A elegância na saída da Igreja de Santa Maria (RS)Foto: Reprodução |
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Abaixo você pode ler o relato completo de Glênio Nicola Póvoas, pesquisador e professor de cinema, sobre a descoberta do documentário mais antigo do Rio Grande do Sul, descoberto no Acervo da Leopoldis-Som e recuperado pela RBS TV. O Teledomingo apresentou uma reportagem, não deixe de ver as imagens em movimento mais antigas do Estado.
>>>>Veja algumas imagens deste documentário
Aqui está o relado de Glênio Póvoas: "Identificamos no Acervo da Leopoldis-Som, fragmento filmado por Eduardo Hirtz em Santa Maria, em 5 de dezembro de 1909. Numa listagem deste Acervo havia a informação no item INFLAMÁVEIS, de lata "A) Festa Igreja – Santa Maria – 191?". O rolo que estava nesta lata foi telecinado (filme para vídeo) dentro do projeto da RBS TV de recuperação do Acervo da Leopoldis-Som.
Como este filme de Hirtz foi parar no Acervo de Leopoldis? Muitas poderiam ser as razões: compra, presente, troca, empréstimo, descuido. Na filmografia de Eduardo Hirtz há um filme com título incerto que remete ao conteúdo desta lata do Acervo da Leopoldis. Quando de nossa pesquisa no Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria, anotamos o seguinte:
“Esteve nesta cidade um dos proprietários do Recreio sr. Eduardo Hirtz que veio apanhar vistas das festas da sagração da matriz para cinematografar, tendo apanhado uma da saída do povo da igreja por ocasião da festa, uma da quermesse outra da procissão e diversas outras. Também tirou uma vista da Montanha Russa com a decida da barca. Aquele empresário acompanhado de seu representante aqui sr. Affonso Nascimento visitaram a nossa redação”. (A Tribuna, Santa Maria, 8 dez 1909)
Cerca de um mês depois, os jornais santa-marienses falam que Eduardo Hirtz veio apresentar o filme no Recreio Ideal, em 20 de janeiro de 1910. Infelizmente os jornais pesquisados não acusam um título, mas o comentarista escreve "fita das festas da Igreja".
“Com enchente à cunha funcionou quinta-feira o Recreio Ideal, sendo exibidas belíssimas fitas. A fita das festas da Igreja desta cidade e da Montanha Russa é magnífica e foi muito apreciada. Apareceu também um bom retrato do padre Caetano Pagliuca, que foi muito aplaudido. Hoje e amanhã realizar-se-ão novos espetáculos”. (A Tribuna, 22 jan 1910)
A publicação Guia de filmes produzidos no Brasil entre 1827-1910 (Rio de Janeiro, Embrafilme, 1985) indexou este filme em 1910 com o seguinte título: Cerimônias da inauguração da catedral em Santa Maria. Mas os periódicos da época jamais falam em catedral e sim em sagração da igreja.
Ao assistirmos a fita com as imagens da lata do Acervo da Leopoldis, tivemos a grata satisfação de perceber um crédito inicial, onde lê-se o seguinte: Cerimônias e festa da igreja em S. Maria - Estado RS (ainda não dá para ler a totalidade do título porque as quatro bordas do fotograma estão cortadas no telecine, uma vez que o formato de tela do silencioso é diferente). No crédito, "Cerimônias" está grafado como "Ceremônias" (com e).
Pelo título (quase) finalmente fixado e pelo conteúdo das imagens, tudo indica então que estamos diante do filme de Hirtz e que estas imagens passam a ser as imagens gaúchas mais antigas preservadas, referentes ao dia 5 de dezembro de 1909, um domingo, em frente à igreja de Santa Maria, localizada na Av. Rio Branco. A sagração foi realizada pelo bispo da diocese do Rio Grande do Sul, d. Claudio José Gonçalves Ponce de Leão (1841-1924) que aparece na saída filmada. Ele só será o primeiro arcebispo de Porto Alegre a partir de 15 de agosto de 1910.
A duração das imagens preservadas é de 3 minutos e 43 segundos e corresponde a um fragmento, com as vistas "da saída da missa" seguidas por vistas de movimentação de pessoas em torno da Estação de Santa Maria. Outras vistas que o jornal menciona como "uma da quermesse outra da procissão" assim como "uma vista da Montanha Russa com a decida da barca", não estão no filme localizado. Mas o jornal menciona também "diversas outras", e aí poderíamos incluir as vistas da movimentação em torno da Estação, que registra um trem parado com circulação de pessoas. Um menino olha para a câmera que está posicionada na plataforma da Estação em ângulo muito semelhante aos primeiros filmes dos Irmãos Lumière que registraram diversas "chegadas de trem". "Chegadas de trem" é um dos primeiros "gêneros" específicos do Cinema dos Primeiros Tempos, expressão da historiografia de cinema que considera 1894-5 a 1906-8 como o primeiro período não-narrativo, e 1906-8 a 1913-15 como o segundo período de crescente narrativização. Saída de missa e chegada de trem e estão em sintonia com os temas explorados neste período.
Eduardo Hirtz, Este pioneiro da cinematografia gaúcha nasceu na Alemanha em 7 de abril de 1878 e faleceu em Porto Alegre, em 23 de fevereiro de 1951.
Em Porto Alegre, em 20 de maio de 1908, inaugura a sala Recreio Ideal na Rua da Praia.
Inicia na produção com O ranchinho do sertão, curta-metragem com Carlos Cavaco, baseado no poema "Ranchinho de palha", de Lobo da Costa. Lançado em 1909 e provavelmente a única ficção de sua filmografia. Todo o restante de sua produção é de atualidades como eram chamados os pequenos "documenários" apresentados como complementos.
