Duvidou do que eu disse sobre o show do Musical Amizade? Então arrasta a Tati Quebra Barraco que existe dentro de você até o Porão do Beco neste domingo, às 18h, e veja com seus próprios olhos. Além deles, Damn Laser Vampires, Marcelo Birck e Grosseria participam da Festa da Gatorra, uma homenagem a Tony da Gatorra - o homem que saltou de Esteio para as páginas do New Musical Express! Prometi no Remix do Segundo Caderno de hoje uma apresentação sobre o Tony da Gatorra para quem nunca ouviu falar do figura. E acho que a melhor maneira de entender quem é esse maluco é lendo uma reportagem feita pelo colega-guru Renato Mendonça, no ano passado, com excelentes fotos de Julio Cordeiro, feitas na casa do cara (acima). O herói da gatorra por RENATO MENDONÇA A data exata ainda não está confirmada, mas alguns shows da nova turnê da banda escocesa Franz Ferdinand na Europa, no segundo semestre, poderão ter um gaúcho na abertura. Será a primeira vez que Tony da Gatorra sairá do Brasil, diretamente de sua casa de dois quartos, em Esteio, onde só se chega depois de andar por uma rua de terra batida. Até 2004, Tony era só um cabeludo com jeitão e medalhões de hippie que circulava pela Esquina Democrática e por bares da Grande Porto Alegre. Depois, sua vida mudou: com um CD demo, foi apresentado por um radialista gaúcho a um produtor musical que o encaminhou para a gravadora paulista Slag. Assinou contrato, fez shows em Rio, São Paulo, Recife, virou cult na noite paulistana, criou um blog (www.tonydagatorra.blogspot.com) e uma das gatorras que inventou está correndo mundo nas mãos da badalada vocalista Luísa Lovefoxxx, do grupo Cansei de Ser Sexy, que Tony conheceu na boemia. O guitarrista Nick McCarthy, do Franz Ferdinand, descobriu o instrumento quando sua banda, uma das mais elogiadas do rock britânico atual, fez show em São Paulo, em 2006. O escocês encomendou uma gatorra por R$ 1,5 mil e sugeriu o nome de Tony para abrir os shows do grupo. A casa de Tony ainda nem tem escritura, mas fala muito de seu dono. Uma bandeira do Brasil tremula sobre a porta de entrada, ao lado de um cartaz que ataca a ganância dos banqueiros. Nas paredes, grafites feitos pelo próprio Antonio Carlos Correia de Souza, 55 anos, pregam a paz e vislumbram "Uma luz no fim do túnel ao nosso alcance". Tony, que se preocupou em comprar refrigerantes e cerveja para receber a reportagem, consegue ser, ao mesmo tempo, um sujeito de paz e de guerra. Quando fala de si mesmo, é paz. E dor e luta. Lembra que nasceu em Cachoeira do Sul, que sente falta da mãe, morta quando ele tinha três anos, que o pai não tinha emprego fixo, que ele e os sete irmãos às vezes tinham apenas farinha cozida para comer e que eram obrigados a raspar a cabeça para evitar a visita do piolho. Lembra que teve a ajuda do então governador Brizola para estudar em um colégio interno de padres, que depois foi office-boy em Porto Alegre, trabalhou na indústria mecânica e, em 1978, diplomou-se em eletrônica, por correspondência. Ainda hoje, ganha a vida consertando televisores e outros aparelhos. Quando fala do que está fora, é guerra aberta. As mazelas sociais do Brasil são sua maior preocupação: - Não faço música para dançar, mas para conscientizar. É assim que Tony descreve seu som tosco e cru, já batizado de "póspunk outsider" nos sites da Trama Virtual e My Space. O clássico Assassino, com 2,5 mil downloads no site www.myspace.com/tonydagatorra, traz versos como "Assassino! Não seja um / A vida é sagrada, seu corpo é um templo, não pode violar!". Outros temas são os sem-terra e a injustiça social (ouça em www.tramavirtual.com.br/artista.jsp?id=16832). Fã de jovem guarda, Led Zeppelin, Beatles, Jimi Hendrix, Raul Seixas e Black Sabbath, Tony, que tem apenas o primário completo e nenhuma formação musical, conta que seu despertar como compositor e instrumentista veio em 1998, quando construiu a primeira gatorra. - Depois do trabalho normal, passava quatro a cinco horas de madrugada tentando fazer funcionar a gatorra. Mas nem todo mundo entendia. Minha segunda mulher se separou de mim quando vendi a moto para divulgar meu primeiro CD (Só Protesto, do selo paulista Peligro). Ele diz que 2007 deve ser ótimo. Além da encomenda de quatro gatorras e dos shows na Europa, deve ser lançado nos próximos meses seu segundo CD, Novos Pensamentos, com vocais de Lovefoxxx em duas faixas. O primeiro DVD também deve chegar neste ano. A luz no fim do túnel está cada vez mais ao alcance de Tony da Gatorra.
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