
Michael Jackson é o primeiro transracial da história. É claro que houve, antes dele, negros modificando a aparência a fim de tornaram-se brancos. Houve, há e haverá, enquanto existir um sistema cultural que acredite em raças e postule a superioridade de uma em relação às outras. Antes do avanço das técnicas cirúrgicas e cosméticas, as modificações eram contudo menos drásticas, pelo menos do ponto de vista dos resultados: passava-se a ferro o cabelo, para alisá-lo, cobria-se o rosto de pó-de-arroz, clareavam-se os pêlos. Para ficarmos no mundo do showbiz norte-americano, Little Richard, na década de 1950, passava pó-de-arroz, desenhava as sobrancelhas e usava batom. Pouco antes de Michael, sua madrinha de carreira artística — e depois desafeto —, Diana Ross, valendo-se já dos avanços na medicina estética, fez plástica para afinar o nariz. Hoje assistimos, sem qualquer assombro, negras louras como Mariah Carey e Beyoncé Knowles: louras de cabelo liso e traços finos.
Mas o sentido, e, consequentemente, o resultado dessas transformações é uma espécie de beleza negra com traços brancos, o que significa dizer: uma negritude atenuada. Aqui se revela uma hipocrisia gritante do multiculturalismo contemporâneo: dos desenhos animados japoneses, em que os heróis são orientais de olhos enormes, passando pela Miss Universo 2006, a porto-riquenha Zuleyka Rivera, até a estrela chinesa Zhang Zhyi (de O tigre e o dragão e O clã das adagas voadoras) o que se nota é que a beleza de todas as "raças" é admitida desde que seja mediada por traços ocidentais. Em outras palavras, isso quer dizer que o japonês será tanto mais bonito quanto mais ocidental e menos japonês ele for, o negro, idem, o chinês, também etc. Em suma, o multiculturalismo estético é, em sentido profundo, a negação da diversidade das culturas. Michael Jackson, entretanto, não é um negro que quis dar-se traços brancos, a fim de chegar a uma economia ideal da beleza negra suavizada. Suas intervenções, cirúrgicas e cosmetológicas, se tornaram peculiares por seu caráter infinito, processo que o conduziu para além da normatividade estética. Michael não quer se adequar a uma padrão. Ele não é, segundo o modelo da cultura norte-americana, bonito.
Seu corpo rumou para além de qualquer "raça" (ele já não é negro, nem branco, nem mulato), para além do sexo, da idade, etc. O transracialismo de Michael Jackson é singular. Nele, o prefiso "trans" não se dirige a uma forma reconhecível, ideologicamente adequada, mas a um work in progress em que, no limite, é a própria categoria de humano que está em jogo.
Por sua própria estranheza, é esperado que um transracialismo provoque incômodo. Mas a reação a ele por parte de muitos norte-americanos mais se assemelha a um massacre. É chamado, agressivamente, de Wacko Jacko (algo como "esquisitão", "bizarro"), há inúmeros sites na internet ridicularizando suas metamorfoses e seu comportamento idiossincrático, foi acusado pela primeira vez, em 1993, de pedofilia, e foi novamente acusado, em 2003, por diversos crimes, todos envolvendo abuso sexual de crianças. Em 1993, houve um acordo extra-judicial com a família do acusador - os valores nunca foram revelados - que livrou o cantor de um processo. Em 2003, como costuma ocorre na cultura norte-americana, que dramatiza suas questões fundamentais judicialmente (Margo Jefferson, do The New York Times, observa com perspicácia que o advogado de defesa, famoso e dispendioso, é tão típico da mitologia norte-americana quanto o caubói), Michael se viu envolvido numa teia de dez acusações e um promotor apelidado de "cachorro louco", tendo sua vida privada transformada em um espetáculo público comparável a uma malhação do judas em escala mundial. Ao fim do processo, em 2005, foi inocentado de todas as acusações.
Tenha sido feita ou não Justiça, importa notar que não há dúvidas quanto ao fato de que Michael Jackson foi julgado, não apenas pelos supostos crimes de pedofilia, mas por seu comportamento como um todo. Por seu gênero indefinido, nem homem nem mulher, por sua sexualidade incompreensível (não se sabe por que meios ele teve seus filhos, nem mesmo se são de fato seus, já que são todos brancos: e, quando perguntado, na famosa entrevista entrevista de 1993 a Oprah Winfrey, se era virgem, recusou-se a responder, preferindo declarar, de modo elusivo, que é um "cavalheiro"), por sua reclusão radical, por seus complexos infantis, por morar num parque de diversões etc. etc. Assim, a suposta pedofilia foi ao mesmo tempo uma acusação e um pretexto, um processo e uma sentença, uma vingança e uma catarse coletiva. Mas por que tamanho ódio a Michael Jackson? Afinal, trata-se de um gênio indisputável. Ele fundiu a disco music com o soul e o rock; inventou uma assinatura corporal e criou o Moonwalk, um dos passos mais célebres, senão o mais célebre, do mundo; revolucionou a linguagem do videoclipe; detém vários recordes, entre eles o de disco mais vendido da história (Thriller, 50 milhões de cópias, aproximadamente).
O trecho acima é de um ensaio chamado O Comedor de Criancinhas, incluído na coletânea Banalogias (Editora Objetiva). O livro reúne 26 artigos escritos pelo filósofo e colunista de imprensa Francisco Bosco, tendo como modelo assumido as Mitologias de Roland Barthes, nas quais o francês iluminava aspectos do cotidiano buscando as novas mitologias cotidianas. Os textos dissertam sobre prostituição, sobre a ontologia do "golaço", a magreza como signo no rock'n'roll, a tatuagem como uma segunda nudez sobre a pele e a transformação gradativa de Michael Jackson em um ser além do humano — algo que Bosco pensa como uma resposta ainda que inconsciente ao racismo intrínseco da sociedade americana, o que lhe valeu o ódio dessa mesma sociedade cuja cultura Michael elevou
Para quem quiser também se aprofundar na literatura disponível sobre o fenômeno cultural Michael Jackson, há um livro lançado em tradução em 2006, escrito pela jornalista e crítica de teatro do The New York Times Margo Jefferson.(o estudo citado por Bosco no texto aí de cima. Em Para entender Michael Jackson: ideias contemporâneas (Rocco, 124 páginas), ela discute a atração da multidão pelo exótico, por meio da análise da trajetória de ascensão e decadência de Jackson como fenômeno pop. Escorada em pesquisas e trabalho re reportagem, ela ainda debate a necessidade que o público americano tem de transformar um artista em assunto mais pelas excentricidades de seu comportamento do que por sua obra.

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.
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