O que vem a seguir são fatos. Um dia a professora entrou em sala de aula com um leve batonzinho vermelho sobre os lábios. Mulher, cuidando-se para ficar bonita e agradável. Normal. Ela entrou em sala de aula, arrumava suas coisas sobre a mesa quando ouviu de um guri, um pivete de pouca idade, um ordinário nato e hereditário:
— Ih, a professora hoje tá com cara de p...
Por que a professora estava com cara de p...? Só por que naquele dia ela pusera um batonzinho sobre os lábios? De onde o pequeno vadio tirou aquela expressão? Sem dúvida do pai. Deve ser desse tipo asqueroso que não pode ver uma mulher ajeitada, cuidadosa, diz logo que ela deve ser p... Típico dos homens impotentes, inseguros. O guri, é claro, ouviu isso, ouve isso, dentro de casa. Fora de casa, repete o que ouve na "educação" doméstica.
Mas não só ele, todos nós, todos nós reproduzimos hoje, em forma de preconceitos, o que um dia ouvimos de pai e mãe. Não há ideias inatas, o que está no intelecto passou antes pelos sentidos. No domingo, este que passou, ouvi numa jornada esportiva de rádio entrevistas com jovens adolescentes sobre arbitragem. A pergunta que lhes foi feita era se os árbitros erram por serem humanos ou por serem mal-intencionados, "ladrões"? Só uma garota disse que erram por serem humanos. Os outros todos disseram que erram por serem, sim, mal-intencionados...
Quem pôs isso na cabeça dos adolescentes? Ora bolas, os pais estúpidos, esse tipo de gente que não vê que seus fracassos existenciais e profissionais são de sua própria lavra e não de quem quer que seja ou do chefe. Fica fácil justificar nulidades existenciais, basta apontar o dedo para alguém. E é assim que a estupenda maioria dos pais educa os filhos, falando. Fala, se queres que te conheça...
A verdadeira educação, todavia, é a dos gestos, das ações. Mas, é claro, isso exige postura de gente madura, responsável, gente rara, raríssima. As conversas de pai e mãe são sonoridades inesquecíveis aos ouvidos das crianças, elas crescem, tornam-se o que quiserem mas lá no fundo, no fundo, sempre que precisarem de um juízo de valor valer-se-ão dos primeiros estímulos sonoros que ouviram dos pais. Impossível escapar.
Diante disso, fica fácil entender das razões de por que há tantas crianças e jovens encrencados: pais, pais por metade, pais apenas biológicos. Maioria escandalosa que anda por aí.
Ah, a professora tá com cara de p... Pimenta nos beiços ou um belo tapa. Nunca mais vais dizer bobagem, piá bobo!

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