Ele vai ampliando seu circuito. Sócio com os irmãos Nicolau e Umberto Petrelli do Cine-theatro Coliseu, inaugurado em dezembro de 1910. Com os irmãos Grecco e Petersen constrói o Cine-theatro Apollo, inaugurado em 1911. E o Cine-theatro Thalia, em 1915.
Eduardo Hirtz produziu filmes curtos (provavelmente não deveriam passar de 10 minutos de projeção) entre 1909 e 1912, exatamente no período que a historiografia clássica cunhou de Bela Época do Cinema Brasileiro - em que o produtor detinha o controle do sistema de circulação do filme: produção-distribuição-exibição. Eduardo Hirtz possuía circuito de salas em Porto Alegre e no interior do Rio Grande do Sul.
No segundo semestre de 1912 produz o cinejornal Recreio Ideal-Jornal, com Emilio Guimarães como cinegrafista, tratando-se no Rio Grande do Sul da primeira investida sistemática nesta categoria. São produzidas 21 edições com estréia às sextas-feiras entre julho e dezembro; cumprindo exibições no interior, como em Rio Grande. Pelos conteúdos publicados na imprensa, o Recreio Ideal-Jornal registra a intensa atividade da cidade: matchs, corridas no prado, a Rua da Praia, festas religiosas, o Tiro Brasileiro, revista e desfile da Brigada e diversas festas. O período coincide com uma recessão no cinema brasileiro.
Consta que em 1915, indignado por ter perdido uma concorrência, reuniu seu arquivo num terreno baldio e ateou fogo. Mesmo assim, de sua produção, nos anos 70, seria localizado por Antonio Jesus Pfeil a atualidade Passeio da S. Recreio Juvenil em 8 de dezembro 1912 Porto Alegre (que teria escapado do fogo, porque estava em exibição em Santa Maria!).
Desde então, Passeio da S. Recreio Juvenil em 8 de dezembro 1912 Porto Alegre passa a ser o filme com as imagens gaúchas documentais mais antigas preservadas.
Sobre este filme, observa-se que em sua cartela-título está grafado exatamente o seguinte: Passeio da S. Recreio Juvenil em 8 de dezembro 1912 Porto Alegre. Não há dúvida de que o título deste filme deve assim ser grafado ou no máximo da maneira seguinte: Passeio da S[ociedade] Recreio Juvenil em 8 de dezembro 1912 Porto Alegre. No entanto, nas pesquisas conhecidas este filme vem sendo grafado como: Passeio da S. Recreio Juvenil ou Sociedade Recreio Juvenil ou Passeio da Sociedade Recreio Juvenil. O aspecto relevante é que todas as fontes eliminaram a segunda parte do título, referente à datação. Por que os pesquisadores agiram assim, encurtando o título? Tal procedimento parece denotar um desinteresse notório pela datação. Com a recuperação do título original pode-se ter outras leituras, como por exemplo: o título deveria ter a informação completa de seu conteúdo, encerrando toda a informação numa única cartela, inclusive do lugar onde aconteceu, porque seria exibido em outras cidades (escapou do fogo porque estava sendo exibido em Santa Maria).
A obra de Hirtz teima por reaparecer agora nestes fragmentos de Cerimônias e festa da igreja em S. Maria - Estado RS. Estes fragmentos passam a integrar uma galeria de imagens preciosas para o cinema brasileiro pois do período que estamos falando, segundo informações repassadas por Carlos Roberto de Souza, curador da Cinemateca Brasileira, este seria o quadro de preservação do nosso cinema até 1910:
1897
- Ancoradouro de pescadores na Baía da Guanabara (fotogramas)
1906
- Santos Dumont em Paris – 36m – 1min30seg
1909
- Chagas em Lassance – 8min30seg
- Reminiscências – 226m – 11min
1910
- Carnaval em Curitiba
- A despedida do 19º Batalhão Rio
- Fatos históricos do Tiro de Guerra 19 Rio Branco – 176m - 8min35seg
- Inauguração da Exposição de Animais no Posto Zootécnico – 160m – 7min45seg
- Visita do doutor Pedro de Toledo – 130m – 6min20seg
Os óculos do vovô, de Francisco Santos, realizado em Pelotas, em 1913, é considerado o filme de ficção brasileiro mais antigo preservado.
FILMOGRAFIA de Eduardo Hirtz:
1909:
O ranchinho do sertão. Eduardo Hirtz, cm;
Procissão de Corpus Christi. Eduardo Hirtz, cm, doc;
1910:
Combate simulado do Tiro Brasileiro em Canoas. Eduardo Hirtz, cm, doc;
Cerimônias e festa da igreja em S. Maria - Estado RS. Eduardo Hirtz, cm, doc;
1911:
Regatas realizadas pela Federação do Remo em Porto Alegre. Eduardo Hirtz, cm, doc;
1912:
A chegada do senador Pinheiro Machado. Eduardo Hirtz, cm, doc;
Cocheira Vitale. Eduardo Hirtz, cm, doc;
Companhia Telefônica Rio-Grandense. Eduardo Hirtz, cm, doc;
A inauguração da Garage Royal [em Porto Alegre]. Eduardo Hirtz, cm, doc;
Jardim zoológico do coronel Ganzo. Eduardo Hirtz, cm, doc;
Passeio da S. Recreio Juvenil em 8 de dezembro 1912 Porto Alegre. Eduardo Hirtz, cm, doc.
Recreio Ideal-Jornal. Eduardo Hirtz, cm, doc [21 edições jul-dez]".
Veja a reportagem do Teledomingo:
Aqui você fica sabendo antes sobre os bastidores e as produções do Núcleo de Especiais da RBS TV de Porto Alegre.
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