Li segunda-feira na Folha de S. Paulo:
“A venda de veículos novos no Brasil pode atingir patamar recorde no mês de junho. Ao todo, no mês, foram vendidas 300.204 unidades. O número de licenciamentos cresceu 16,8% frente ao mês anterior e 14,7% na comparação com junho do ano passado.”
Li dias atrás no Santa de Papel:
“Comerciantes reagem contra instalação de ciclofaixa na Almirante Barroso”.
Fui alfabetizado em escola pública, o que me desautoriza a sair interpretando textos por aí, mas ambas notícias, não sei se concordam, só deixam a nu o risco a que está submetida a mobilidade no futuro. A equação me parece cristalina como a água dos ribeirões da Nova Rússia: o tratamento extremamente amável dado à indústria automobilística, somado à má-vontade contra formas alternativas de transporte, é igual a cidades engarrafadas para todo e sempre.
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Não sou dado a discursos de bicho-grilo, até porque Blumenau, com suas calçadas miseráveis, é uma das cidades mais hostis a pedestres que eu conheço. E falo isto com a autoridade de um corredor - lento como o trânsito da Beira-Rio à tardinha, pesado como o tráfego da BR-470, mas ainda assim um corredor.
Só acho que não podemos deixar as urgências comerciais, ainda que legítimas, minar o planejamento urbano de longo prazo. Se somos tão benevolentes com os fabricantes de automóveis em apuros, talvez seja o caso de prevermos abatimento de IPTU, ICMS e outros incentivos fiscais a comerciantes instalados em ruas com ciclofaixas. Dependendo da generosidade desta renúncia de impostos, até clientes sacrificados pela falta de vagas de estacionamento poderiam ser, por assim dizer, indenizados com preços mais baixos dos produtos.
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Bem, peço que não me tenham por ingênuo. Lanço estas ideias num esforço cívico em favor do debate das ciclofaixas e de toda e qualquer alternativa ao carro. Preocupa-me que o fator político se sobreponha ao técnico numa questão visceralmente estratégica, como já aconteceu na Benjamim Constant.
Levante o dedo quem consegue vaga para estacionar ali? É mais fácil ler James Joyce do que parar o carro na principal via da Escola Agrícola. Porém, a faixa para bicicletas não sai por pressão do comércio local.
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Por debates mal enfrentados como este é que as ciclofaixas de Blumenau, por muito tempo ainda, seguirão ligando o nada ao lugar-nenhum.
Texto que deveria ter sido publicado assim na página 19 do Santa de Papel de hoje, mas, por uma crueldade espacial, não foi
Com humor e sem moralismo, o editor executivo e colunista da penúltima página do Santa às quartas-feiras, Fabrício Cardoso, mostra como pequenos gestos diários, muitas vezes automáticos, dizem muito sobre o povo que somos. Fale com o blogueiro
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