Instalação na Bienal: árvore de ponta-cabeça e música absurdaFoto: Daniel Marenco |
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Imagina um gurizão chapado de heroína, em pânico, correndo da polícia — ou tentando correr, já que ele tá chapado de heroína —, e aí aparece um menestrel daqueles da Idade Média, saltitando e cantando pela floresta encantada, e depois um mendigo cego é atropelado por um Fusca preto, e o chapado assume que é gay, o menestrel vira rapper, o mendigo vira Fusca, socorro!!
Não entendeu nada? Esse é o espírito. Um dos maiores absurdos musicais dos últimos anos ocorre no Armazém A5 do Cais do Porto, em Porto Alegre, em uma instalação da 7ª Bienal do Mercosul, que se estende até 29 de novembro.
Trata-se de uma árvore de ponta-cabeça, tão horrível quanto atrativa, de onde pendem 24 fones de ouvido. Em cada fone ouve-se uma música, e todas as músicas misturam uma bizarrice medonha com uma sensibilidade fora de série. Uma delas, da desconhecida cantora Kiss Tangerina, analisa “o sangue na fratura exposta da canela pobre”. Um tanto asqueroso, de fato, mas o troço é bonito para dedéu.
Bom, aí o ouvinte troca de fone e vem uma banda que ninguém sabe o nome — e isso é sério, nem a produção, nem os artistas, ninguém sabe o nome do troço. Uma guitarreira agressiva esmurra a tua orelha, num clima de tensão remetendo à mais pesada de todas as drogas, pânico completo, depois medo e fúria e berros e um ódio contra tudo, até que o vocalista introduz o refrão: “Porque eu sou hômi / Eu sou bem hômi” Estranho. E aí NINGUÉM imaginaria que o próximo verso seria isso aqui: “Eu gosto de hômi”. Que coisa.
A instalação Ao Contrário da Orientação Natural — nome muito apropriado, aliás — é uma criação dos artistas chilenos Rodrigo Vergara e José Pablo Díaz, do coletivo Hoffmann’s House. O grande lance é que eles selecionaram, para participar da obra, apenas bandas de Porto Alegre, a maioria tão desconhecida e obscura que sequer tem MySpace.
A mais presente no circuito alternativo é a Musical Amizade — que, em clima de Idade Média, fala sobre um judeuzinho inconformado com a própria circuncisão, um drama muito sério. Quem também entrou no projeto foi o publicitário Gabriel Gomes, 25 anos:
— Minha namorada me avisou dessa seleção, mandei uma gravação que fiz em casa e me chamaram.
A proposta dos chilenos é montar uma estrutura genealógica do que rola de novo nos países em que eles apresentam a obra. Mas gostaram tanto do pessoal de Porto Alegre que, no início do ano que vem, apresentarão os artistas daqui em Nova York. Cá entre nós: se é necessária uma dupla de chilenos para descobrir tanta coisa boa debaixo do nosso nariz, alguma coisa está muito errada.
Toda a lama e todo o glamour do mundo alternativo estão Blog do Remix, a versão online da coluna Remix, publicada todas as quintas-feiras no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Aqui você encontra as últimas sobre música e cultura alternativa de Porto Alegre e do mundo. Leia os termos e Carregando...
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