Bom, tudo tem um fim. Foi uma experiência incrível. Agradeço a todos que acompanharam esta jornada. Este blog também foi da Michele Iracet, da Helena Kempf, do Paulo Germano e de todo o pessoal da zerohora.com. Saudações antárticas.
Quem teme o Cabo Horn é porque não conhece o mar de Capão. Passei a viagem lendo histórias de naufrágios - mais de 800 -, ouvindo falar das fracassadas travessias de um oceano a outro e tentando decorar um poema que alerta os navegantes:
Soy el albatroz que te espera
En el final del mundo.
Soy el alma olvidada de los marineros muertos
Que cruzaron el Cabo de Hornos
Desde todos los mares de la tierra.
Pois se olhasse o temido Cabo Horn, agora, o salva-vidas do Baronda estenderia a bandeira verde em sua guarita. Até uma piscina com ondas é mais perigosa, francamente.
Verdade que, no último dia de nossa jornada, o Nordnorge passou a leste do cabo, apressado para chegar à argentina Ushuaia. Mas o horizonte não dava sinais de que o mar teria outro comportamento que não aquele subjugado, complacente e decepcionante com o qual nos recebeu na América do Sul.
A jornada de 18 dias do Nordnorge pelo extremo sul do planeta terminará com
um jantar com o capitão no qual servirão coisas francesas impronunciáveis. Às 8h de amanhã, todos colocarão definitivamente o pé para fora do navio, afoitos para chegar logo em casa, reunir amigos em torno de uma pilha de fotografias e dizer:
- Meu, a Antártica, nem te conto.
1) Não é necessário visto nem passaporte. Os pingüins deixam entrar qualquer um
2) Está mais próxima do Rio Grande do Sul do que Roraima
3) Você sempre será bem-vindo na estação brasileira, onde poderá suspirar: "Ai, que saudade do Brasil"
4) É um continente sobre o qual o homem (e algumas mulheres) não tem muita influência. Quem manda é o clima.
5) Só lá se pode tomar uísque 12 anos com gelo de 500 anos
6) Não é preciso levar isopor para a cerveja
7) Você pode levar a camisa do seu time e tirar uma foto, como todo mundo faz
8) Você ficará tão íntimo das histórias de Ernest Shackleton que o chamará
apenas de Shack no fim da viagem
9) É o local mais importante do planeta para pesquisar as mudanças climáticas, já que o gelo que caiu há 500 anos, levando com ele uma amostra da atmosfera, continua por ali. Isso se não tiver sido tomado com uísque
10) Você vai sentir falta do Brasil. E quando voltar ao Brasil, vai sentir falta da Antártica. Para sempre.
Foto: Marcelo Fleury |
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América do Sul, cadê você, minha filha?
Quem foi criança entre o fim da década de 70 e o início da década de 80 deverá ter boas recordações ao ler a letra da canção abaixo. Tinha vontade de pedir para o nosso capitão viking tocá-la nos alto-falantes. Quem me lembrou da música foi o André, lá do Rio.
Quero ver se alguém se lembra dos autores:
Bom dia, pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca
Quando você caminha
Parece o Chacrinha
Lelé da caixola
E um velho senhor
Que foi meu professor
No meu tempo de escola
Pingüim, meu amigo
Não zangue comigo
Nem perca a estribeira
Não pergunte por quê
Mas todos põem você
Em cima da geladeira
Foto: Marcelo Fleury |
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A TV de plasma instalada no bar do quarto andar — que virou o quartel-general dos jornalistas latino-americanos durante esta viagem — indica: Cabo Horn à frente.
Latitude: 57º S. Ainda faz frio. Daqui a instantes, o Nordnorge atravessará uma área onde o oceano sempre se levanta.
É que passaremos subitamente de uma zona onde a profundidade chega a 3 mil metros para outra de apenas 100 metros. Solidárias, as ondas costumam acompanhar a subida repentina do relevo submarino.
Coisa mais linda de se ver, dizem.
Foto: Marcelo Fleury |
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Este seria o lugar onde o Leonardo DiCaprio olharia o marzão sem fim e diria:
— Acho que já vejo a América do Sul. Bem pequenininha, mas tá lá.
E então agarria o mastro da ponta, subiria na proa e gritaria:
— Sou o rei do mundo, êêêê!!!
E cairia na água, sem que o capitão viking desse falta. E por falar em falta, falta pouco.
Vocês podem não acreditar, mas li todos os comentários postados neste blog. Não respondi porque a internet é muito lenta e acabei me concentrando em enviar os posts com as fotos. Mas percebi que muitas pessoas têm curiosidade em saber como se faz uma viagem como esta para a Antártica. Então aí vai um serviço de utilidade pública:
- O navio que ora singra a Passagem Drake, dando leves chacoalhadas, se chama MS Nordnorge. Pertence à empresa norueguesa Hurtigruten. Esta foi a primeira viagem à Antártica da temporada, mas o Nordnorge fará mais umas 10 até março que vem. Chegaremos a Ushuaia amanhã de manhã, e à noite o navio já parte novamente, com outros passageiros, para a Península Antártica.
