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Annemarie, tão linda, bem merecia algumas linhas só para ela, e muitas mais. Essas foram escritas para ela e são republicadas a pedido de sua irmã, a Michelle Saudades.
Como derrotar
a greve de sexo
Ela tinha 16 anos e usava minissaias de quatro dedos de comprimento. Quatro dedos, por Deus. Filha do diretor de futebol. Um diretor de futebol amigo, que levava todos os jogadores para peixadas em sua casa. Depois de cada jogo, uma peixada. Mesmo após as derrotas, peixada. Então, Annemarie brilhava. Annemarie, seu nominho. A maioria dos jogadores não conseguia pronunciá-lo.
— É Ani...marrri... — ensinava, condescendente e divertida, acrescentando, para aflição deles: — Tudo junto, com dois enes e iê.
Annemarie não participava das peixadas. Funcionava como satélite, circulando entre os grupos. Saía do quarto bem depois que todos já haviam se instalado. Quando fazia sua entrada, a sala silenciava. Os olhares dos jogadores lambiam suas pernas adolescentes, os peitos deles ficavam confrangidos de desejo, o ar se pejava de tensão. Annemarie percebia. E gostava. Os jogadores percebiam que ela percebia, viam isso no jeito coquete dela, na forma como sorria seu sorriso de promessas, no modo como se sentava numa e noutra poltrona, no hábito de puxar para baixo a pequena saia toda vez que levantava.
O problema é que as esposas dos jogadores também percebiam esse jogo de sedução. No começo, acharam graça. Uma menina, diziam, apenas uma menina. Mas, quando notaram que seus maridos estavam desejando realmente aquela menina, passaram a se preocupar. A princípio, nenhuma delas falou nada. Pelo menos não em público. Até que, um dia, durante um chá na casa da mulher do preparador físico, a mulher do centroavante desabafou:
— Nossos homens só pensam nessa vadiazinha.
Foi o bastante para a indignação explodir sobre a mesinha de centro. Xícaras tilintaram de revolta, a mulher do zagueiro central engoliu uma empada de palmito inteirinha, todas começaram a falar ao mesmo tempo, todas concordando, todas furiosas. De novo, foi a mulher do centroavante quem organizou a rebelião:
— Tenho uma idéia: não podemos evitar as peixadas na casa do diretor. Afinal, ele é o diretor. Mas podemos obrigá-los a nunca mais olhar para as pernas daquela percantinha.
As outras, que a ouviam em silêncio, voltaram a cacarejar: impossível!, de que jeito?, de que forma? A mulher do centroavante as calou com um gesto autoritário da mão.
— Com uma greve — sentenciou. — Uma greve de sexo. Enquanto um deles for flagrado olhando para as pernas daquela Madalena do primeiro grau, nenhuma de nós fará sexo com eles. Nenhuma! Concordam?
Entreolharam-se, admiradas. A mulher do centroavante era mesmo inteligente. Não admira que ele fosse o goleador do campeonato. Assim fizeram. Avisaram os maridos e namorados: se um deles olhasse para as pernas daquela Salomé infanto-juvenil, secura total.
— Neres de pitibiriba! — bradou a mulher do preparador físico, que era uma mulher mais antiga.
Os jogadores não levaram a ameaça a sério. Um erro. A greve foi desencadeada já na peixada seguinte. E continuou a cada olhar, dia após dia, semana após semana, jogo após jogo. Os mais carentes logo cederam, como o lateral-esquerdo Jones. Jones implorava:
— Eu não olho mais! Eu não olho mais!
Não adiantava. Sua mulher, de braços e pernas cruzados, repetia que ele só voltaria a desfrutar dela depois que TODOS parassem de olhar. Mas alguns eram mais renitentes. Entre eles justamente Eltonjonson, o centroavante, o marido da líder do movimento. Eltonjonson pregava:
— Se nós cedermos agora, teremos de ceder em tudo! Em tudo! Olhem para aquelas pernas de pêssego! Olhem em nome da nossa dignidade!
E alguns realmente olhavam. Olhavam e rosnavam em desafio às esposas rebeldes, deixando o diretor de futebol perplexo: mas o que estava acontecendo???
O que estava acontecendo era o rompimento dos frágeis liames que mantêm um grupo tão grande unido. Os jogadores já não se entendiam durante as peixadas e nem fora delas. Dentro de campo, a desunião começou a fazer seus efeitos nefandos: o time passou a perder. Perdeu uma, duas, cinco, nove partidas em seqüência. Encaminhava-se para a segunda divisão. Depois da décima derrota, o diretor reuniu o grupo no vestiário. Fechou-se com eles. Exigiu:
— O que está acontecendo???
Cabisbaixos, envergonhados, os jogadores não sabiam o que falar. Até que o centroavante Eltonjonson se levantou:
— Precisamos contar a ele.
Nenhum deles falou. Ninguém sequer levantou a cabeça. Então, Eltonjonson contou. Tragou o constrangimento e disse para o diretor que a filha dele, mais precisamente as pernas da filha dele, eram a causa da dissensão no grupo. O diretor ficou chocado. Sentiu vontade de socar cada um dos traidores. Eram seus convidados, e ficavam a cobiçar sua filhinha, seu nenê, sua princesinha! Alguns jogadores passaram a se desculpar, outros começaram a atirar a culpa nos joelhos de Annemarie, até que o centroavante interveio outra vez.
— Tenho uma idéia! — gritou, sorrindo.
E sua idéia foi brilhante e graças à sua idéia as peixadas voltaram a ser alegres e a greve das mulheres acabou e o time retomou o caminho luminoso das vitórias. Graças à sua idéia, o clube escapou da segunda divisão e o mundo de novo estava girando nos eixos da normalidade. E a idéia do centroavante foi simples como um biquinho no canto do gol, da simplicidade que só os gênios e os centroavantes são dotados: Annemarie passou a usar calças compridas. Não era à toa que Eltonjonson era centroavante.
David Coimbra nasceu em Porto Alegre há 46 anos. Depois de trabalhar em mais de 10 redações do sul do Brasil, hoje é editor executivo de Esportes e colunista de Zero Hora, além de comentarista da TVCOM.
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"É preciso ter cuidado ao conversar com o David, pois em tudo ele percebe uma situação que descreverá com o talento dos grandes contadores de histórias."
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"David Coimbra, o sátiro peralta dos torsos e tornozelos femininos."
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"O que mais me encanta no David é a capacidade de criar histórias a partir de retalhos do cotidiano, com textos cheios de malícia."
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