuldade não está nas
idéias novas, mas em escapar das antigas".
A lei de Bernard Shaw: "Patriotismo é a convicção
de que o país da gente é superior a todos os demais,
simplesmente porque ali nascemos".
A lei de Hayek: "Num país onde o único empregador
é o Estado, a oposição significa morte por inanição.
O velho princípio de quem não trabalha não come
é substituído por um novo princípio: quem não
obedece não come".
A lei de Mark Twain: "Um banqueiro é um tipo que nos empresta
um guarda-chuva quando faz sol, e exige-o de volta quando começa
a chover".
A lei de Lorde Kelvin: "Grandes aumentos de custos com questionável
melhoria de desempenho só podem ser tolerados em relação
a cavalos e mulheres".
A lei de Charles De Gaulle: "As promessas só comprometem
aqueles que as recebem".
A lei de John Randolph, constituinte na Convenção de
Filadélfia: "O mais delicioso dos privilégios é
gastar o dinheiro dos outros".
A lei de Getúlio Vargas: "Os ministérios se compõem
de dois grupos. Um formado por gente incapaz, e outro por gente capaz
de tudo".
A lei do governador Mario Cuomo, de Nova York: "Faz-se campanha
em poesia e governa-se em prosa".
A lei de John Kenneth Galbraith: "A política não
é a arte do possível. Ela consiste em escolher entre
o desagradável e o desastroso".
A lei de Sócrates: "No tocante a celibato e casamento,
é melhor não interferir, deixando que o homem escolha
o que quiser. Em ambos os casos, ele se arrependerá".
No último uísque, Merquior me contou um chiste anônimo,
que circulava em Londres: "A natureza deu ao homem um pênis
e um cérebro, mas insuficiente sangue para fazê-los funcionar
simultaneamente". Ao confidenciar a Merquior que pretendia aposentar-me
do Itamaraty para ingressar na política, lembrou-me ele a lei
de Hubert Humphrey, vice-presidente dos Estados Unidos na administração
Lindon Johnson, que dizia: "É verdade que há vários
idiotas no Congresso. Mas os idiotas constituem boa parte da população
e merecem estar bem representados".
Tendo em vista minhas ambições políticas, combinamos
fabricar conjuntamente uma lei, que passaria à posteridade
como a lei Campos/Merquior: "A política é a arte
de fazer hoje os erros do amanhã, sem esquecer dos erros de
ontem". Ao nos despedirmos, já mais sóbrios, lembrei-me
de duas leis. A lei do King Murphy, que assim reza: "Não
estão seguras a vida, a liberdade e a propriedade de ninguém
enquanto a legislatura estiver em sessão". E a lei do
sábio Montesquieu, o inventor da teoria da separação
de poderes: "O político deve sempre buscar a aprovação,
porém jamais o aplauso". Em minha vida política
no Senado e na Câmara procurei descumprir a lei do King Murphy
e cumprir a lei de Montesquieu. Sem resultados brilhantes nem num
caso, nem no outro... |
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| O festival
Woodstock da economia (12/12/1999) |
A reunião da OMC em Seattle, que não
chegou a um acordo sequer sobre a agenda da Rodada do Milênio,
mais se pareceu com um carnaval hippie de Woodstock do que com as
antigas reuniões semi-secretas do Gatt ou as graves pregações
típicas das reuniões do FMI e Bird. Até certo
ponto, é um progresso. Como cessaram as ameaças nucleares
à sobrevivência, passamos a discutir o cotidiano da coexistência
entre países industrializados e emergentes. Há 60 anos
escrevia George Orwell que na Inglaterra a simples palavra "socialismo"
ou "comunismo" atraía com força magnética
bebedores de sucos naturais, nudistas, maníacos sexuais, naturalistas,
charlatões, pacifistas e feministas. Como nota Charles Krauthammer,
esse papel de atrair comportamentos exóticos é agora
exercido por palavras como "livre comércio" e "globalização".
Entre os novos exóticos figuram zapatistas, defensores de borboletas,
inimigos da Nike (acusada de pagar salários baixos para produzir
tênis baratos), amigos do Tibete, opositores de engenharia genética
e "verdes" em abundância.
Houve pancadaria geral nas ruas de Seattle, simpático e rico
centro de alta tecnologia na Costa Oeste. Milhares de pessoas, inclusive
ONGs e profissionais do protesto, se reuniram para atrapalhar o evento,
precisamente pelo caráter simbólico dessa abertura de
novas negociações, dando continuidade ao processo instalado
no final da Rodada Uruguai, em 1994, quando se estabeleceu a Organização
Mundial do Comércio. Esses distúrbios revelaram duas
coisas. De um lado, a subavaliação do descontentamento
com a globalização, e de outro, a sobreavaliação,
por parte do governo Clinton, de sua capacidade para formatar a agenda
negociadora internacional. As reações negativas à
globalização e ao papel da OMC eram, em parte, inevitáveis.
