Começou com o caso de um livro coletivo de quadrinhos, Dez na Área, um Na Banheira e Ninguém no Gol, que foi denunciado como impróprio para a faixa etária a que se dirigia na escola em que havia sido indicado como leitura complementar. A história do Alan, principalmente (que, pelo que me lembro, era muito engraçada) foi a que mais provocou celeuma, pelo alto número de palavrões e expressões de baixo calão (que não surpreende ninguém que conheça a obra do Alan, diga-se).
Hoje as baterias da indignação foram voltadas contra o escritor Joca Reiners Terron, autor de uns poemas considerados um tanto pesados incluídos na coletânea Poesia do Dia, da Ática, organizada por Leandro Sarmatz. Enquanto isso, em Santa Catarina, a Secretaria de Educação mandou recolher 130 mil exemplares de Aventuras Provisórias, romance publicado nos anos 1980 pelo Cristóvão Tezza, hoje um dos autores mais premiados do Brasil depois da recepção bombástica que teve o seu romance de 2007 O Filho Eterno. A justificativa é que a narrativa seria imprópria para adolescentes por conta de "linguagem chula" e porque o "sexo era descrito de maneira vulgar".
A questão abre tantas possibilidades de debate que a gente poderia ficar aqui até amanhã, então vou pincelar só alguns deles em tópicos, abrindo a discussão para a caixa de comentários.
* O primeiro é que a escola faliu no Brasil inteiro, e todo mundo se sente constrangido de dizer isso com todas as letras, mas isso não muda o fato. Os três casos evidenciam um problema brutal de descaso com o ensino de literatura no Brasil. Descaso mesmo, porque não estou ainda comentando o mérito de se os livros eram ou não adequados para o público a que se destinavam, mas sim em algo que tangencia nosso post anterior sobre o ensino da literatura no Brasil. As pessoas reclamam que os alunos não leem, mas parece claro em tantos episódios continuados que as escolas estão comprando livros para seus alunos sem que os próprios professores, diretores e membros de conselhos pedagógicos os leiam — aí fica difícil.
* O segundo é que, no meu ponto de vista completamente leigo em pedagogia, os três casos parecem ter sido recebidos com certo alarme — o quarto episódio, sobre um livro de Geografia com dois Paraguais, é cômico, mas esse eu considero mesmo grave, já que não dá para ensinar nada quando o material já vem errado. O livro do Joca, por outro lado, e o próprio autor o admite, não é para crianças de nove anos, é para adolescentes. Seus poemas são perturbadores, no sentido estético da coisa (sem aqui entrar no mérito), e, se ensinados para seu público correto, adolescentes, deveriam vir acompanhados de uma preparação em aula sobre as características da poesia e da prosa contemporâneas, seu uso intenso da ironia, do choque, da provocação. Uma linha poderia ser traçada até outras obras a seu modo provocadoras como a dos decadentistas, as Litanias de Satã de Baudelaire, os Cantos de Maldoror, de Lautreamont, e vindo até a extrapolação da estética do mal em coisas mais afins às referências da gurizada, como o cinema gore. Mas aí, é claro que dá trabalho. Se achar que não é para adolescentes, também, que não ache, isso também é parte da faculdade do juízo, mas que leia o diabo do livro antes, por favor.
* O caso do Tezza me parece ainda mais estranho... Achei que a gente vivia em uma sociedade um tanto mais aberta desde a época em que eu saí do colégio, e mesmo naquele tempo, sem internet, TV a Cabo e com o videocassete como um bem que não era acessível a todo mundo, a leitura mais interessada que toda a minha turma de 2º Grau teve durante aquele ano foi a de O Cortiço, e justamente porque havia cenas de sexo (lesbianismo, inclusive). Falando assim parece um tanto cru ou brutal porque qualquer obra resumida a seus componentes sensacionalistas assim parece. Na Bíblia há incesto irmão-irmã, incesto pai e filhas, velhos profetas pedindo a Deus para que um urso devore crianças, irmão passando a perna em irmão, irmão passando a perna em pai e por aí vai. Vamos falar de clássicos? A maior parte da grande ficção é feita dos sentimentos menos nobres do indivíduo, e ainda assim esses são os livros que todo mundo aponta de orelhada, sem ler, como aqueles que deveriam ser lidos. A primeira vez que li alguém se referir a uma mulher como "comível" foi no Capitães de Areia, do Jorge Amado, por exemplo. Vidas Secas, que também está nas leituras de Santa Catarina, tem a célebre cena da Cadela Baleia, com a qual algum defensor dos direitos dos animais ainda vai implicar. O Erico, que é um autor magistral, tem passagens eróticas fantásticas no Tempo e o Vento, incluindo um cara usando o buraco de um tronco de árvore como... parceira sexual, digamos. Ah, não lembra? Pois é, mas está lá, o que mostra que os trechos isolados de seu contexto podem parecer mais brutais do que no conjunto do livro. É a velha história de se alarmar tanto com um detalhe que ele vira o centro da discussão.
* Parece que há uma certa orientação para o medo das palavras. Um trecho com cena de sexo em um livro, dependendo do livro e da idade do leitor, me parece uma boa oportunidade para tentar dialogar com a gurizada acerca de um monte de temas prementes, como gravidez na adolescência, doenças transmissíveis e por aí vai. O palavrão nunca é tão falado ou reverenciado quanto na adolescência, e enquanto eu considero plenamente válido tentar civilizar os pequenos selvagens, em literatura determinadas enunciações podem servir para ensinar ao aluno algumas sutilezas sobre narrativa, discurso, prosódia, construção literária. O palavrão está no livro? Quem o diz? Qual personagem? É o narrador em primeira pessoa? Esse palavrão contribui para criar algo sobre o modo de ser desse personagem ou é mesmo de uma gratuidade absurda? O bom educador deveria ser aquele que encontra uma forma de ensinar alguma coisa em tudo. Mas quem discorda poderia sim, sem problema nenhum, protestar contra a adoção do livro, é disso que se faz a democracia. O problema é que no Brasil o negócio de vendas de livros para escolas gira com grana altíssima, e poucas vezes se dá com a transparência devida. Minha pergunta: se ninguém parece ter lido esses livros todos tão impróprios, quem sugeriu que fossem comprados? A inspiração divina?
Tem mais a ser dito, é claro, mas agora é hora de vocês se manifestarem, tá ficando tarde e eu tenho umas coisas para pôr em ordem no meu armário.

Bendito o que semeia livros. Quase não tínhamos livros em casa. Deus o livro, livrai-nos do mal. Neste espaço, o editor de livros de Zero Hora, Carlos André Moreira, partilha com os leitores informações, comentários, curiosidades, dicas, surpresas, decepções, perguntas, dúvidas, impressões, indiferenças e todas as outras tantas sensações proporcionadas pelos livros e pela leitura, esses prazeres tão secretos que merecem ser compartilhados.

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