Conforme vocês puderam ler hoje no Segundo Caderno de Zero Hora, antecipamos um pouco do que você vai encontrar no livro Os Espiões, romance que Luis Fernando Verissimo deve lançar até o fim do ano por sua editora, a Objetiva. Como este já é o sexto romance de Verissimo, que, apesar das incursões nas narrativas longas em prosa, ainda é mais conhecido como cronista, resolvi fazer aqui para o blogue uma breve análise livro a livro da produção romanesca de Verissimo. Uma produção marcada, como nas crônicas, pelo humor, pelo texto leve de um mestre da coloquialidade (o que por escrito não é fácil) e pelo uso desbragado, pós-moderno, eu diria, de referências múltiplas e da própria literatura ou o ofício da escrita como tema.
O Jardim do Diabo (L&PM, 1988 - a edição atual é da Objetiva)
Com seu primeiro romance, Verissimo já estabelece as regras do jogo: uma trama na qual a experiência do narrador confunde ficção e realidade e a própria literatura é referência temática. Um escritor fracassado de romances de mistério é procurado por um investigador de polícia. O motivo é fantástico: uma mulher foi assassinada em um cenário e com um método idênticos aos descritos em um dos livros do escritor (e isso anos antes do filme Instinto Selvagem). Daí, se vê encrencado com uma trama de paranoia e fantasia tratada sem um pingo de reverência. Ainda hoje é uma das obras mais ousadas de Verissimo, quase um delírio PaulAuesteriano com humor.
Gula: o Clube dos Anjos (Objetiva, 1998)
Encomenda para uma coleção sobre os sete pecados capitais. Para falar de amizade e gastronomia, Verissimo parodia os mistérios policiais ao estilo Agatha Chistie com um grupo de convidados à mesa de jantar — e a subsequente morte de um deles. Em uma confraria de 10 amigos dedicados à boa mesa (que já viu dias melhores), os integrantes vão morrendo um a um após saborosos jantares oferecidos por seu mais novo integrante, o misterioso Lucídio. Verissimo confirma neste romance o estilo que lhe será recorrente: metalinguagem, a prosa leve do mestre da crônica e humor que vai da piada simples ao sofisticado uso de referências eruditas.
Borges e os Orangotangos Eternos (Companhia das Letras, 2000)
Escrito para uma série de policiais protagonizados por escritores famosos. Verissimo radicaliza aqui os elementos dos livros anteriores: narrador/escritor, erudição, paródia das fórmulas de gênero. Nos anos 1940, Vogelstein, um apagado tradutor, conhece Jorge Luís Borges em um congresso em Buenos Aires sobre Edgar Allan Poe. Cruzando esses elementos que remetem por si sós à literatura de misterio, Verissimo envolve Vogelstein em uma trama de assassinato e forças ocultas digna das publicadas na revista Mistério Magazine, da Editora Globo, de Porto Alegre, onde Vogelstein trabalha como tradutor de... Borges.
O Opositor (Objetiva, 2002)
Outra participação em uma série temática, desta vez dedicada aos dedos da mão. Encarregado do polegar, Verissimo cria mais uma vez uma paródia de trama de suspense e conspiração nonsense. O inusitado é o cenário: a Amazônia. Em um bar de Manaus, um jovem jornalista encontra Polaco, um bêbado gigantesco que lhe narra suas aventuras como Opositor, ou Apagador a serviço de uma misteriosa corporação que decide os destinos do mundo, formada por menos de duas dezenas de indivíduos que controlam a maior parte da riqueza mundial. Enredado pelas histórias do imenso bêbado, o jornalista se vê envolvido em um acontecimentos que parecem dar razão ao misterioso personagem.
A Décima Segunda Noite (Objetiva, 2007)
Mais uma participação em uma série, desta vez uma trilogia de livros que relê de maneira contemporânea comédias de Shakespeare. Inspirando-se em Noite de Reis, do bardo inglês, Verissimo cruza em volta de um salão de beleza em Paris uma trama de casais trocados, disfarces, falsas identidades pessoais e sexuais e um narrador do Reino Animal: um papagaio que por influência de seu antigo dono, um intelectual exilado, abusa das citações eruditas.

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.

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