Em 1994, ainda com a lembrança recente da autodissolução
da União Soviética, e o fim pacífico do que restava
do socialismo, estava subindo a maré da globalização,
e os caminhos da prosperidade pareciam abertos a todos os países.
Seria ingênuo imaginar que as vantagens da expansão e
liberalização do comércio internacional se distribuiriam
uniformemente entre todos os países e agentes econômicos.
Nada funciona assim. O que cabe dizer é que na média
geral, os benefícios são superiores aos eventuais custos.
Em Seattle, o grande barulho foi promovido por protecionistas dos
sindicatos, que sentem perda de poder na sociedade do conhecimento,
tecnoficados, e por ecologistas extremados, que acham que a expansão
econômica ameaça a natureza.
A subavaliação das limitações à
capacidade americana de impor sua agenda é fácil de
entender, tendo em vista a aproximação de uma campanha
eleitoral em que a autocrítica e a modéstia não
têm vez. A situação foi complicada no entanto
por outra subavaliação, a da capacidade que tem um grupo
de bagunceiros bem manipulados de paralisar temporariamente certas
peças do aparelho de um Estado democrático moderno.
Não há novidade, é claro, na noção
do uso organizado da violência, primeiro sistematizada por Sorel,
depois usada com êxito por Lenin e Trotsky na revolução
russa, por Mussolini em 1921, e por muitos outros desde então.
O grande complicador é a paulatina erosão da legitimidade
institucional e política nas sociedades atuais. Nas democracias,
pequenos grupos de interesses especiais conseguem fazer barulhos desproporcionais
e intimidar os representantes eleitos da maioria silenciosa. O fenômeno
contemporâneo das ONGs ilustra bem as dificuldades. A legitimidade
política e democrática baseia-se em instituições
representativas e eleições abertas e universais. As
ONGs são meras organizações, associações
ou clubes que se estabelecem por conta própria, dizem de si
mesmas o que querem, e não estão sujeitas a eleições
ou outro mecanismo formal de validação. São úteis
na medida em que as formas democráticas de representação
pelo voto não esgotam todo o universo das formas lícitas
de representação de interesses específicos. Mas,
voltando a Seattle, a desordem que ONGs e interesses especiais provocaram
nas ruas terá servido a algum propósito válido?
Antes mesmo de se chegar a Seattle havia duas clivagens básicas,
que prenunciavam dificuldades na Rodada do Milênio. Uma era
no tocante a agricultura e pecuária, onde há dois subconflitos.
Um deles, a pressão dos Estados Unidos, apoiados no caso pelo
Brasil e pelos produtores agrícolas do grupo Cairms, pela eliminação
ou redução dos subsídios agrícolas e restrições
não-tarifárias na Europa e Japão. O outro, era
a resistência européia à importação
de produtos geneticamente manipulados. De outro lado, havia a pressão
dos países ricos para maior abertura, pelos países emergentes,
de áreas de investimento, serviço e compras governamentais,
sem compromisso compensatório de abertura na agricultura e
de renúncia à utilização arbitrária
de quotas e medidas antidumping contra países emergentes. O
presidente Clinton acrescentou um complicador ao propor a inclusão
na agenda de normas trabalhistas, trabalho infantil e controle ambiental.
A agenda da OMC ficaria assim sobrecarregada, com desprestígio
para outras agências especializadas da ONU, como o BIT, a Unicef
e a Agência Ambiental.
A onda mundial de neoprotecionismo é desapontadora para os
partidários do livre comércio. Poucas teorias têm
tido ao longo de anos tanta demonstração de sua superioridade
sobre soluções protecionistas. Os países de economia
aberta têm revelado desempenho superior aos de economia fechada,
quer em termos de crescimento da renda, quer da eficiência e
emprego. Existe entretanto uma fatal assimetria de percepção.
Os benefícios do livre comércio são difusos entre
milhares de consumidores não-organizados, que se beneficiam
de menores preços e melhor qualidade. A vantagem psicológica
do protecionismo é que evita dramático desemprego em
setores específicos e mobilizados, ainda que com sacrifício
da maioria de consumidores e das atividades de exportação.
Assim, o benefício é disperso e a dor concentrada. |
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