- Quem quiser participar de uma viagem dessas, deve trazer protetor solar, protetor labial (esse eu esqueci), calça impermeável, ceroulão , óculos escuros e luvas. A jaqueta, eles fornecem no navio. Assim como as botas de borracha, que você usará apenas nas descidas.
- Alguns desembarques acontecem direto no gelo. Outros em praias. Por isso, não perca o humor se uma água geladinha entrar na bota, enfiltrar-se na meia e congelar seus dedinhos. Faz parte do espetáculo.
- Há mil outras maneiras de viajar à Antártica, além de em transatlânticos como este. Navios russos, menores, também oferecem a viagem e dezenas de veleiros baseados em Ushuaia levam grupos menores de turistas. Empresas especializadas em aventuras polares também levam aventureiros ao pólo sul. Elas oferecem vôos até 80º de latitude Sul, ou 89º, e você caminha o resto até os 90º.
- A Antártica não é de ninguém e isso é o mais fascinante. Não é necessário passaporte, mas é bom trazê-lo para carimbá-lo nas bases por onde passar.
- Os brasileiros ainda não descobriram o turismo antártico. No Nordnorge, apenas 3,5% dos passageiros são brasileiros - contando jornalistas convidados e o casal Klink. Os americanos são a maioria. Depois vêm os alemães e os britânicos, pela ordem.
Estamos próximos do fim. Mas calma que tem mais. Se eu apertei o botão certo na câmera que a RBS TV me emprestou, pode ter coisa que sirva para o Teledomingo.
Ainda não será neste domingo, que o Raul Ferreira terá de olhar muitas e muitas imagens de pingüins balançando as asinhas, até achar uma com foco.
Mas quem sabe para o próximo. Como diria o Didi, aguarde e confie.
Diós mio, o que fiz com a minha cabine? Fui perceber agora, quando disseram que nossas malas devem estar para fora do quarto no início da noite. Tive dificuldades de achar minha mala embaixo das Shag Rocks, como passei a chamar as montanhas de roupas sujas e cabos de câmeras que já nem sei para que servem. Hoje será um dia difícil. Saudades da Melissa.
Bom dia, marujos. Avançamos bem esta noite. Já nos aproximamos do Cabo Horn, o temido Cabo Horn, última visão de terra para centenas de navegadores de outrora. Também já cruzamos de volta a Convergência Antártica. Vocês sabem o que isso significa, não?
Sim, estamos no Oceano Atântico, o velho e bom Oceano Atlântico. O mesmo que banha Capão. Tempo bom por aqui e mar incrivelmente calmo. Esse Drake não é de nada.
Foto: Marcelo Fleury |
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A Antártica vai sumindo à popa do Nordnorge.
Deixamos as Shetlands do Sul para trás sem tempo de dizer bye, bye, porque uma grande onda — a Gleci — deu uma bela chacoalhada no Nordnorge, lembrando aos passageiros que navegamos agora pela temida Passagem de Drake.
E ninguém passa impune pelo Drake. Peguem seus dramins.
Foto: Marcelo Fleury |
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Nosso capitão viking é polivalente.
Houve uma festinha filipina a bordo agora à noite e ele prontamente largou seu joystick na cabine de comando para mostrar sua habilidade viking no teclado eletrônico.
Pobre teclado eletrônico, quase quebrou-se ao meio.
Foi tão aplaudido nosso capitão, que resolveu tocar mais um pouco, enquanto o Nordnorge ia raspando a tinta nos icebergs.
Foto: Marcelo Fleury |
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Existe uma máxima que diz: uma vez na Antártica, você ficará preso a ela para sempre.
Algo assim como o Sarandi, dizem.
Foto: Marcelo Fleury |
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Carácoles, estou na Antártica, pensei hoje, no 16º dia de viagem. Já estou na Antártica desde o final da tarde de sábado, mas só agora pensei: "Carácoles, a Antártica".
Aproveitei para afundar os dois pés na neve fofa enquanto caminhava sozinho, montanha abaixo, montanha acima, sempre pensando: "Carácoles...".
Pelo blog ou pelo jornal, os leitores de Zero Hora acompanham uma viagem ao continente mais frio do planeta. A bordo do navio norueguês MS Nordnorge, o repórter Marcelo Fleury, 29 anos, descreve em detalhes uma jornada de 18 dias pelo Atlântico Sul, passando pelas Ilhas Malvinas (Falklands), Geórgia do Sul e Antártica. Veja a galeria de fotos do blog Rumo Sul

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